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terça-feira, 3 de julho de 2007

PALAVRAS SOBRE CLARICE


Pensar Clarice é pensar os limites da condição humana, ou seja, aquele instante em que nos flagramos pressionados pela interpelação que nos chega da realidade, da subjetividade, do mundo espiritual, do outro. Assim sendo, suas personagens travam durante o desenrolar da narrativa uma relação dialética com o seu entorno que as afeta e desconforta porque incomum, inabitual, estranho. A relação com a alteridade é sempre uma relação contraditória, ambígua e tensa que as faz percorrer níveis diferentes de desequilíbrio na busca da felicidade e do conhecimento de si.
A obra de Clarice é marcada pela introspecção e pela sondagem do “eu”. Não um “eu” psicológico, ou seja, um “eu” que se traduz no comportamento do sujeito, mas um “eu” metafísico, que no seu entorno e a partir dele, faz a experiência da transcendência. Em A Paixão Segundo G. H., Clarice Lispector enuncia que “além do mais a ‘psicologia’ nunca me interessou. O olhar psicológico me impacientava e me impacienta, é um instrumento que só transpassa. Acho que desde a adolescência eu havia saído do estágio do psicológico” (1998:26). A experiência metafísica das personagens claricianas consiste na absorção do mundo e de tudo que é humano pelo “eu”. Ela irrompe do cotidiano, do mundo, do outro, da vida e da morte. Nas suas narrativas cada acontecimento humano, mundano e cósmico é integrado à experiência individual e se reveste de um sentido outro que não aquele imediato e efêmero, mas o que desencadeia um fluxo de consciência que lança o personagem num estado de reflexão que leva à inflexão em busca do equilíbrio existencial. Bosi (1995:424) diz que “há na gênese dos seus contos e romances tal exacerbação do momento interior que, a certa altura do seu itinerário, a própria subjetividade entra em crise. O espírito, perdido no labirinto da memória e da auto-análise, reclama um novo equilíbrio”. A auto-análise de que fala Bosi é precedida pela epifania, ou seja, aquele instante que para Umberto Eco apud Sá (2000:175) “lhe recordava demais um ‘momento de visão’, no qual alguma coisa se revela”. Esse momento epifânico é crucial na vida das personagens claricianas, uma vez que é nesse instante-já que há uma tomada de consciência que revela o desejo essencial furtivamente presente em suas vidas.
A relação de Clarice Lispector com a palavra é uma relação metalingüística, pois constantemente reflete, discute, polemiza e põe em questão o próprio ato de escritura, o próprio fazer literário. Olga de Sá (2000:155) afirma:

Já ficou bastante claro como é importante, na obra de Clarice Lispector, a perspectiva metalingüística do narrador. Não só ele questiona o código, quando procura palavras no dicionário e declara que não sabia que na gíria a palavra ‘galinha’ tinha outro sentido. Mas questiona continuamente a própria narrativa, a essência do ato de escrever, enquanto é preciso usar palavras.


A narrativa se desenvolve numa atmosfera em que a o código lingüístico e seu manuseio é fator de especulações filosóficas, bem como de indagações sobre a estreita relação entre palavra e realidade física e subjetiva. Clarice Lispector confere, ao ato de escrever e ao uso da linguagem para criar mundos hipotéticos, a função instigante de revelar(se), a partir do universo íntimo dos seus personagens, as mazelas sociais, os conflitos existenciais, as crises identitárias, as lutas de classes e a dor humana mais contundente, condição necessária para que se possa vislumbrar o sol de um novo dia, repleto de possibilidades de ser.

domingo, 24 de junho de 2007


É noite de São João. Nas ruas, fogueiras; no ar, o som do crepitar da madeira queimando; no céu, balões e fogos de artifício iluminam a noite fria e chuvosa que debulha silêncio e nostalgia. Longe dos grandes centros que concentram multidões que se empilham para ver/ouvir a banda de forró que sacode as massas, preferi a comemoração tradicional do sítio do meu pai. Sem estruturas homéricas que abrigam shows que nada dizem e, cada vez mais, menos dizem, o sítio nos torna mais próximos do essencial: o convívio familiar, a comida típica, a brincadeira, a conversa, o silêncio, a volta. São elementos, a meu ver, fundamentais para que aprendamos a entrever nas malhas desse dia, véspera de São João, centelhas de felicidade que advêm do cotidiano humanizado porque simples e significativo.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

