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terça-feira, 25 de março de 2014

Um amigo (ou sobre a amizade)

L´AMITIÉ PARTICULIER


O título do post e do texto foi inspirado no livro Uma aprendizagem (ou o livro dos prazeres) escrito por Clarice Lispector. A narrativa apresenta a história de amizade entre Lóri e um professor de filosofia. Esse texto é sobre amizade, uma amizade particular.
Conheci Gustavo quando voltava de um congresso do Grupo de Estudos Linguísticos do NE que aconteceu em João Pessoa (por mera coincidência, recebi hoje uma circular do GELNE para participar do próximo encontro). Poderia ter seguido viagem e desembarcado em Garanhuns - cidade onde residia à época - mas não o fiz. Assim, decidi passar o fim de semana no Recife. À noite, encontrei amigos na Galeria Joana D´Arc e Gustavo estava entre eles. Ele começara a sair com meus amigos há pouco tempo. Parecia acanhado, media as palavras, tocava nos temas com polidez, mas sempre com simpatia. Durante o fim de semana, combinamos outros encontros e, no espaço de um relâmpago, descobrimo-nos amigos. Regressei a Garanhuns. A saudade daqueles dias se arrastavam, mas era amenizada pelos contatos frequentes que fazíamos a fim de manter a amizade e nos salvarmos da solidão que o psicólogo Rollo May identificou como sendo o mal do século XX. Vivíamos um momento de transição, pois nos conhecemos em 2005. Os maus ventos do séc. XX ainda sopravam sobre nós o hálito gélido da solidão que só a amizade sincera e leal seria capaz de nos manter salvos dela, como afirmara Clarice Lispector no conto Uma Amizade Sincera: "amizade é causa de salvação." Assim, de frases soltas, evasivas, contextualizadas, invasivas e objetivas, fomos estreitando um laço que nos humanizava e levava a horas a fio de conversa que passavam por seu amor aos quadrinhos, seus conhecimentos sobre cinema e literatura, língua inglesa, perspectivas de um futuro que já tínhamos por certo que não nos visitaria. Nas conversas que se desenrolavam durante 2 ou 3 horas, sempre aos domingos à tarde, Guga comentava músicas da safra brasileira e seu rico acervo cultural deixava-me encantado e, simultaneamente, desajeitado. Enquanto ele discutia "ah! Esse cara tem me consumido. A mim e a tudo que eu quis com seus olhinhos infantis como os olhos de um bandido", eu, metido a intelectual de botequim, comentava trechos dos livros que tratavam da Análise do Discurso Francesa, pois, à época, estava preparando-me para uma seleção de doutorado. Recordo que a Oi colaborou bastante com nossos encontros vespertinos quando lançou uma campanha que era possível fazer ligações interurbanas gratuitas aos domingos de orelhões públicos. O encontro tinha lugar e horário marcados. Às 2h do domingo, britanicamente pontual, eu estava na praça com o fone em mãos para iniciar uma nova rodada de conversa que lembrava as cenas arrastadas dos filmes de Michelangelo Antonioni. Continuávamos o papo por MSN, mas ouvir a voz melodiosa, com acentos recifenses autênticos e de agradável sonoridade era uma experiência da qual não me furtava. Além disso, compartilhávamos músicas via celular, pontos de vista sobre filmes dos quais apenas conhecia a história e o título. Em se tratando de cinema, Gustavo não perdoava essa mesquinhez das minhas informações e perguntava: quem é o diretor? qual o ano de produção? À época, estava cagando e andando para essas coisas, mas ele insistia que essas informações eram fundamentais para entender o todo da obra. E foi me colocando contra a parede que passei a buscar informações adicionais sobre a Sétima Arte. O resultado disso foi uma paixão avassaladora pelo cinema. Numa outra oportunidade, passamos horas discutindo o pequeno trecho de uma música de Vanessa da Mata. Lembro que não chegamos a um consenso, mas as discussões em torno de temas que nos interessavam e eram comuns deixávamo-nos cada dia mais encantado ante o caminho que construíamos sem perder de vista aquilo que nos limitava e, de certo modo, impunha limites à plena realização do desejoso amistoso que nos ardia. Nossos encontros pessoais eram esporádicos, mas sempre cheios de atenção, delicadeza e olhares silenciosos que denunciavam os riscos do amor que não ousa dizer seu nome, tal como afirma Oscar Wilde em seu De profundis. A troca de palavras cotidiana fez com que mencionasse o filme nacional Cinema, aspirinas e urubus. De pronto, fui intimidado a assisti-lo. A película fala da construção de amizade entre dois homens que de tão diferentes acabam compartilhando os mesmos objetivos e sonhos. Era isso que Gustavo queria para nós dois.
