Total de visualizações de página

quinta-feira, 4 de março de 2010

Poesia de 70


Há dias atrás, li no jornal que o crítico e ensaísta Italo Moriconi resgatou, em livro, poetas quase esquecidos nos meios literários e escolar. Na página, poesias de Cacaso, Waly Salomão, Ana Cristina, Paulo Leminski e Torquato. A poesia despojada e de linguagem coloquial de Ana Cristina me chamou atenção e resolvi disponibilizar para os leitores do blog. Abraço poético.

tantos poemas que perdi
tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone - taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meio-bruxa, meio-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
valei-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...

(Ana Cristina Cesar)

quarta-feira, 3 de março de 2010

A volta do filho pródigo de Rembrandt


Hoje tive a grata oportunidade de compartilhar com meus alunos do turno noturno algumas considerações acerca de uma obra de Rembrandt que conheci através do livro "A volta do filho pródigo" de Nouwen. Conversava com eles sobre a relação entre a obra de arte, o contexto histórico mais amplo e o entorno de quem a pinta. Durante a aula, procurava que entendessem que a pintura, às vezes, retrata o universo de quem a pinta. Digo "às vezes" porque lembrei de Fernando Pessoa que definiu magistralmente o trabalho do poeta: "o poeta é um fingidor." Do mesmo modo, não podemos pensar a pintura apenas como reflexo da vida e dos sentimentos do pintor. Mas,simultaneamente, não podemos desvincular a obra da vida daquele que a criou. Enfim, não estou aqui para tratar do quanto de pessoal e íntimo há na obra de arte, mas para falar do quanto "A volta do filho pródigo" de Rembrandt, que chegou a mim através do livro de Nouwen, pode abrir as portas para uma reflexão acerca da espiritualidade. Esse lugar em nós tão importante quanto as outras dimensões, mas que é sempre relegado a segundo plano ou plano nenhum. Quando falo de espiritualidade não estou me referindo a esta ou aquela religião em particular, mas de um modo de vida espiritual. Nesse sentido, acredito que a filosofia budista tem uma contribuição valiosa.
O quadro de Rembrandt, baseado na parábola bíblica, retrata a volta do filho mais velho que pediu ao pai a parte que lhe cabia nos bens e saiu de casa. Após gastar tudo que tinha, o filho retorna à casa do pai que o recebe afetuosamente. Essa metáfora possibilita interpretações diversas, de modo que optar por uma única interpretação, ou seja, aquela cunhada pela religião, seria reduzir a riqueza de sentidos que a pintura de Rembrandt possibilita. Nessa direção, tenho pensado a "casa do pai" como algo mais próximo, pragmático, imanente, ou seja, a espiritualidade. Essa dimensão humana que negamos, ignoramos, mas que lateja e acena num gesto paterno (sem deixar de ser materno)para que voltemos "à casa do pai" que não é uma igreja ou um deus, mas um modo de vida. Precisamos urgentemente resgatar essa dimensão que nos faz mais humanos, afáveis e dóceis.
Há alguns dias, li nos jornais que um dos assassinos do menino João Hélio estava prestes a receber uma indulgência da justiça; hoje vi no Jornal Nacional que bandidos atearam fogo num micro ônibus no Rio de Janeiro; no final da tarde, na escola onde leciono, dois grupos de alunos aguardavam uma aluna que foi espancada pelos grupos. Cenas da bárbarie urbana. Será que o quadro de Rembrandt pode lançar alguma luz, embora a sombra o cubra, sobre essas realidades? Eu respondo que sim. Tal como o filho da pintura, precisamos voltar a uma prática espiritual que não está relacionado com atos heróicos de fé ou penitências que dilaceram o corpo, mas a atitudes cotidianas que se traduzem em respeito, cidadania e cuidado. No centro da cena, pai e filho se abraçam e o quadro se ilumina expressando o retorno do homem àquele lugar do qual nunca esquece, embora ignore e renegue: a consciência espiritualmente responsável.

terça-feira, 2 de março de 2010

Defesa de mestrado


Na última sexta-feira, dia 26.02, defendi minha dissertação e obtive o conceito máximo: aprovado com distinção. O que deveria ser apenas alegria transformou-se em reflexão acerca da responsabilidade social que cabe àqueles que recebem essa titulação. Penso que há muitos intelectuais neste país que existem apenas no papel, posto que se eximem da responsabilidade de intervir na realidade social através de discussões, propostas e reflexões sérias. A aprovação fez com que vislumbrasse possibilidades profissionais, mas também deu a medida do que posso fazer para contribuir com um país leitor e produtor de textos capazes de promover mudanças sociais. Que venha o doutorado!!!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Recife, aqui estou...


