Se não falas, vou encher o meu coração com o teu silêncio e agüentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vigília estrelada com a cabeça pacientemente inclinada. A manhã certamente virá; a escuridão se dissipará, e a tua voz se derramará em torrentes douradas por todo o céu. Então as tuas palavras voarão em canções de cada ninho dos meus pássaros, e as tuas melodias brotarão em flores por todos os recantos da minha floresta. (Rabindranath Tagore)
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
O Lado Oculto da Viagem
Ele estava atônito. Corria de um lado para o outro, ensandecido, pensamentos confusos, distraídos. Ainda não havia absorvido toda a tragédia daquele momento nem conseguia acreditar que por um segundo, talvez menos, aquilo poderia ter sido evitado. Seu rosto suava, não sabia que direção tomar nem decidir por uma ação que conseguisse salvar o irmão que agonizava dentro do carro. Súbito, pensou em como seria a vida e qual o desfecho daquela cena vermelha, caótica e prestes a desembocar em outros dramas. Não havia nada de idílico. Não havia imaginação, fantasia, embora sua cabeça atordoada misturasse tudo isso. Havia uma situação empírica, prosaica: um jovem de 20 anos estava com seu cotovelo prensado nas ferragens de uma D-20. Curiosos começaram a parar, mas não ofereciam ajuda. Outros, porém, encheram-se de compaixão por aquele miserável que agora desmaiado já não via nem sentia nada. O trabalho árduo de retirar aquele braço fincado entre ferragens esgotou os homens que trabalhavam com empenho. Exaustos, seus rostos suavam e os pingos cravavam sementes no chão daquela estrada. Quem sabe a esperança nascesse dali, daquele trabalho esmerado e sem intervalo. Braço fora das ferragens, corpo desfalecido, instala-se a tensão. Quem levará o jovem a Recife, cidade mais próxima do ocorrido, para receber os primeiros socorros? Pessoas afastam-se. Seguem seu rumo e procuram esquecer a cena para que a consciência não os torture. Um homem pede que levem o ferido e deponha seu corpo no banco de trás do seu carro. Durante o percurso, discutem para onde levar aquele cujo braço se mantinha atado ao corpo por um pouco de músculo e pele. Hospital particular e cirurgia que durou oito horas. Ao longo das horas, pai, irmã, irmão e cunhado aguardam nervosos e com uma ansiedade estampada que não deixava dúvida acerca da gravidade da lesão. O efeito anestésico passa e, aos poucos, o jovem volta à consciência. O ambiente lhe é estranho porque, segundo sua memória, sua vida parou no percurso, no vento no rosto, nas faixas passando e deixando "um mundo" para trás. Não se assustou. Não fez alarido. Não reclamou. Nem mesmo perguntou: - O que aconteceu? Seus olhos embaçados seguiam a entrada organizada da família que veio ter com ele e esclarecer o que para ele ainda era uma espécie de sonho ruim durante um cochilo que dera durante a viagem. Até então, ele achara que havia sido uma fratura simples e não fez estardalhaço. Pensava que aquela volta para casa duraria dois ou três meses e que aquelas ataduras, gesso e tipoia que tanto incomodavam na hora de dormir seriam retiradas em um mês e logo voltaria às suas atividades. Enganou-se.
"De alguma forma sobrevivi à noite. E ressurgi com o dia. "
(Emily Dickinson )
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Os Sapatinhos Holandeses e o Amor de Amizade
Estávamos no verão de 1999. Eu morava em Salvador e, por dois anos, vivenciei a dor e a alegria de viver numa cidade que apresenta desigualdades tão gritantes. No que toca à alegria, isso ficou por conta da minha amizade com Gregório, monge beneditino do Mosteiro de São Bento da Bahia.
Dom Gregório, como era chamado no mosteiro, tinha um sorriso largo, fácil, uma disposição invejável, uma inteligência singular que permitia que transitasse pelas artes plásticas, canto, literatura, instrumentos, administração etc. Acrescento os cursos que ministrava no Brasil e exterior, a Holanda, p.ex.
Quando voltou da Holanda me procurou e trazia algo na mão que era difícil distinguir. Ao se aproximar, vi que era um par de sapatos tipicamente holandês. Recebi o souvenir agradecido e sentamos para conversar sobre a viagem, o curso, a Holanda. Ele me contou histórias hilárias sobre o cotidiano de Amsterdam. Entre uma risada e outra, passava o olhos nos sapatinhos holandeses que pareciam de porcelana, mas certamente foi trabalhado com outro material. Na frente, um moinho de vento (um símbolo da Holanda) pintado em azul escuro que ganha nuances mais delicadas em alguns pontos. Nos lados, Holland e no restante dos graciosos sapatos, trevo de quatro folhas, pétalas, bolinhas. Uma fita com as cores da bandeira holandesa amarra o par. Consegui na internet uma imagem com um par bastante parecido:
Além dos sapatos, trago as cartas que trocávamos quando se encontrava em férias e os livros que trazem dedicatórias que tinham a mesma medida da delicadeza que deve ter uma amizade.
Fui embora. Voltei a Garanhuns e trouxe comigo os significativos sapatos. Desde então, morei em muitas cidades e sempre levo comigo aquele par de sapatos que são pendurados na parede do meu quarto. Assim, é possível lembrar daquela amizade que pisou o chão da minha existência e deixou sulcos profundos porque sincera.