O que me chama atenção e inquieta é que terminamos da mesma maneira que começamos. A última vez que o vi foi no meu apartamento e veio para deixar uma coleção do célebre Charlle Chaplin. Quando bati a porta atrás de mim, alimentava outras perspectivas que não a da morte. Enquanto caminho neste mundo e traço minha história, permito que aquilo de Gustavo que se incorporou ao meu acervo existencial permita a manutenção de uma memória. Certo que um dia também deixarei esta vida - louca e breve - perpetuo nessas linhas que escrevo a grandiosidade de uma pessoa que acrescentou à minha vida um olhar feito de aceitação, ternura e complacência. Gustavo não se empenhou em outra coisa que não fosse me fazer feliz. Não obstante as pedras que se interpuseram, eu conservei na memória somente os aspectos positivos de uma amizade que desconhecia a mesquinhez, caretice e estupidez na qual estamos todos imersos. Um dia, minha memória também fenecerá com este corpo que definha, mas palavras se mantém sempre acesas como a tocha que lembra o soldado fiel na cidade de Rosario (Argentina) e não se apagam jamais. Ás vezes quero acreditar - e penso que isso é bastante egoísta da minha parte - que Guga deixou este mundo no momento certo. O momento é outro e já não celebramos paz e amor como fazíamos no início do século. Passando a limpo, as pessoas estão mais mesquinhas, burras, caretas e estúpidas do que nunca. Guerras explodem todos os dias e nós vivenciamos a instabilidade de uma sociedade que perde o rumo, o equilíbrio - equilíbrio distante -, diz o título do álbum solo em italiano de Renato Russo. Tudo por aqui está muito diferente, Guga. As pessoas continuam e, hoje mais do que nunca, preocupados com o que o homem faz do seu pinto, mas não é capaz de se mobilizar contra a fome na África que dizima todos os dias milhares de pessoas. Isso é tão incoerente com nossa evolução social, histórica, tecnológica e científica que se torna cada vez mais difícil encontrar pessoas que, como você, assumem com autonomia seu próprio corpo, desejos e individualidade. Diante de tanta caretice, fica difícil insistir com os dois pés num mundo cada vez mais insuportável. Não tive tempo de confidenciá-lo que estou me preparando para fazer doutorado na França. Sei que não tem dúvida acerca da minha relação afetiva e intelectual com este país. Se acontecer, passarei dois anos em Grenoble - Rhône-Alpes. Quem sabe a cura não esteja no alpes brancos ou no azul intenso das águas de Côte d´Azur? Talvez seu rosto se delineie na neve intensa dos alpes. Por enquanto, "eu continuo aqui com meu trabalho e meus amigos e me lembro de você dias assim: dia de chuva, dia de sol." A cada lembrança, lágrimas insistem em inundar um rosto que já não é mais o meu. Nas escolas, no trajeto para chegar às escolas, enquanto miro o mar, no silêncio do meu escritório, as lágrimas testemunham meu desalento, mas quero sorver minha dor até a última gota. A última vez que nos vimos - parece uma ironia da vida - você esteve no meu apartamento para deixar uma coleção do Charlie Chaplin. A saudade e o sentimento de ausência é ainda maior porque grande foi a afabilidade com que nos fizemos amigos. Nossa história de amizade foi, como diz o título do primeiro e único filme do dramaturgo francês, Jean Genet: un chant d´amour. Concluo com as linhas místicas de Tagore que abrem este blog:
Se não falas, vou encher o meu coração com o teu silêncio e aguentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vigília estrelada com a cabeça pacientemente inclinada. A manhã certamente virá; a escuridão se dissipará, e a tua voz se derramará em torrentes douradas por todo o céu. Então as tuas palavras voarão em canções de cada ninho dos meus pássaros, e as tuas melodias brotarão em flores por todos os recantos da minha floresta. (Rabindranath Tagore)