Estou há 15 dias em Recife de mala e cuia. A bem da verdade, não é de agora que nutro um carinho especial por essa cidade, capital do estado que, não obstante as desigualdades, aprendi a amar. Assim, sinto-me em casa e o sentimento de pertença me deixa à vontade nesta terra de Clarice, Bandeira,Dom Hélder, Science e outros.A solidão que essa cidade inspira é do tamanho do espaço geográfico que ocupa.Desse modo, Recife é um convite à poesia. Atravessada por pontes, rios e mangues, a cidade vai desfilando graça e beleza. Mas o Recife não é feito apenas de praças, parques e praias que saltam aos olhos. Tudo isso contrasta com uma realidade cuja tônica é dada pela violência e a miséria de tantos que perambulam pelas ruas centenárias desta cidade. Para minimizar o peso dos contrastes, sugiro uma volta no finalzinho da tarde pela praia de Boa Viagem. Ali tudo parece nivelado, como o horizonte.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Leitura é mesmo fundamental!


Hoje foi um dia daqueles! Mal acordei e já tinha uma avalanche de pequenas tarefas que me aguardavam ansiosas para serem executadas. Antes de levantar, passei alguns minutos pensando nas prioritárias, nas prorrogáveis e naquelas que, decididamente, não precisavam que me preocupasse com elas. Depois de uma manhã esmagada por compromissos inadiáveis, cheguei à parada de ônibus com malas prontas e um cansaço impossível de disfarçar. Troquei algumas palavras com um professor da UFAL,peguei o ônibus e cheguei à rodoviária disposto a desembarcar em Recife com fôlego suficiente para encarar a empreitada que me aguarda nos próximos dias. Para minha tristeza, não consegui vaga no ônibus executivo e tive que me submeter a seis intermináveis horas de viagem. O sacolejar do ônibus, as frequentes paradas para embarque e desembarque de passageiros, as obras que se estendiam ao longo da BR-101 e o calor contribuíram para uma viagem que mais parecia uma sessão de tortura. Como se não bastassem esses fatores, cometi o erro (imperdoável) de colocar meu livro na bagagem que não me acompanhou. Sem contar com a possibilidade de ler e irritado com aquela viagem entediante, lembrei de uma crônica do Luis Fernando Veríssimo chamada Fobias que trata do medo do personagem em não ter o que ler. Nessa crônica, o personagem recorre a diferentes peripécias para saciar sua sede de leitura. Não fui capaz de fazer o mesmo, mas compartilhei por seis horas das angústias descritas pelo personagem. Desci do ônibus aliviado e com a certeza do encontro com a palavra.


Fobias (Luis Fernando Veríssimo)

Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até a treiskaidekafobia (medo do número 13), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insônia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência, – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.

– Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina...

– Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.

– Infelizmente, não tenho nenhuma revista.

– Não é possível! O que você faz durante a noite?

– Tricô.

Uma esperança!

– Com manual?

– Não.

Danação.

– Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.

– Bem... Tem uma carta da mamãe.

– Manda!


(VERISSIMO, Luis Fernando. Banquete com os deuses: cinema, literatura, música e outras artes.

Rio de Janeiro: Objetiva, 2003. p. 97-98)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Sobre versos e sons


Durante estas férias, resolvi ler textos que não estivessem diretamente ligados a minha área de estudo e trabalho. Assim, comprei a biografia Renato Russo: o filho da revolução do jornalista Carlos Marcelo e resolvi me aventurar por uma leitura que traz fatos históricos relacionando-os aos movimentos sócio-culturais que construíram um mito do rock nacional: Renato Russo. Meus olhos correm rápido pelas palavras e a cada capítulo cresce a curiosidade em saber que trajetos Renato percorreu para tornar-se eterno no coração de tantos adolescentes, jovens e adultos acostumados às letras melancólicas e denunciatórias da Legião Urbana.Foi lendo o livro e entendo o contexto em que algumas músicas foram produzidas que voltei a ouvir o repertório da Legião. Vale registrar que tenho a discografia no notebook, além de algumas relíquias como gravações em rádios e outros extras: presente de uma amiga de Maceió. Ouvindo, lendo e perfazendo o trajetos históricos das canções, lembrei-me de situações da minha vida quando adolescente e jovem que foram acompanhadas pelas letras produzidas por Renato. Embalado por canções como Faroeste Caboclo, Será, Metal contra as Nuvens,Monte Castelo, Eduardo e Mônica, entre outras, sempre acabava, de alguma forma, encontrando-me nas linhas e entrelinhas das poesias criadas por Renato Russo e companheiros. Vou aproveitar esse momento nostálgico e oportunizar trecho de Metal contra as nuvens que serviu de pano de fundo para histórias que vivi:

- Tudo passa, tudo passará...