Dom Gregório, como era chamado no mosteiro, tinha um sorriso largo, fácil, uma disposição invejável, uma inteligência singular que permitia que transitasse pelas artes plásticas, canto, literatura, instrumentos, administração etc. Acrescento os cursos que ministrava no Brasil e exterior, a Holanda, p.ex.
Quando voltou da Holanda me procurou e trazia algo na mão que era difícil distinguir. Ao se aproximar, vi que era um par de sapatos tipicamente holandês. Recebi o souvenir agradecido e sentamos para conversar sobre a viagem, o curso, a Holanda. Ele me contou histórias hilárias sobre o cotidiano de Amsterdam. Entre uma risada e outra, passava o olhos nos sapatinhos holandeses que pareciam de porcelana, mas certamente foi trabalhado com outro material. Na frente, um moinho de vento (um símbolo da Holanda) pintado em azul escuro que ganha nuances mais delicadas em alguns pontos. Nos lados, Holland e no restante dos graciosos sapatos, trevo de quatro folhas, pétalas, bolinhas. Uma fita com as cores da bandeira holandesa amarra o par. Consegui na internet uma imagem com um par bastante parecido:
Além dos sapatos, trago as cartas que trocávamos quando se encontrava em férias e os livros que trazem dedicatórias que tinham a mesma medida da delicadeza que deve ter uma amizade.
Fui embora. Voltei a Garanhuns e trouxe comigo os significativos sapatos. Desde então, morei em muitas cidades e sempre levo comigo aquele par de sapatos que são pendurados na parede do meu quarto. Assim, é possível lembrar daquela amizade que pisou o chão da minha existência e deixou sulcos profundos porque sincera.
sábado, 30 de novembro de 2013
Rodin e Camille Claudel
Foi no Teatro Santa Isabel que vi a peça Camille e Rodin que, diga-se de passagem, teve os ingressos esgotados no dia anterior. Só consegui porque houve desistência e comprei ingresso de terceiro. A relação - entremeada de dor e alegria - entre os escultores franceses Camille e Rodin não me era estranha uma vez que já havia assistido dois filmes que fazem recortes diferentes dessa relação. No primeiro filme, Camille Claudel, temos o encontro e a aceitação de Camile por Rodin para que trabalhe em seu atelier, seguidos da paixão e das consequências dessa paixão para a vida dos escultores. No segundo, Camille Claudel 1915, tem Juliete Binoche no elenco e foi dirigido por Bruno Dumont. Esse segundo faz outro recorte da vida de Camille, pois agora se encontra num manicômio por vontade e determinação da família. Faltava, então ver Camille e Rodin no palco.
Com Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore no elenco, a peça começa apresentando Camille internada no manicômio e muito angustiada com a ausência da família que a abandona naquele lugar que julga não pertencer. Ansiosamente aguarda uma visita do irmão e escreve reiteradas cartas suplicando que a visite e a leve com ele.
Num cenário construído para cooperar com a carga dramática dos fatos que estão por vir, o segundo ato coloca Camille no atelier de Rodin pedindo para ser uma de suas alunas. No início, a rispidez de uma resposta que desconfia do talento da moça é substituída por uma aceitação que chega seguida de admiração pelo trabalho da jovem. Apaixonam-se.
Essa paixão, em ambos, desagua na arte que produzem e a cooperação de Camille ajuda a projetar ainda mais um Rodin que já goza de um reconhecimento tácito. Com o passar do tempo, Camille passa a exigir momentos cada vez mais extensos ao lado de Rodin que não os pode dar porque é casado e divide sua atenção com outra mulher. Aos poucos, os encontros entre Camille e Rodin passam a ficar cada vez mais tensos. Ela questiona o papel da arte e seu valor estético num momento de transição artística pela qual a França passa, dispara questões sobre a relação amorosa que entretém com Rodin e critica fortemente o fato de Rodin se apropriar das suas obras e vendê-las como sendo dele. O clima de tensão aumenta à medida que a narrativa se desenvolve e os encontros entre Rodin e Camille parecem um verdadeiro barril de pólvora prestes a explodir. O desenrolar dos fatos são intercalados com a solidão e crises que Camille vivencia no manicômio.
Não há dúvida que ambos se amavam. Mas esse amor não foi suficiente a ponto de Rodin fazer uma escolha por Camille e respeitá-la como escultora de grande talento. Antes de ser enviada ao manicômio pela família, Camille destrói toda sua obra como forma de simbolizar uma ruptura com um passado de tormento e também com o fato de em vida não ter conseguido vender uma única peça.
O texto é extremamente denso e ácido, a iluminação fraca e que deixa o palco na penumbra acentua a tragicidade que marcou essa história de prazer, amor e ódio, o cenário e os figurinos formam com o todo da peça o ambiente ideal para o desenvolvimento de uma narrativa dividida entre os desatinos de uma paixão e a tentativa de construção de uma nova maneira de significar por meio da arte as mudanças desencadeadas entre os séculos XIX e XX.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
A extensão do Caminho
Caminhos da América do Sul calculou o percurso realizado até agora. Esse
percurso implica Argentina-Chile-Peru e Bolívia. Foram 5.133km de
experiência geográfica e humana.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Brassaï e a noite
Brassaï interessava-se pela noite parisiense. O
olhar do fotógrafo privilegia o corpo. Esse corpo vigiado, normatizado,
macerado - no dizer de Foucault em Vigiar e Punir - durante o dia, mas
que à noite encontra uma brecha através da qual resiste,
subverte, singulariza-se. O seu olho não deixa escapar nada nem
ninguém: prostitutas, rondas noturnas, gays, cabarés, amantes,
crimes...Tudo cabe no seu olhar sensível àquilo que evitamos ver, mas
está lá.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Direito dos animais: “eles têm a qualidade idêntica aos homens”
Entrevista: Matthieu Ricard,
monge budista tibetano, autor e porta voz de S.S. o Dalai Lama,
juntou-se ao manifesto para mudar o status jurídico dos animais. Ele
explica ao jornal francês, Metronews, as razões de seu engajamento nesta
causa. Tradução do francês para o português de Gleisy Coimbra.