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Situação dos Indígenas Mbyá e Avá Guaran em Ciudad del Este



Recife, 17 de fevereiro de 2014

Em janeiro do corrente ano, estive, por ocasião das férias, em Ciudad del Este (Paraguay). Uma vez que atravessei a Ponte da Amizade a pé, fui abordado por um dos milhares de moto-taxistas que circulam entre Ciudad del Este e Foz do Iguazu (Brasil). Solicitei que me deixasse num hostel e o moto-taxista disse não haver hostel, mas bons hotéis nas imediações da rodoviária. Seguimos e, chegando ao hotel, fui surpreendido subitamente por uma situação deplorável e grotesca: indígenas acampados ao lado da rodoviária e à mercê de toda sorte de violência material e simbólica. Observei com olhos atentos e não tive como conter a pergunta sobre quem eram e por qual razão estavam ali. O moto-taxista de pronto respondeu que eram indígenas que não possuíam nacionalidade paraguaia.  Ditas essas poucas palavras, suspendeu a conversa e foi logo me conduzindo ao interior do hotel onde encontrei a proprietária que me recebeu com diligência e prontidão.
Da janela do quarto onde fui acomodado, era possível observar o movimento de homens, mulheres, jovens e crianças que, desprotegidos e lançados à própria sorte, perambulavam entre as barracas montadas e buscavam alternativas de sobreviver naquelas condições precárias e sub-humanas mesmo quando a vida não era possível seguir dignamente. Dessa mesma janela, fiz algumas fotografias e aproveitava para refletir sobre os possíveis motivos daquele povo que um dia teve terra, comunidade, alimentação, o fruto da árvore, a água do rio e a tribo onde descansavam da lida cotidiana estarem submersos num mundo marginal e miserável.

Voltei muitas vezes à janela com a finalidade de ver e entender aquelas condições. Recordo que, certa vez, senti vontade de descer e perguntar diretamente a um deles ou ao grupo o porquê de viverem miseravelmente às margens de uma região que não lhes oferecia as mínimas condições estruturais. Mas esbarrei no medo que já haviam incutido na minha mente estrangeira, turística e vulnerável às informações que me aconselhavam a não conversar com os indígenas nem passar próximo ao acampamento a fim de salvar a própria pele e evitar complicações que comprometessem minha viagem e vida. Não obstante as recomendações reiteradas por moradores do bairro, a curiosidade persistia e não me deixava em paz.
No último dia em Ciudad del Este, quando deixava o hotel, interroguei a proprietária do hotel acerca dos indígenas ao que respondeu que estavam ali há 10 anos e a ajuda humanitária que chegava era desviada e embolsada pelos políticos, de maneira que a corrupção ajudava a manter os indígenas naquelas condições  desumanas. 