UMA AMIZADE SINCERA (Clarice Lispector)


Sei que o texto é longo, mas vale um post e uma leitura. Falar do meu amor pela obra clariceana é desnecessário, pois, aqueles que me conhecem, sabem que não saio de casa sem um livro de Clarice Lispector. Quando li esse conto pela primeira vez contava com pouco mais de 13 anos, mas entendi bem sua mensagem. O texto foi apresentado por um amigo que se despediu da minha vida tal qual o personagem do conto. Assim, dedico esse post aos amigos que permanecem nutrindo a certeza de que "somos amigos, amigos sinceros".

Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de um amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seus amores. Experimentávamos ficar calados — mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.
Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto — eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.
Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.
Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.
Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.
Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.
É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tomamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade — posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.
Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.
Encerrada a questão com a Prefeitura — seja dito de passagem, com vitória nossa — continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? Mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.
A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.

("Felicidade Clandestina", 1998)

sábado, 3 de março de 2007

Mais uma crônica do mestre Paulo Gervais



"E os que não marcham, nem sacolejam, nem vão atrás dos trios elétricos?"


Sábado. Fui a uma loja no centro da cidade para fazer umas compras. Primeiro ao me dirigir ao vendedor da loja, senti que quase gritava e que ele tinha dificuldade para entender o que eu queria; depois eu mesmo corria pelos corredores da loja como se estivesse fugindo de alguma coisa, e ele inquietava-se tentando inutilmente atinar com os detalhes do meu pedido. Na hora de fazer o pagamento, a fila, com apenas uma pessoa na minha frente, parecia ter cem e demorar-se infinitamente para andar, e a atendente olhava-me compadecida, quase pedindo desculpas. Eu suava. O cenho franzido, os olhos quase fechados. O coração batendo numa aceleração de bicho acuado, disposto a correr ou a matar. O que eu via e ouvia que me deixava assim não devia me deixar assim e mais do que isto: fazia promessas de pacificar o meu espírito! Levantado num palco, adornado por indefectíveis bolas de sopro (Ó coloridos ventos!!) e abastecido por enormes caixas e instrumentos de som, alguém gritava (ainda que dissesse estar cantando...). E se era para me convencer de alguma coisa, suas palavras não chegavam para constituir um argumento, e se era para tocar a minha alma, tudo que logravam obter de mim era a vontade de não estar ali. O que quer essa gente afinal, gritando assim em praça pública o seu credo pessoal? (a praça que é de todos, inclusive dos que não crêem...?). Em que lei, ou razão, ampara-se o comportamento de uma pessoa ou instituição que, embora seja livre para dizer e praticar a sua fé, o faz contra o direito dos outros ao silêncio e à privacidade? Como se justifica dar a alguém o direito de gritar tão alto (ainda que seja o nome de Deus, ou do que é justo ou verdadeiro...) que em redor os outros se incomodem na sua privacidade (não consigam dormir, ou ler, ou assistir tv, ou ficar em silêncio, ou trabalhar, ou dizer as suas orações no recolhimento da sua casa?) e instalar-se no espaço público interceptando as pessoas como se elas tivessem que dar-lhes ouvidos? Que espécie de gente é esta que quer impor-se pela altura do som da sua voz, como se os outros, incomodados, é que devessem retirar-se? Aqui não vai uma crítica à fé, mas à maneira de manifestá-la, contrariando um princípio básico da vida social, que no Brasil se orienta pela natureza laica e democrática do Estado: somos diferentes uns dos outros, e deve ser garantido a cada um de nós, sem distinção, sentir, pensar e fazer respeitando o outro. A lei, produzida pelo Estado, deve ser o limite do exercício da nossa liberdade. A lei sim, contra os despotismos de toda natureza: político... ou religioso. A consciência livre é a arma que o cidadão deve manter engatilhada contra a tentação dos absolutismos, a tentação de ceder à maioria, de fazer por que todo mundo faz, de ser por que todo mundo é. É necessário dizer não. Ser do contra, no corpo e na alma, na vida privada como na vida pública, para salvaguardar a dignidade do homem... e de sua fé (seja ela qual for). Amém?

sexta-feira, 2 de março de 2007

A difícil arte de ensinar.