Matthieu Ricard faz parte das numerosas assinaturas do manifesto de um novo status jurídico dos animais na França.
Porque ter assinado este manifesto?
Porque é uma realidade: os animais são seres sencientes, que tem um direito natural de não sofrer ou pelo menos que não os levemos ao sofrimento. É preciso ser cego para não ver que os animais têm as qualidades idênticas aos homens: empatia, bondade, cuidado com os outros seres… Assim, não podemos os tratar como controladores ou objetos.
O que este reconhecimento poderá implicar?
Reconhecer que são seres sencientes implica na forma maneira a qual nós os tratamos. A maldade já é punida por lei. Mas quando se trata de exploração industrial, a lei é muito ampla. Por exemplo, 20 % dos animais enviados à matadouros ainda estão conscientes no momento em que eles são abatidos. Isto é inadmissível. Sendo consideradas como objetos, é uma desculpa fácil de usar a nosso critério. Os humanos matam 1 milhão de animais terrestres e cinco vezes mais de animais marinhos a cada ano. É preciso ver a verdade. Não pode-se ter uma sociedade mais ética deixando de fora uma seção inteira da vida, que são animais.
É preciso, então, acomodar todos os animais no mesmo barco?
Claro, eles são seres sencientes. É preciso reconhecer todos eles como tais. Pessoalmente, eu não faço diferença entre uma vaca e um cachorro. Os porcos são, de certa maneira, mais inteligentes que os chimpanzés, por exemplo. E se os peixes não têm expressão facial, eles têm um mesmo sistema nervoso que faz com que eles sintam dor. Não se pode negar.
Como a religião budista vê os animais?
Como um ser senciente que não têm a mesma sofisticação do homem – chamado de inteligência – mas como ele tenta evitar o sofrimento e atingir o bem-estar. Esta aspiração deve ser respeitada. Neste sentido, a não violência frente aos os animais é uma extensão lógica do que defendemos para os seres humanos.
Porque ter assinado este manifesto?
Porque é uma realidade: os animais são seres sencientes, que tem um direito natural de não sofrer ou pelo menos que não os levemos ao sofrimento. É preciso ser cego para não ver que os animais têm as qualidades idênticas aos homens: empatia, bondade, cuidado com os outros seres… Assim, não podemos os tratar como controladores ou objetos.
O que este reconhecimento poderá implicar?
Reconhecer que são seres sencientes implica na forma maneira a qual nós os tratamos. A maldade já é punida por lei. Mas quando se trata de exploração industrial, a lei é muito ampla. Por exemplo, 20 % dos animais enviados à matadouros ainda estão conscientes no momento em que eles são abatidos. Isto é inadmissível. Sendo consideradas como objetos, é uma desculpa fácil de usar a nosso critério. Os humanos matam 1 milhão de animais terrestres e cinco vezes mais de animais marinhos a cada ano. É preciso ver a verdade. Não pode-se ter uma sociedade mais ética deixando de fora uma seção inteira da vida, que são animais.
É preciso, então, acomodar todos os animais no mesmo barco?
Claro, eles são seres sencientes. É preciso reconhecer todos eles como tais. Pessoalmente, eu não faço diferença entre uma vaca e um cachorro. Os porcos são, de certa maneira, mais inteligentes que os chimpanzés, por exemplo. E se os peixes não têm expressão facial, eles têm um mesmo sistema nervoso que faz com que eles sintam dor. Não se pode negar.
Como a religião budista vê os animais?
Como um ser senciente que não têm a mesma sofisticação do homem – chamado de inteligência – mas como ele tenta evitar o sofrimento e atingir o bem-estar. Esta aspiração deve ser respeitada. Neste sentido, a não violência frente aos os animais é uma extensão lógica do que defendemos para os seres humanos.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Crônicas de um mochileiro em Sucre
Sucre é a capital constitucional da Bolívia e La Paz a capital administrativa. Em Sucre, o "caminho" aproximava-se do fim. Após Sucre, viria Santa Cruz de la Sierra que serviria apenas de trampolim para me lançar de volta ao Brasil.
O encanto de Sucre não dá as boas-vindas ao turista na rodoviária que não agrega beleza alguma e mais parece um mercado popular onde corredores estreitos abraçam milhares de pessoas que chegam e saem da cidade a todo momento. Cansado, com pouco dinheiro e de posse da informação de que o centro de Sucre é muito caro, resolvi hospedar-me num hostal próximo à rodoviária. Não recomendo. Não que o lugar seja ruim, mas o mochileiro ficará muito distante do centro e dos pontos turísticos da capital. Além disso, ônibus ou táxi são imprescindíveis para chegar ao centro. Fora isso, Sucre é essa cidade que resumirei nas próximas linhas.