Chegando ao Brasil, pus-me a coletar informações sobre o que havia presenciado e obtive algumas esparsas e curtas notícias em sítios na internet que diziam que no referido acampamento encontram-se alojados índios pertencentes a duas tribos: Mbyá e Avá Guarani (ambas oriundas das regiões paraguaias de Caaguazú e Caazapá). Segundo as notícias encontradas, os indígenas já foram desalojados pela polícia local e devolvidos às suas tribos, mas voltaram porque a terra não oferece condições de sobrevivência; além dessa ação, os grupos foram acompanhados por um educador, designado pela Secretaria da Infância ligada à Igreja Católica, a fim de dialogar e coletar dados junto às comunidades para traçarem um plano de resgate. Protestos também foram realizados com a finalidade de chamar a atenção das autoridades para o problema.
O descaso dos políticos, que não resolveram o problema dos referidos indígenas quando da sua instalação em Ciudad del Este, abriu uma fresta para uma série de comportamentos e atitudes que, embora visem a sobrevivência dos indígenas, não se justificam porque ferem a preservação da vida. Nos arredores da rodoviária, crianças exigem dinheiro e ameaçam os passantes com pedras até conseguirem o que pedem, a prostituição de adolescentes e jovens é prática constante e recebe dos caciques o apoio e a ordem que garantem sua manutenção e reprodução, as crianças usam entorpecentes em plena luz do dia e há notícias de assassinato praticado pelos indígenas. 

Diante do exposto, além da indignação que a situação desencadeia, fica a inquietação acerca das ações do Poder Público, responsável em garantir o resgate dessas comunidades, devolver-lhes as terras, reinseri-los no universo cultural e simbólico que lhes pertence e permitir a sanidade moral, ética, ou seja, comportamental desses grupos. Ademais, os governantes, em vez de desviar as somas de dinheiro que chegam de organismos internacionais, devem assumir a responsabilidade pela integridade desses grupos indígenas que degeneram sob o olhar displicente e indiferente das autoridades local e nacional que não vêm se mobilizando no sentido de solucionar definitivamente os problemas que, dia após dia, ganham corpo e lançam raízes no chão de Ciudad del Este.

Luciano Taveira de Azevedo
Mestre pela Universidade Federal de Alagoas
Professor da rede pública estadual e municipal

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Crônicas de um Mochileiro em Montevideo (Uruguay)