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.


Enquanto escrevo esse texto, escuto Quando o sol bater na janela do teu quarto, Monte Castelo , Maurício e ainda me emociono, reflito e sinto que alguma coisa mudou na minha cabeça... É isso.

domingo, 29 de novembro de 2009



Quem nunca se equivocou?
Quem nunca cometeu um erro por causa de um equívoco?
Quem nunca tentou reparar um erro após ter concluído que tudo se tratava de apenas um equívoco?
Baseado na obra de Ian McEwan e dirigido por Joe Wright, Desejo e Reparação conta com atuações brilhantes de Vanessa Redgrave, Keira Knighttley, Saoirse Ronan e James McAvoy. O filme ainda traz a belíssima fotografia de Seamus McGarvey e música de Dario Marianelli. Tudo perfeitamente combinado numa obra que emociona e encanta.
Isso justifica minhas frequentes voltas à tela para assistir ao filme novamente.

sábado, 28 de novembro de 2009

Entre os Muros da Prisão



O filme é basedo no livro do francês Yves Tréguier e suas cenas são acompanhadas pela música de Charles Court. Na França do pós-guerra, os órfãos dos combatentes franceses eram enviados para Centros de Educação Vigiada. Nesses centros, que funcionam mais como prisões, as crianças sofrem todo tipo de abuso e têm que sobreviver a cada dia.

O Menino do Pijama Listrado



Esse filme é emocionante! A descoberta dos horrores espalhados pelo Nazismo por uma criança alemã de 9 anos. Ao contar a história de Bruno, o pequeno alemão que ignora aquela realidade feita de morte e abandono, o filme nos faz ver o regime nazista pela perspectiva daqueles que desconheciam completamente o que de fato acontecia nos campos de concentração. Isso foi reforçado pela propaganda do governo alemão que omitia os fatos e apresentava uma realidade maqueada. A descoberta de Bruno foi, certamente, a descoberta de muitos outros alemães acerca da realidade dos campos. O filme é baseado na obra de John Boyne, romancista irlandês.

domingo, 5 de abril de 2009

Comunicação?!


"Hoje temos acesso fácil à comunicação, entretanto, o que se diz é de qualidade duvidosa." Foi isso que li num profile de orkut ontem à noite. Não nego que a frase me fez pensar sobre a qualidade do que temos comunicado e de como isso tem afetado nossas relações de um modo geral.

Certamente que os meios de comunicação têm se multiplicado de forma assustadora. Todos os dias surgem novas formas de conectar-se com outras pessoas. Estamos sob uma avalanche constante de tecnologias que favorecem o contato humano, seja físico ou virtual. Não importa a natureza do encontro. O que importa é que temos estreitado caminhos ou, talvez, os caminhos continuem os mesmos, as distâncias não se alteraram, mas criamos meios magníficos que nos fazem percorrer numa velocidade impressionante esses caminhos e travarmos conversas simultâneas mesmo que não estejamos fisicamente presentes. Isso não tem nada de ruim. De minha parte, afirmo que facilitou bastante a vida.

Por outro lado, concordo com o autor da frase que abriu esse texto e penso que, embora disponhamos de meios fabulosos que facilitam o encontro entre pessoas, a comunicação nem sempre acontece como se gostaria porque destituída de interesse, envolvimento, atenção, afeição e outros fatores que colaboram com o êxito de todo e qualquer processo comunicativo que se queira humano. Se por um lado, multiplicaram-se os meios de comunicação, por outro, esvaziaram-se as estantes, os museus, os cinemas, os teatros e todos aqueles ambientes e produtos da cultura em geral que possibilitam o exercício da reflexão, da sensibilidade e dos sentimentos de civilidade. Vejo que não basta ter os meios, faz-se necessário cuidarmos daquilo que, nesse processo humanizatório, contribui para um nível de comunicação que não se restringe às palavras ditas ou omitidas, mas que assume dimensões mais amplas como a polidez, a fineza no trato e o conhecimento refinado. Sem isso, a comunicação não passa de grunhidos primitivos dos quais nada se entende e os meios uma parafernália indesejada porque cria as condições para um encontro que já se espera desqualificado.