O ar colonial encontra-se estampado nas ruas que fazem desfilar diante dos olhos atentos e, a um tempo, deslumbrado, uma inacabável série de casas, museus, bancos, estabelecimentos comerciais, artesanatos, cafés, restaurantes, praças, igrejas e tipos humanos que deixam o mochileiro se perguntando se ainda está na Bolívia, uma vez que os traços físicos, o comportamento delicado e sofisticado, as roupas e os interesses musicais, literários e arquitetônicos mudam significativamente. Há uma altivez permitida e não agressiva no comportameto do habitante de Sucre que todos os dias desliza sua delicada elegância entre o patrimônio histórico conservado que a cidade abriga e as montanhas que coloca Sucre numa posição geográfica invejável: 2.800m (9.200 pés) acima do nível do mar. Logo, em qualquer época do ano, casacos, ponchos e luvas caem bem.
A cidade não dispõe de muitos passeios turísticos, não obstante, é possível informar-se sobre os poucos que dispõe nas agências que estão localizadas no centro histórico. Volto a dizer: Sucre é uma cidade cara. Até para o mochileiro que dispõe de um montante com certa folga, é possível que tenha que organizar bem as finanças para que evite perrengues financeiros. Só para ter uma ideia: o artesanato vendido em Sucre é um dos mais caros em toda Bolívia. As roupas tradicionais feitas da lã das llamas podem chegar a preços abusivos e vendidas em lojas de grife. Recomendo ao mochileiro com pouco ou muito dinheiro: ver e deixar lá.
As praças são bem cuidadas e raramente vemos lixo nas ruas. Antes, placas para que nativos e turistas cuidem das plantas, praças e lugares públicos de modo geral, espalham-se pela cidade. Eles têm um apreço tão genuíno pelas praças que podemos nos deparar com uma obra de arte verde como a da foto acima. Nessa praça, passava horas, lendo jornais, observando os comportamentos humanos e fotografando um detalhe, uma cena que despertasse o olhar.
Uma vez que Sucre dispõe de um parque reservado aos dinossauros que habitaram a região, é comum o turista ver elementos que se relacionam ao Parque Cretáceo, maior atração turística da cidade.
Por fim, penso que a organização, a valorização cultural e a educação para dividir o espaço físico vem do reconhecimento daquele que pode vir a ser primordial na formação do cidadão responsável por si, mas ciente do entorno que o cerca e exige dele igual responsabilidade: o professor. Fotografei esse monumento que faz uma justa homenagem ao educador e, na figura dele, todos os elementos relacionados ao processo educacional que não começa na escola nem no professor, mas implica a contínua construção e desconstrução de toda uma vida.
Cheguei ao fim, mas com um pressentimento sutil de que se tratava de um começo.
Santa Cruz de la Sierra foi meu último destino e ali deixei o solo boliviano trazendo a poeira de uma terra milenar toda feita de crenças, costumes, etnias e uma alma capaz de enamorar o mochileiro desavisado. É isso.
O encanto de Sucre não dá as boas-vindas ao turista na rodoviária que não agrega beleza alguma e mais parece um mercado popular onde corredores estreitos abraçam milhares de pessoas que chegam e saem da cidade a todo momento. Cansado, com pouco dinheiro e de posse da informação de que o centro de Sucre é muito caro, resolvi hospedar-me num hostal próximo à rodoviária. Não recomendo. Não que o lugar seja ruim, mas o mochileiro ficará muito distante do centro e dos pontos turísticos da capital. Além disso, ônibus ou táxi são imprescindíveis para chegar ao centro. Fora isso, Sucre é essa cidade que resumirei nas próximas linhas.
O ar colonial encontra-se estampado nas ruas que fazem desfilar diante dos olhos atentos e, a um tempo, deslumbrado, uma inacabável série de casas, museus, bancos, estabelecimentos comerciais, artesanatos, cafés, restaurantes, praças, igrejas e tipos humanos que deixam o mochileiro se perguntando se ainda está na Bolívia, uma vez que os traços físicos, o comportamento delicado e sofisticado, as roupas e os interesses musicais, literários e arquitetônicos mudam significativamente. Há uma altivez permitida e não agressiva no comportameto do habitante de Sucre que todos os dias desliza sua delicada elegância entre o patrimônio histórico conservado que a cidade abriga e as montanhas que coloca Sucre numa posição geográfica invejável: 2.800m (9.200 pés) acima do nível do mar. Logo, em qualquer época do ano, casacos, ponchos e luvas caem bem.
As praças são bem cuidadas e raramente vemos lixo nas ruas. Antes, placas para que nativos e turistas cuidem das plantas, praças e lugares públicos de modo geral, espalham-se pela cidade. Eles têm um apreço tão genuíno pelas praças que podemos nos deparar com uma obra de arte verde como a da foto acima. Nessa praça, passava horas, lendo jornais, observando os comportamentos humanos e fotografando um detalhe, uma cena que despertasse o olhar.
Uma vez que Sucre dispõe de um parque reservado aos dinossauros que habitaram a região, é comum o turista ver elementos que se relacionam ao Parque Cretáceo, maior atração turística da cidade.