Ansiedade. Essa é a melhor palavra que descreve meu estado antes de deixar o Recife às 7h30 no dia 03.01.2014. Passageiro de um voo hiper econômico, tive que suportar as dores de parto que um voo desse impõe. Acordar cedo para chegar ao Aeroporto Gilberto Freyre foram as primeiras contrações. A bolsa estourada e as dores horrendas acometeram-me no Aeroporto de Guarulhos (São Paulo) onde passei 9h aguardando a conexão que, enfim, deixou-me com menino nos braços no Aeroporporto moderníssimo de Montevideo e, tal como uma criança, desejoso de conhecer um mundo.
Uma vez que o parto não é a única dor, pois outras dores podem despontar após o parto, comigo não foi diferente. Quando cheguei ao hostel, o recepcionista avisou que como havia feito reserva para o dia 04.01, então deveria esperar até às 14h para fazer check-in, pois todos os quartos estavam lotados. Estava tão cansado que nem consegui ter raiva, desapontamento, sentir-me contrariado ou coisas do tipo. De pronto, o recepcionista ligou a outro hostel onde havia vagas e passei a noite num lugar que nem lembro com precisão da estrutura, cores, corredores e corrimão, mas recordo bem as palavras em tom de brincadeira do recepcionista: "Isso é hora de chegar num hostel?" Eu estava tão atordoado que nem entendi se tratar de uma brincadeira e fui logo me explicando. Pechinchei na hora do pagamento da diária e consegui que essa ficasse por 350,00 pesos uruguaios. Iupi!!Agora vou tomar  banho e dormir.
No dia seguinte, volto ao Che Lagarto que, diga-se de passagem, tem uma ótima estrutura e fui acomodado. Resolvido o problema da acomodação, dei início à caminhada portando um mapa que não usei. Tenho sérios problemas com mapas, pois sempre olho na posição errada e acabo no lugar oposto àquele que quero conhecer.
Em 2013, o Uruguay foi eleito pela revista britânica The Economist o país do ano. Com essa informação borbulhando em minha mente, não hesitei em querer constatar as razões que levaram o país a ser escolhido e não me decepcionei. Ruas largas, trânsito organizado, povo acolhedor, ciclovias, centro histórico conservado e rico em seus aspectos culturais: tudo isso faz do Uruguay um dos melhores países para viver. Além disso, carro não é muito apreciado pelos uruguaios de maneira que o turista pode desfrutar de um ar menos poluído.
Essa praça da foto é a Praça Independência que se encontra nos arredores da Cidade Velha e além de desfilar uma beleza ímpar, conta com um misto de moderno e antigo em seu entorno.
O Palácio Salvo com seus 95 metros e 27 pisos desenhados pelo arquiteto italiano que vivia em Paris, Mario Palanti, produz um impacto singular no turista que se vê pequeno, diminuto, insignificante diante da grandiosidade da construção que foi durante anos a maior da América do Sul.
I
Nas cercanias da Praça Independência, descortina-se o Teatro Solis que foi inaugurado em 1856. Circulei o Solis a fim de fotografá-lo em perspectivas e ângulos diferentes. A arquitetura apresenta características dos teatros líricos e sua forma é ligeiramente elíptica.
No fim de semana, a cidade se recolhe e o mochileiro retém nas lentes da câmera com calma e sem atropelo as cenas da Cidade Velha que conserva em suas ruas, ora planas, ora com pequenas ladeiras, um conjunto arquitetônico de rara beleza.
Comida em Montevideo não é cara, mas para o mochileiro com pouco dinheiro é importante saber escolher bem e isso significa encontrar um lugar onde possa comer bem sem gastar muito. Outra curiosidade de Montevideo é a cerveja. Não é raro ver jovens e adultos trazendo nas mãos uma garrafa de cerveja de dimensões consideráveis. Para nós, que estamos mais acostumados à latinha ou long neck quando andamos pela rua, aquilo parece uma bizarrice.
Como em Paris, Montevideo possui um lugar especial onde os casais renovam suas juras de amor que ficam representadas no cadeado colocado na grade de uma fonte e cuja chave é jogada nas águas da fonte.
Não é difícil sentir-se envolvido pela atmosfera da cidade e dos seus habitantes que criam um clima propício para que o mochileiro desfrute das belezas, cultura e vida da capital uruguaia. Viva Uruguay!!




quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O Lado Oculto da Viagem



Ele estava atônito. Corria de um lado para o outro, ensandecido, pensamentos confusos, distraídos. Ainda não havia absorvido toda a tragédia daquele momento nem conseguia acreditar que por um segundo, talvez menos, aquilo poderia ter sido evitado. Seu rosto suava, não sabia que direção tomar nem decidir por uma ação que conseguisse salvar o irmão que agonizava dentro do carro. Súbito, pensou em como seria a vida e qual o desfecho daquela cena vermelha, caótica e prestes a desembocar em outros dramas. Não havia nada de idílico. Não havia imaginação, fantasia, embora sua cabeça atordoada misturasse tudo isso. Havia uma situação empírica, prosaica: um jovem de 20 anos estava com seu cotovelo prensado nas ferragens de uma D-20. Curiosos começaram a parar, mas não ofereciam ajuda. Outros, porém, encheram-se de compaixão por aquele miserável que agora desmaiado já não via nem sentia nada. O trabalho árduo de retirar aquele braço fincado entre ferragens esgotou os homens que trabalhavam com empenho. Exaustos, seus rostos suavam e os pingos cravavam sementes no chão daquela estrada. Quem sabe a esperança nascesse dali, daquele trabalho esmerado e sem intervalo. Braço fora das ferragens, corpo desfalecido, instala-se a tensão. Quem levará o jovem a Recife, cidade mais próxima do ocorrido, para receber os primeiros socorros? Pessoas afastam-se. Seguem seu rumo e procuram esquecer a cena para que a consciência não os torture. Um homem pede que levem o ferido e deponha seu corpo no banco de trás do seu carro. Durante o percurso, discutem para onde levar aquele cujo braço se mantinha atado ao corpo por um pouco de músculo e pele. Hospital particular e cirurgia que durou oito horas. Ao longo das horas, pai, irmã, irmão e cunhado aguardam nervosos e com uma ansiedade estampada que não deixava dúvida acerca da gravidade da lesão. O efeito anestésico passa e, aos poucos, o jovem volta à consciência. O ambiente lhe é estranho porque, segundo sua memória, sua vida parou no percurso, no vento no rosto, nas faixas passando e deixando "um mundo" para trás. Não se assustou. Não fez alarido. Não reclamou. Nem mesmo perguntou: - O que aconteceu? Seus olhos embaçados seguiam a entrada organizada da família que veio ter com ele e esclarecer o que para ele ainda era uma espécie de sonho ruim durante um cochilo que dera durante a viagem. Até então, ele achara que havia sido uma fratura simples e não fez estardalhaço. Pensava que aquela volta para casa duraria dois ou três meses e que aquelas ataduras, gesso e tipoia que tanto incomodavam na hora de dormir seriam retiradas em um mês e logo voltaria às suas atividades. Enganou-se.