Não sou professor de longa data, embora exerça o magistério desde que ingressei na faculdade. Mas, como não faz muito tempo que colei grau, então, isso faz de mim um professor que engatinha na difícil arte de ensinar.

Cada dia é um desafio revestido da imprevisibilidade peculiar aos indivíduos que formam o nosso público, os alunos. Cada aluno representa uma história prestes a ser contada. São como pergaminhos que se desenrolam à nossa frente e que lemos, tantas vezes, com o mesmo dissabor que lemos um livro de autor indesejado. Sua vida é tosca, seu comportamento é agressivo, sua perspectiva é estreita e o respeito por aqueles que cuidam da sua educação é anêmico. Nisso, há a parcela de culpa do aluno e há aquela que cabe à instituição. No que tange à instituição, temos a falta de compromisso, responsabilidade e criação de um lugar agradável onde o aluno sinta prazer, e não obrigação em se encaminhar todas as manhãs para o estabelecimento de ensino. Tantas vezes o faz como se estivesse se dirigindo ao matadouro.

Por outro lado, a profissão tem sua riqueza. Nós, professores, temos, todos os dias, a possibilidade única e singular de conhecer nossos limites e nos reconhecermos frágeis. Desse modo, abandonamos a imagem de homem infalível que ostentamos e, tantas vezes, representamos. Somos todos falíveis. Na sala de aula fazemos a experiência diária da nossa falibilidade.

Descubro, na relação com eles, que indiferente, agressivo, indisciplinado, rude e egoísta também sou. Lembro que não tenho, como eles, a mesma energia, curiosidade, sonho, desejo e força. Olho para meus alunos e, por vezes, anseio ter as características que os fazem diferentes de mim. E lembrar que um dia eu tive as mesmas inquietações, as mesmas dúvidas, as mesmas perguntas e os mesmos dilemas. Basta lembrar que um dia tive a mesma coragem de transgredir e que, foi nesse momento de inversão da ordem, que verdadeiramente aprendi.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Aos amigos


"Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão".

Herberto Hélder


Encontrei essa poesia no blog "Amantes da Poesia". Interessante que, imediatamente, ela me disse muito, talvez, mais do que esperava naquele momento. A impressão que tive foi de ver todos os meus amigos representados nessas poucas e simples palavras. Aqueles de ontem e de hoje, o distante e o próximo, o presente e o ausente. Todos, ali, nas linhas e entrelinhas do texto poético.

A memória foi ativada quando da leitura do texto e lembrei dos amigos que não estão mais comigo, mas que foram fundamentais na construção da minha história pessoal. Talvez não fossem amigos para a vida toda, mas para aquele momento. Chegaram naquele instante necessário e se despediram quando viram que sua missão na minha vida se havia cumprido. Abriram fendas, fizeram-se ao largo e pousaram em outras vidas. Às vezes, pego-me imaginando como seria meu trajeto pessoal se não fosse a presença terna, serena, misericordiosa e solidária desses meus amigos. Certamente, uma alegria, sorriso e abraço a menos na minha caminhada. Contribuíram durante um tempo, alguns, durante um tempo ínfimo, mas deixaram pérolas que carrego vida afora.

Há aqueles que, diariamente, permanecem comigo . São poucos, mas são eles que dão um sentido luminoso aos meus dias. Há os tristes, embora a vida seja generosa e não tenha deixado faltar-lhes nenhum dos "dedos das mãos". Há aqueles que recebem a vida e seu mistério com reverência e estão sempre em harmonia com a realidade circundante. Suas palavras são seminais e seus gestos apontam para o alto. Há aqueles cuja existência está deitada na dolorosa experiência do desamor, do desafeto e do ostracismo. Receiam qualquer proximidade humana, com exceção daqueles que ganharam sua confiança e tiveram a porta do seu coração aberto. Esses estão sempre fazendo a radiografia daqueles que tentam ultrapassar sua fronteira. Temem o encontro humano, desconfiam demasiadamente, selecionam e compartimentarizam as pessoas em categorias, sem deixar-lhes uma brecha para que se mostrem e revelem seus mistérios. Em todos, encontro talentos que não foram guardados ociosamente. Não obstante os limites, cada um traz o dom de preencher meu dia e fazê-lo feliz. Carregam esse talento que construíram no silêncio ou no ruído da vida; o talento para se apaixonar mil vezes durante o dia por aquele por quem se sabem amados: o amigo.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Pra vida carnavalizar...