Por fim, penso que a organização, a valorização cultural e a educação para dividir o espaço físico vem do reconhecimento daquele que pode vir a ser primordial na formação do cidadão responsável por si, mas ciente do entorno que o cerca e exige dele igual responsabilidade: o professor. Fotografei esse monumento que faz uma justa homenagem ao educador e, na figura dele, todos os elementos relacionados ao processo educacional que não começa na escola nem no professor, mas implica a contínua construção e desconstrução de toda uma vida.
Cheguei ao fim, mas com um pressentimento sutil de que se tratava de um começo.
Santa Cruz de la Sierra foi meu último destino e ali deixei o solo boliviano trazendo a poeira de uma terra milenar toda feita de crenças, costumes, etnias e uma alma capaz de enamorar o mochileiro desavisado. É isso.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
O BUDISMO É UMA RELIGIÃO?
Por Michael McGhee, The Guardian, 07.10.2013. Michael McGhee é pesquisador sênior honorário no departamento de filosofia da Universidade de Liverpool e colunista no jornal britânico The Guardian.
Na primeira parte de uma nova série, examinamos a razão de muitos considerarem as práticas budistas mais filosóficas do que religiosas.
O que me atraiu inicialmente no budismo, nos anos que se seguiram ao meu lento afastamento do cristianismo formal, não foi nada de cunho intelectual, mas, diferentemente, teve relação com a imaginação, com imagens de liberação. Fiquei impressionado com a serenidade da figura do Buda, a sua representação de autodomínio e calma. Havia, no entanto, certo perigo envolvido nisso, a tentação de absorver, de modo demasiado fácil e precipitado, uma atitude que dependia de uma luta árdua e muitas vezes destituída de apelo ou atração evidente. No entanto, o Budismo era atrativo e parecia ser um meio de redescobrir alguma coisa aparentemente perdida, sem requerer adesão cega a crenças metafísicas ou religiosas.
Acho que o que faltava era a “espiritualidade”. Mas isso levanta a questão de saber se a “espiritualidade” pode ser separada daqueles comprometimentos em termos de crenças. Alguns especialistas têm enfatizado que não há falta de crenças metafísicas nas tradições budistas e que suas práticas e rituais se articulam a visões de mundo complexas e sofisticadas. Eles se perguntam se as práticas budistas realmente podem ser isoladas desse contexto mais geral sem que com isso ocorram danos à sua identidade. Eles indagam também se os Budismos encontrados no Ocidente contemporâneo tornaram-se desenraizados, privados do alimento necessário proveniente de suas raízes culturais e metafísicas. É bem possível que isso tenha ocorrido. Assim, as pessoas testemunham o valor terapêutico da meditação e o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS/UK) se coaduna melhor com uma psicoterapia baseada na atenção plena (mindfulness), do que com aquela que faz uso da prática cristã da oração, porque a primeira é uma técnica eficaz, com benefícios mensuráveis para a saúde e não é “religiosa”. Os pacientes não precisam de um fundo de crença religiosa para se estabelecerem em um local de meditação.
Alguns grupos contemporâneos fazem questão de insistir que o budismo não é “religioso” e o que eles parecem sugerir é, novamente, que o envolvimento em suas práticas não depende da adesão a crenças. Esses mesmos grupos, no entanto, também são bastante tradicionais nas suas linguagens e nos seus rituais e isso deve nos fazer hesitar quanto à avaliação do efetivo grau de desenraizamento das práticas. É verdade que muitos praticantes budistas contemporâneos têm feito um trabalho desconstrutor de mitos semelhante ao realizado pela geração prévia dos teólogos da “Morte de Deus”, os quais foram, eles próprios, acusados de converter o Novo Testamento em um inofensivo e pálido humanismo.
Contudo, uma coisa é buscar liberar a prática budista de visões de mundo insustentáveis ou pouco críveis, outra, bem diferente, é reduzi-la a uma mera técnica, ainda que de cunho terapêutico. Feita a redução, as acusações costumeiras aparecem: a meditação seria uma técnica de tranquilização – capaz de facilitar a execução do bombardeio ou de aguçar a eficiência de um capitalista predatório. A razão pela qual alguém pode querer sustentar que a meditação tem sido reduzida a uma técnica é que ela perdeu o seu enraizamento essencial como uma prática de preparação ética.
É tradicional distinguir aspectos ou formas de meditação em termos das que acalmam o egocentrismo ou as paixões comuns e dizer que estas preparam o praticante para a experiência budista essencial da iluminação ou despertar. No entanto, uma das tentações de ex-cristãos é pensar que o que eles podem encontrar no budismo é algum tipo de experiência transcendente. Isso, efetivamente, parece muito com certa nostalgia de Deus. Na verdade, se houver qualquer tipo de transcendência no budismo é uma questão de transcender o fechamento e a prisão do egocentrismo. O apaziguamento das paixões, em que o budismo está interessado, é a tranquilização que reduz o domínio daqueles sentimentos auto-centrados e egoístas que nos impedem de ver o que está diante de nós: a nossa própria condição real e a dos outros. Estamos cercados pelo mundo real, mas estamos preocupado demais – com nossas próprias paixões auto interessadas – para perceber isso.
Nesse caso, a prática budista torna-se uma forma de preparação ética, reduzindo as formas de preocupação auto-centradas que impedem uma preocupação com a justiça. Este aspecto levou alguns analistas a dizer que o budismo se apresenta mais como uma filosofia de vida do que como uma religião. Este contraste com a religião se baseia muito na assimilação da religião à crença religiosa e esquece os aspectos cerimoniais, rituais e comunitários das várias religiões, incluindo o Budismo.