"De alguma forma sobrevivi à noite. E ressurgi com o dia. "
(Emily Dickinson )

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Os Sapatinhos Holandeses e o Amor de Amizade

Estávamos no verão de 1999. Eu morava em Salvador e, por dois anos, vivenciei a dor e a alegria de viver numa cidade que apresenta desigualdades tão gritantes. No que toca à alegria, isso ficou por conta da minha amizade com Gregório, monge beneditino do Mosteiro de São Bento da Bahia.
Dom Gregório, como era chamado no mosteiro, tinha um sorriso largo, fácil, uma disposição invejável, uma inteligência singular que permitia que transitasse pelas artes plásticas, canto, literatura, instrumentos, administração etc. Acrescento os cursos que ministrava no Brasil e exterior, a Holanda, p.ex.
Quando voltou da Holanda me procurou e trazia algo na mão que era difícil distinguir. Ao se aproximar, vi que era um par de sapatos tipicamente holandês. Recebi o souvenir agradecido e sentamos para conversar sobre a viagem, o curso, a Holanda. Ele me contou histórias hilárias sobre o cotidiano de Amsterdam. Entre uma risada e outra, passava o olhos nos sapatinhos holandeses que pareciam de  porcelana, mas certamente foi trabalhado com outro material. Na frente, um moinho de vento (um símbolo da Holanda) pintado em azul escuro que ganha nuances mais delicadas em alguns pontos. Nos lados, Holland e no restante dos graciosos sapatos, trevo de quatro folhas, pétalas, bolinhas. Uma fita com as cores da bandeira holandesa amarra o par. Consegui na internet uma imagem com um par bastante parecido:
Além dos sapatos, trago as cartas que trocávamos quando se encontrava em férias e os livros que trazem dedicatórias que tinham a mesma medida da delicadeza que deve ter uma amizade.
Fui embora. Voltei a Garanhuns e trouxe comigo os significativos sapatos. Desde então, morei em muitas cidades e sempre levo comigo aquele par de sapatos que são pendurados na parede do meu quarto. Assim, é possível lembrar daquela amizade que pisou o chão da minha existência e deixou sulcos profundos porque sincera.