A festa segue seu curso e os clarinetes anunciam que seu fim não está próximo. Mal amanhece o dia, ouço do quarto onde descanso da noite de abertura, o ribombar dos blocos e troças que, céleres, percorrem as ruas do Recife a esbanjar folia.

No fim da manhã, segui para Olinda com um amigo que queria prestigiar a dança e o talento de uma amiga. Acompanhamos o grupo de dança que, em passos marcados pela sincronia do ritmo africano, sobem e descem as ladeiras. No embalo do som dos pratos, clarinetes e tambores nos entregamos a mais bela condição humana: a transcendência. O som, o ritmo, a dança, a coreografia, o sincronismo de vozes e corpos: tudo conspirava a favor de uma experiência outra, não apenas aquela imediata, imanente e prosaica, mas aquela do deslumbramento e encantamento. É uma pena que a modernidade, com todo seu aparato tecnológico, produza homens apáticos à realidade que os norteia e incapazes de encantamento. Li, certa vez, no livro O Mundo de Sofia de Jostein Gaarden que filosofar é encantar-se com a vida. Mas o encantamento não é condição básica apenas do filósofo ou do ato filosófico. É, antes de tudo, condição indispensável a qualquer ser humano que luta contra o desespero e a loucura dos dias. Falta-nos essa atitude simples, mas não fácil, de encantar-se com o cotidiano, a realidade, o corriqueiro.

No domingo conheci o carnaval de Bezerros. Já conhecia esse carnaval de ouvir dizer e, diga-se de passagem, os comentários eram os melhores. Inicialmente relutei em aceitar o convite, mas depois me rendi e viajei. A festa faz jus aos comentários feitos. Nada extravagante nem simplório. Há um misto de simplicidade e sofisticação na decoração das ruas e casas. Quando do retorno, paramos num restaurante e conheci dois estrangeiros que faziam parte de um grupo de maracatu (nem sabia que estrangeiro gostava de maracatu a ponto de formar grupos e sair cantando e dançando por aí). Um deles é mexicano mas há anos mora na Dinamarca e o outro é dinamarquês. Trocamos algumas palavras e o mexicano me falou da valorização do maracatu no mundo. Fiquei impressionado! Não imaginava que esse bem cultural tivesse tamanha expressão em países que julgava não se interessarem por cultura produzida em países subdesenvolvidos e, por isso, considerada cultura de sucata. Vivendo e aprendendo...

Na segunda-feira conheci a tão famosa Noite dos Tambores Silenciosos. É algo impressionante e recomendável. As indumentárias dos componentes das Nações de Maracatu são belíssimas, a alegria que estampam é sincera e a louvação que fazem pelos ancestrais arrepia os ossos. Não hesitei em fotografar e, em meio a tantas fotografias que fiz, uma me chamou particular atenção, por que retrata o sorriso espontâneo de uma menina em seu momento mais glorioso. Seu cotidiano, como será? Que faz no dia-a-dia? Que sonhos nutre? Que dificuldades enfrenta? Sabemos que os integrantes das Nações de Maracatu são oriundos da periferia. Aquela festa os promove, os projeta e, por uma noite, faz de todos eles, destaques. Aquela menina olha para a câmera e abre um largo sorriso que se traduz em alegria, por ser, ao menos uma vez no ano, reconhecida por um estranho que por ali passa e admira sua indumetária, dança e fidelidade à nação.

Esse ano aproveitei o carnaval de Recife e Olinda como nunca aproveitei nos anos anteriores. Muitas foram as impressões deixadas, mas quis me ater a essas. A alegria do carnaval se transformou em ensinamento que levarei para meus dias.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Carnaval 2007: alegria! alegria!


Há alguns dias não escrevo no blog. O motivo foi minha viagem a Recife para participar do carnaval. Como é de costume, fiz a ponte Recife-Olinda. De todos os carnavais passados na capital pernambucana, esse, sem dúvida, foi o melhor. Dessa vez, participei de um número maior de eventos paralelos que ocorrem na cidade. A diversão era garantida em todas elas. A boa companhia foi imprescindível e a cerveja indispensável numa cidade onde agito e calor parecem querer esmagar e extenuar os foliões que ali brincam.