Mais positivamente, porém, pensar o budismo como uma filosofia coloca essa tradição em diálogo com a antiga concepção da filosofia, que tinha como um dos seus componentes essenciais precisamente o que era chamado de prática ou exercício espiritual – as várias maneiras pelas quais alguém é capaz de libertar-se da ilusão e tornar-se mais capaz tanto de agir eticamente como, naturalmente, de recusar-se a agir, lastreado igualmente em motivos éticos. Vale a pena notar que os antigos filósofos tentaram viver em comunidades e pode-se pensar em uma comunidade filosófica – seja ela uma congregação cristã, uma sanga budista ou um grupo humanista – enquanto empreendimento voltado a proteger e apoiar as condições da percepção lúcida do mundo, transcendente das ilusões, a partir da qual pode emergir a ação moral.
Tradução de Sérgio Ferraz
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Crônicas de um Mochileiro em Potosí e Uyuni
Em La Paz fiz muitos amigos e me encantou a diversidade cultural e humana da cidade. Os amigos, em sua maioria brasileiros, ainda mantêm contato e, volta e meia, estamos compartilhando as impressões e informações sobre viagens. Além dos brasileiros, ficou a amizade dos estrangeiros, Hans e Yoshi Gato. O primeiro, alemão que vive no interior da Alemanha, fez contato há pouco pelo Facebook. Quer saber como estou e se me encontro envolvido nos protestos que explodiram nos últimos dias. Hans não conhecia o espanhol, mas precisava dele num país que não tem inglês como segunda língua. Como eu sabia um pouco mais da língua espanhola, procurei manter o diálogo em espanhol para que ele pudesse aprender expressões locais e cotidianas e, assim, interagir melhor com os bolivianos. Quando o espanhol faltava a ambos, tentávamos uma comunicação em inglês de maneira que fomos nos entendendo na língua que permitia o acesso ao outro, seu mundo e história de vida. Já o segundo, Yoshi, é um boliviano cujo pai mora no Brasil (Acre) e, em várias ocasiões, demonstrou vontade em vir ao Brasil para estudar e progredir no conhecimento da língua portuguesa. Apesar dos vínculos, chegou a hora de pôr o mochilão nas costas e seguir viagem. No dia que saí de La Paz veio-me a impressão - que era quase uma certeza - de que os laços com aquela cidade feita de cores, rostos, música, arquitetura e geografia bastante peculiares não desatariam seus nós de maneira que uma ligação espiritual e que tem seus alicerces na memória me mantém afetivamente envolvido com a cidade.
A próxima cidade a me abrir as portas que dão acesso ao acervo cultural que acumulou durante séculos foi Potosí. Segui de ônibus de La Paz a Potosí e passei cerca de 12 horas num ônibus nem um pouco confortável. Além disso, viajei com a inquietante impressão de que minha babagem havia sido despachada no ônibus que saiu 1 hora antes. Em suma, o trajeto não foi agradável, pois além da confusão com a bagagem, tive problemas com a marcação da passagem e quase não viajo neste dia porque meu nome não constava na listagem do ônibus que sairia às 20h30. Após uma pequena "dor de cabeça", colocaram-me na última poltrona próximo ao banheiro. Agitado pela impressão da perda da bagagem e sobressaltos com a passagem, não deu outra: insônia.
O desembarque aconteceu por volta das 6h30 e imediatemente exigi a devolução da minha mochila que se encontra intacta no bagageiro do ônibus. Ufa! Que alívio!
Solicitei um táxi que me custou Bs 5 (uma bagatela!) e pedi que me deixasse num hostal localizado no centro histórico. De saída, afirmo que hostal em Potosí é caro de maneira que vale a pena "bater perna" em busca de uma hospedagem que não custe os "olhos da cara" e ofereça um bom serviço. La Casona, situado no centro histórico e próximo à praça mais badalada da cidade, tem essas características. O hostal funciona numa casa colonial que data do século XVIII e, súbito, entramos na atmosfera da cidade de Potosí, considerada a mais alta do mundo. Isso por que a cidade se encontra 4.090m do nível do mar.