sábado, 30 de novembro de 2013

Rodin e Camille Claudel


Foi no Teatro Santa Isabel que vi a peça Camille e Rodin que, diga-se de passagem, teve os ingressos esgotados no dia anterior. Só consegui porque houve desistência e comprei ingresso de terceiro. A relação - entremeada de dor e alegria - entre os escultores franceses Camille e Rodin não me era estranha uma vez que já havia assistido dois filmes que fazem recortes diferentes dessa relação. No primeiro filme, Camille Claudel, temos o encontro e a aceitação de Camile por Rodin para que trabalhe em seu atelier, seguidos da paixão e das consequências dessa paixão para a vida dos escultores. No segundo, Camille Claudel 1915, tem Juliete Binoche no elenco e foi dirigido por Bruno Dumont. Esse segundo faz outro recorte da vida de Camille, pois agora se encontra num manicômio por vontade e determinação da família. Faltava, então ver Camille e Rodin no palco.
Com Leopoldo Pacheco e Melissa Vettore no elenco, a peça começa apresentando Camille internada no manicômio e muito angustiada com a ausência da família que a abandona naquele lugar que julga não pertencer. Ansiosamente aguarda uma visita do irmão e escreve reiteradas cartas suplicando que a visite e a leve com ele.
Num cenário construído para cooperar com a carga dramática dos fatos que estão por vir, o segundo ato coloca Camille no atelier de Rodin pedindo para ser uma de suas alunas. No início, a rispidez de uma resposta que desconfia do talento da moça é substituída por uma aceitação que chega seguida de admiração pelo trabalho da jovem. Apaixonam-se.
Essa paixão, em ambos, desagua na arte que produzem e a cooperação de Camille ajuda a projetar ainda mais um Rodin que já goza de um reconhecimento tácito. Com o passar do tempo, Camille passa a exigir momentos cada vez mais extensos ao lado de Rodin que não os pode dar porque é casado e divide sua atenção com  outra mulher. Aos poucos, os encontros entre Camille e Rodin passam a ficar cada vez mais tensos. Ela questiona o papel da arte e seu valor estético num momento de transição artística pela qual a França passa, dispara questões sobre a relação amorosa que entretém com Rodin e critica fortemente o fato de Rodin se apropriar das suas obras e vendê-las como sendo dele. O clima de tensão aumenta à medida que a narrativa se desenvolve e os encontros entre Rodin e Camille parecem um verdadeiro barril de pólvora prestes a explodir. O desenrolar dos fatos são intercalados com a solidão e crises que Camille vivencia no manicômio.
Não há dúvida que ambos se amavam. Mas esse amor não foi suficiente a ponto de Rodin fazer uma escolha por Camille e respeitá-la como escultora de grande talento. Antes de ser enviada ao manicômio pela família, Camille destrói toda sua obra como forma de simbolizar uma ruptura com um passado de tormento e também com o fato de em vida não ter conseguido vender uma única peça.
O texto é extremamente denso e ácido, a iluminação fraca e que deixa o palco na penumbra acentua a tragicidade que marcou essa história de prazer, amor e ódio, o cenário e os figurinos formam com o todo da peça o ambiente ideal para o desenvolvimento de uma narrativa dividida entre os desatinos de uma paixão e a tentativa de construção de uma nova maneira de significar por meio da arte as mudanças desencadeadas entre os séculos XIX e XX.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A extensão do Caminho

Caminhos da América do Sul calculou o percurso realizado até agora. Esse percurso implica Argentina-Chile-Peru e Bolívia. Foram 5.133km de experiência geográfica e humana.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Brassaï e a noite

Brassaï interessava-se pela noite parisiense. O olhar do fotógrafo privilegia o corpo. Esse corpo vigiado, normatizado, macerado - no dizer de Foucault em Vigiar e Punir - durante o dia, mas que à noite encontra uma brecha através da qual resiste, subverte, singulariza-se. O seu olho não deixa escapar nada nem ninguém: prostitutas, rondas noturnas, gays, cabarés, amantes, crimes...Tudo cabe no seu olhar sensível àquilo que evitamos ver, mas está lá.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Direito dos animais: “eles têm a qualidade idêntica aos homens”