Voltei com a bagagem carregada de contentamento, pois as expectativas excederam a pequena caneca de esperança que levara. Nas idas e vindas aos pólos de folia ficaram impressões das mais diversas, percepções de um mundo em constante movimento, de uma gente que surpreende a cada gesto, palavra, dança, abraço e sorriso. A vida, generosamente, me permitiu conhecer pessoas variadas, de culturas diversas. Com algumas conversei mais demoradamente, com outras brinquei enquanto pulava incansavelmente. Mas todas, sem exceção, foram particularmente afáveis, acolhedoras e abriram as portas do seu universo íntimo para um estranho de quem não tinham informação alguma. Houve também quem não falasse nada. Silêncio na voz, mas sorriso escancarado e alegria estampada. Esses gestos valeram mais que mil palavras.

Na sexta-feira encontrei os amigos de sempre. Aqueles que não nos faltam quando estamos dividindo com eles o mesmo chão. Os reencontros foram deitados na relva de um caloroso abraço e de companhia amiga que não faltou nesse primeiro dia. Não obstante o cansaço do trabalho e de uma viagem que durou quatro horas, a primeira noite carnavalesca me recebeu como que num berço onde sossegadamente participei de uma realidade onde euforia e serenidade conviveram pacificamente. Tudo esteve muito bem casado e a hormonia dos acontecimentos cooperaram com o primeiro dia de festa.

As manifestações culturais arrancaram de mim aquela reverência respeitosa à criatividade e fidelidade de um povo àquilo que os une e identifica: a cultura. Bem, ainda não recuperei o sono que passei nas noites de folia e farra nas ruas do Recife Antigo. Por isso, vou dormir e continuarei a escrever sobre as experiências vividas no carnaval nos próximos dias.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

RECORDAÇÕES DE UM MESTRE


Hoje, conversando com amigos, recordei as aulas do Profº Paulo Gervais. Discorri sobre o modo de falar, o pé encostado na parede, a voz aveludada e a serenidade que marcavam suas aulas. Era impressionante o efeito que suas palavras tinham sobre a platéia atenta que o escutava sem pestanejar. Sentimos sua saída da faculdade, mas ficaram seus ensinamentos, sua generosidade e atenção. Abaixo, uma de suas crônicas:



Acerca do nosso tempo e sua medida


Neste inverno, o dia inteiro passa com a mesma cor. Não adianta procurar no céu o risco de sangue das horas da barra da manhã quebrando, nem à tardinha o ouro velho das horas do sol das almas. Todas as horas têm a mesma cor cinzenta. Então para que saber as horas, se o céu não se altera? E no relógio apenas se pode contar números? Esta hora, por quem perguntas, sei dizer que passa, por que o perfume antes vivo na toalha agora quase não se sente, e um silêncio cresce, e cede a uma dor de coisa já vista e sofrida a novidade do primeiro encontro. Não conto os números no relógio para medir a extensão do nosso tempo; ele tem uma duração de alegrias e dores. Não nasce o sol nem se porá sobre nós. Estamos fora da órbita dos dias; e seu tempo não se mede em números, nem pelo tamanho das sombras, ora longas ora curtas - como lâminas negras projetando cortes sobre a carne dos mortais; nasce em nós o tempo e vive em nós; é a duração do que sentimos, e as estações, sua qualidade. E por conta disto, em nosso coração aninhou-se uma primavera grande que, muito orgulhosa, não quer saber do verão que queima a terra, e joga areia por onde vamos, nem do inverno, que chove até fazer no chão um verde de lôdo traiçoeiro, que faz deslizar e cair. E apesar de seguir lá fora o mundo vestido em paletó de cinzas, em nós a primavera se desnuda; em nós é que se levanta o sol e sopram ventos de festa.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