Localizada em terreno acidentado, Potosí nasceu com a descoberta de prata na região. Já foi, outrora, uma das maiores cidades do país e suas ruas, igrejas e casas coloniais presenciaram os anos de domínio espanhol. Em 1987, a cidade foi considerada Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. Além da tranquilidade de uma cidade provinciana e pacata, Potosí oferece museus, ingrejas coloniais, restaurantes típicos, baixas temperaturas e sobrados antiquíssimos aos visitantes que primam por aliar cultura, história e descanso. A arquitetura da cidade é belíssima e as ruas estreitas que se deitam sobre as montanhas oferecem um rico cenário àqueles que cultivam a arte da fotografia. O dia do meu desenbarque na cidade coincidiu com um feriado e não pude visitar os museus, empreitada que deixei para o dia seguinte no esprimido tempo que dispunha pois deixaria a cidade às 14h com destino ao Salar de Uyuni. Apesar dessas condições, foi possível conhecer o museu mais requisitado da cidade: a Casa da Moeda (Museo Casa de la Moneda). Nesse museu, as visitas são em grupo e acompanhadas por um guia e podem ser feitas em inglês, francês e espanhol.A visita dura 2 horas aproximadamente e custa Bs. 35. Toda a história da extração, tratamento e circulação da prata como meio de compra e venda é contada nesta casa. Além disso, o mochileiro encontrará pinturas e peças de época e produzidas por cidadãos potosinos. Neste site, o leitor poderá fazer uma visita virtual à casa e obter mais informações: http://www.casanacionaldemoneda.org.bo/
À tarde, como planejado, sigo em direção ao Salar de Uyuni onde passei dois dias. Após 5 horas de viagem, chego num povoado que dava a impressão de um lugar perdido no meio do nada, ou melhor, do deserto, um deserto de sal. Devido a forte demanda turística que acorre à Uyuni para conhecer o deserto de sal com seus lagos de cores intensas, a cidade disponibiliza uma rede de hoteis, hostal e pousadas que dão à cidade um movimento que certamente não teria se esses serviços não estivessem ali. Com pouco mais de 1km de raio, Uyuni agrega habitantes locais, áreas de lazer, restaurantes, rede hoteleira, agências de viagem, feira de artesanato, produtos industrializados e muitos, muitos turistas. Uma vez que as agências se aglomeram numa única rua da cidade, fiz uma cotação de preço e optei pelo passeio de um dia, pois o tempo era escasso. Nesse passeio, paguei Bs 120,00 (outra bagatela) e conheci apenas parte do Salar. Embora sem a beleza dos lagos e suas águas, aquilo que vi não me deixou decepcionado. Só não foi melhor porque vinha chovendo muito naquela região e o deserto encontrava-se alagado. Perdida parte da magia, fiquei com a beleza dos produtos, montanhas e hoteis feitos de sal e o tapete de sal que perdemos de vista num deserto cujas "areias" são branquinhas e o cenário lembra as geadas ou o pico de uma montanha após uma nevasca.
De Uyuni, além das paisagens de arrancar o fôlego, trouxe Toda Mafalda do argentino Quino e Pedagogia do Oprimido traduzido para o espanhol do pernambucano Paulo Freire. Os dois livros foram vendidos por mais uma bagatela: Bs 90. Mas não só isso... Amizades também surgiram nesses trajetos e, tanto em Potosí como em Uyuni conheci pessoas que me encantaram. Eram elas francesas, argentinas, suíças e bolivianas. De volta a Potosí, rumei à Sucre, cidade capital da Bolívia.
A próxima cidade a me abrir as portas que dão acesso ao acervo cultural que acumulou durante séculos foi Potosí. Segui de ônibus de La Paz a Potosí e passei cerca de 12 horas num ônibus nem um pouco confortável. Além disso, viajei com a inquietante impressão de que minha babagem havia sido despachada no ônibus que saiu 1 hora antes. Em suma, o trajeto não foi agradável, pois além da confusão com a bagagem, tive problemas com a marcação da passagem e quase não viajo neste dia porque meu nome não constava na listagem do ônibus que sairia às 20h30. Após uma pequena "dor de cabeça", colocaram-me na última poltrona próximo ao banheiro. Agitado pela impressão da perda da bagagem e sobressaltos com a passagem, não deu outra: insônia.
O desembarque aconteceu por volta das 6h30 e imediatemente exigi a devolução da minha mochila que se encontra intacta no bagageiro do ônibus. Ufa! Que alívio!
Solicitei um táxi que me custou Bs 5 (uma bagatela!) e pedi que me deixasse num hostal localizado no centro histórico. De saída, afirmo que hostal em Potosí é caro de maneira que vale a pena "bater perna" em busca de uma hospedagem que não custe os "olhos da cara" e ofereça um bom serviço. La Casona, situado no centro histórico e próximo à praça mais badalada da cidade, tem essas características. O hostal funciona numa casa colonial que data do século XVIII e, súbito, entramos na atmosfera da cidade de Potosí, considerada a mais alta do mundo. Isso por que a cidade se encontra 4.090m do nível do mar.
Localizada em terreno acidentado, Potosí nasceu com a descoberta de prata na região. Já foi, outrora, uma das maiores cidades do país e suas ruas, igrejas e casas coloniais presenciaram os anos de domínio espanhol. Em 1987, a cidade foi considerada Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. Além da tranquilidade de uma cidade provinciana e pacata, Potosí oferece museus, ingrejas coloniais, restaurantes típicos, baixas temperaturas e sobrados antiquíssimos aos visitantes que primam por aliar cultura, história e descanso. A arquitetura da cidade é belíssima e as ruas estreitas que se deitam sobre as montanhas oferecem um rico cenário àqueles que cultivam a arte da fotografia. O dia do meu desenbarque na cidade coincidiu com um feriado e não pude visitar os museus, empreitada que deixei para o dia seguinte no esprimido tempo que dispunha pois deixaria a cidade às 14h com destino ao Salar de Uyuni. Apesar dessas condições, foi possível conhecer o museu mais requisitado da cidade: a Casa da Moeda (Museo Casa de la Moneda). Nesse museu, as visitas são em grupo e acompanhadas por um guia e podem ser feitas em inglês, francês e espanhol.A visita dura 2 horas aproximadamente e custa Bs. 35. Toda a história da extração, tratamento e circulação da prata como meio de compra e venda é contada nesta casa. Além disso, o mochileiro encontrará pinturas e peças de época e produzidas por cidadãos potosinos. Neste site, o leitor poderá fazer uma visita virtual à casa e obter mais informações: http://www.casanacionaldemoneda.org.bo/
À tarde, como planejado, sigo em direção ao Salar de Uyuni onde passei dois dias. Após 5 horas de viagem, chego num povoado que dava a impressão de um lugar perdido no meio do nada, ou melhor, do deserto, um deserto de sal. Devido a forte demanda turística que acorre à Uyuni para conhecer o deserto de sal com seus lagos de cores intensas, a cidade disponibiliza uma rede de hoteis, hostal e pousadas que dão à cidade um movimento que certamente não teria se esses serviços não estivessem ali. Com pouco mais de 1km de raio, Uyuni agrega habitantes locais, áreas de lazer, restaurantes, rede hoteleira, agências de viagem, feira de artesanato, produtos industrializados e muitos, muitos turistas. Uma vez que as agências se aglomeram numa única rua da cidade, fiz uma cotação de preço e optei pelo passeio de um dia, pois o tempo era escasso. Nesse passeio, paguei Bs 120,00 (outra bagatela) e conheci apenas parte do Salar. Embora sem a beleza dos lagos e suas águas, aquilo que vi não me deixou decepcionado. Só não foi melhor porque vinha chovendo muito naquela região e o deserto encontrava-se alagado. Perdida parte da magia, fiquei com a beleza dos produtos, montanhas e hoteis feitos de sal e o tapete de sal que perdemos de vista num deserto cujas "areias" são branquinhas e o cenário lembra as geadas ou o pico de uma montanha após uma nevasca.
De Uyuni, além das paisagens de arrancar o fôlego, trouxe Toda Mafalda do argentino Quino e Pedagogia do Oprimido traduzido para o espanhol do pernambucano Paulo Freire. Os dois livros foram vendidos por mais uma bagatela: Bs 90. Mas não só isso... Amizades também surgiram nesses trajetos e, tanto em Potosí como em Uyuni conheci pessoas que me encantaram. Eram elas francesas, argentinas, suíças e bolivianas. De volta a Potosí, rumei à Sucre, cidade capital da Bolívia.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
VIVÊNCIA DE UM DRAMA (PARTE I)
A VIVÊNCIA DE UM DRAMA (PARTE I)
Em dezembro de 2012, dei entrada na Secretaria de Educação do Estado de
PE no processo de progressão funcional, pois em nosso estado a
apresentação de títulos para gratificação só pode acontecer após o
estágio probatório que dura três anos. Aguardei pacientemente esses três
anos e dei entrada um mês antes de concluir o probatório. O documento
foi devolvido sob alegação de não ter concluído o referido estágio e
avaliações individual e da gestão em aberto. Entendi e logo passei a
providenciar a documentação. As avaliações foram feitas e, quando da
segunda entrada, já havia concluído o probatório. Pronto! Agora era só
esperar pelo pagamento da mixaria que se paga em nosso estado por um
título de mestre. Após dois meses sem resposta e sem dinheiro a mais no
contracheque, entrei em contato com a UVAP da Secretaria que deu a
entender que a documentação havia sido perdida na GRE-Sul e sugeriu que
desse entrada num novo processo. Lá vou eu novamente pegar dois ônibus e
passar 1h30 para chegar ao destino a fim de fazer o que já havia feito
com paciência e esperança. No mês passado, recebi novamente a
documentação com as mesmas solicitações anteriores (avaliações do
probatório). Quase levanto da cadeira infartado. Respirei fundo e deixei
o infarto para depois, pois preciso pagar aluguel, alimentação,
cartões, luz, lazer e agora psicólogo, psiquiatra..ufa!, enfim,
qualquer mixaria a mais no salário minguado faz muita diferença. Recolhi
novamente toda a documentação e hoje voltei à Secretaria de Educação.
Chegando lá, a atendente disse que a documentação deveria ser deixada na
GRE-Sul. Eu? Indignado, repliquei:
- Mas ontem liguei e disseram que EU deveria deixar aqui.
- O documento está preso na GRE e você deve proceder bla bla bla...
Lá vou eu. Sentia-me traído, enganado, humilhado, mendigando um direito
pelo tempo de ESTUDO para contribuir melhor com a EDUCAÇÃO do meu PAÍS.
Pego novo ônibus e desço na GRE-Sul. Na entrada, o policial adverte:
-Hoje o expediente é interno.
Quase supliquei, pois não iria tomar muito tempo dos deuses da
educação. Queria apenas entregar um documento e ser respeitado,
valorizado. Só isso.
Chego ao protocolo e sou grosseiramente atendido (mas isso vai ficar para a parte II dessa saga):
- Não estamos recebendo documentos hoje porque o expediente é interno.
Expliquei-me.
- Não é você que deve apresentar os documentos, mas a escola.
Esgotado, nervos latejando, esperanças suprimidas, visão turva, quase
um cão sem eira nem beira, tentei refazer toda a trajetória, convencê-la
que o erro não partiu de mim que estudei, queimei pestanas, esgotei os
neurônios para ocupar o lugar profissional que ocupo, mas da GRE que
perdeu a documentação. Não houve acordo.
Saí com muitos @$#&*
na cabeça e alguns nos lábios. Era meu momento de protesto e
extravasamento. Além disso, saí com uma meta firme: sair da esfera
estadual. Agora também penso nas medidas legais a serem tomadas para
reaver o que perdi até o momento, melhor, o que me foi roubado até o
momento. E fica a certeza de que PROFESSOR NÃO É RESPEITADO E VALORIZADO
NO ESTADO DE PERNAMBUCO. É isso.
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