(DES)ENCONTROS


"A vida é a arte do encontro, embora haja tantos desecontros pela vida", disse o poeta. Hoje quero preferencialmente escrever sobre (des)encontros. Cada encontro humano não passa despercebido pelos nossos sentidos e afetividade. Somos, todos, afetados pelos encontros que travamos diariamente. Os efeitos da presença do outro nos afetam em diferentes proporções: uns mais, outros menos. O grau de positividade e negatividade deixada por aqueles que cruzam nossos dias também obedece dimensões diferentes. As horas passam e as pessoas passam deixando suas marcas singulares ou destrutivas. Em nosso arranjo existencial, psíquico e biológico engendramos as imagens, percepções e posições que o outro assume a nosso respeito. A partir desse tripé construímos uma concepção acerca de nós mesmos e nos comportamos a partir delas. Acabamos por assumir o estereótipo desenhado pelo outro e introjetamos imagens pré-concebidas. Então, durante a vida, vamos nos adequado às concepções e desejos alheios. Não há encontro humano neutro. Todo encontro social nos afeta sobremaneira e, na ciranda da vida, dançamos conforme a música, ou seja, conforme a normatização social, a ideologia e regras do grupo , as crenças, os mitos que carregamos ou nos são impostos e o pré-conceito que o outro tece a nosso respeito.

Durante a vida nos relacionamos com diversos tipos de pessoas. Com o passar do tempo, aprendemos a conviver com alguns deles, embora outros ainda nos escapem pelo grau de imprevisibilidade. Esses diferentes tipos determinam os tipos ou máscaras que assumimos na nossa caminhada existencial. Assim sendo, nossa liberdade é sempre liberdade cerceada, restrita às convenções sociais e individuais. No jogo psicológico que jogamos cotidianamente encarnamos comportamentos diferentes nas diferentes situações sociais. Vestimos a roupa que é mais adequada aquele momento e situação. O outro observa-me e determina o que deve dizer, como devo dizer e quando devo dizer. O mesmo vale para o comportamento, as escolhas e decisões.

No tabuleiro onde se encontram as peças ou tipos humanos nos deparamos com o tipo autoritário, solitário, carente, ranzinza, piedoso, fracassado, murmurador, intelectual, etc. Ademais, há aquelas pessoas convencidas que o outro deve estar sempre à sua disposição. Em algumas relações amorosas não é incomum acontecer isso. A lógica é a seguinte: "eu não quero me comprometer com você, mas quero-o sempre por perto. Afinal de contas, você supre, como ninguém, minha carência afetiva". São as ressonâncias da nossa sociedade funcional. A lei é não se responsabilizar pelo outro e sua felicidade, mas usar sua eficiência em preencher os vazios que outros não conseguiram ou ter servilmente à disposição os seviços afetivos e sexuais que dispõe. A lógica é cruel, uma vez que fere a dignidade da pessoa humana que merece ser amada pelo que significa em grandeza, singularidade e individualidade. Os princípios que norteiam nossas relações são aqueles da sociedade capitalista que visa acumular lucro em detrimento da valorização e promoção da vida humana. Vivemos a "era do ter". Raramente você escuta as pessoas usarem o verbo ser. Todos os dias você escuta a mesma ladainha: "eu tenho um celular com câmera", "eu tenho um carro do ano", "eu tenho namorado (a)", "eu tenho amigo(a)", etc. E dizem ter pessoas como se pessoa fosse mercadoria. Não obstante a mecânica neo-liberal ver em tudo um produto potencial a ser comercializado e gerador de lucros, para mim pessoa ainda é pessoa e traz outros caracteres bem diversos de uma mercadoria de supermercado. Nossa sociedade capitalista nos legou a lição de que mais vale aquele que tem e não aquele que é. Seguindo essa lógica desumana passamos a nos relacionar com as pessoas como se fossem produtos dos quais tiramos um proveito passageiro, provisório e depois descartamos para adquirir outro produto mais conveniente as nossas necessidades imediatas. Assim sendo, os encontros não são mais possibilidades de descoberta, encanto e enamoramento, mas desencontro daqueles que, iludidos pela proximidade física, se distanciam espiritualmente.

Alguns questionam meu modo "esquisito" de viver a vida. Esses camaradas que me esmagam com perguntas e conselhos dos mais variados se dobram facilmente à mentalidade dominante do grupo que assevera incisivamente: "a multiplicidade de relações irresponsáveis é fator de felicidade". Eu até acreditaria e seguiria o preceito se, tantos deles, para não dizer todos, não viessem a mim, após vivenciarem relacioamentos frustrados e vazios, e debulhassem um terço de reclamações e queixas. Assim sendo, prefiro permanecer no lugar que estou. Deixem-me em paz, porque sou feliz no modo de vida que construí para mim. Sou orientado por outros princípios, embora me pegue, tantas vezes, a dançar a mesma canção.