Entrevista: Matthieu Ricard, monge budista tibetano, autor e porta voz de S.S.  o Dalai Lama, juntou-se ao manifesto para mudar o status jurídico dos animais. Ele explica ao jornal francês, Metronews, as razões de seu engajamento nesta causa. Tradução do francês para o português de Gleisy Coimbra. Matthieu Ricard faz parte das numerosas assinaturas do manifesto de um novo status jurídico dos animais na França.
Porque ter assinado este manifesto?
Porque é uma realidade: os animais são seres sencientes, que tem um direito natural de não sofrer ou pelo menos que não os levemos ao sofrimento. É preciso ser cego para não ver que os animais têm as qualidades idênticas aos homens: empatia, bondade, cuidado com os outros seres… Assim, não podemos os tratar como controladores ou objetos.
O que este reconhecimento poderá implicar?
Reconhecer que são seres sencientes implica na forma maneira a qual nós os tratamos. A maldade já é punida por lei. Mas quando se trata de exploração industrial, a lei é muito ampla. Por exemplo, 20 % dos animais enviados à matadouros ainda estão conscientes no momento em que eles são abatidos. Isto é inadmissível. Sendo consideradas como objetos, é uma desculpa fácil de usar a nosso critério. Os humanos matam 1 milhão de animais terrestres e cinco vezes mais de animais marinhos a cada ano. É preciso ver a verdade. Não pode-se ter uma sociedade mais ética deixando de fora uma seção inteira da vida, que são animais.
É preciso, então, acomodar todos os animais no mesmo barco?
Claro, eles são seres sencientes. É preciso reconhecer todos eles como tais. Pessoalmente, eu não faço diferença entre uma vaca e um cachorro. Os porcos são, de certa maneira, mais inteligentes que os chimpanzés, por exemplo. E se os peixes não têm expressão facial, eles têm um mesmo sistema nervoso que faz com que eles sintam dor. Não se pode negar.
Como a religião budista vê os animais?
Como um ser senciente que não têm a mesma sofisticação do homem – chamado de inteligência – mas como ele tenta evitar o sofrimento e atingir o bem-estar. Esta aspiração deve ser respeitada. Neste sentido, a não violência frente aos os animais é uma extensão lógica do que defendemos para os seres humanos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Crônicas de um mochileiro em Sucre

Sucre é a capital constitucional da Bolívia e La Paz a capital administrativa. Em Sucre, o "caminho" aproximava-se do fim. Após Sucre, viria Santa Cruz de la Sierra que serviria apenas de trampolim para me lançar de volta ao Brasil.
O encanto de Sucre  não dá as boas-vindas ao turista na rodoviária que não agrega beleza alguma e mais parece um mercado popular onde corredores estreitos abraçam milhares de pessoas que chegam e saem da cidade a todo momento. Cansado, com pouco dinheiro e de posse da informação de que o centro de Sucre é muito caro, resolvi hospedar-me num hostal próximo à rodoviária. Não recomendo. Não que o lugar seja ruim, mas o mochileiro ficará muito distante do centro e dos pontos turísticos da capital. Além disso, ônibus ou táxi são imprescindíveis para chegar ao centro. Fora isso, Sucre é essa cidade que resumirei nas próximas linhas.
O ar colonial encontra-se estampado nas ruas que fazem desfilar diante dos olhos atentos e, a um tempo, deslumbrado, uma inacabável série de casas, museus, bancos, estabelecimentos comerciais, artesanatos, cafés, restaurantes, praças, igrejas e tipos humanos que deixam o mochileiro se perguntando se ainda está na Bolívia, uma vez que os traços físicos, o comportamento delicado e sofisticado, as roupas e  os interesses musicais, literários e arquitetônicos mudam significativamente. Há uma altivez permitida e não agressiva no comportameto do habitante de Sucre que todos os dias desliza sua delicada elegância entre o patrimônio histórico conservado que a cidade abriga e as montanhas que coloca Sucre numa posição geográfica invejável: 2.800m (9.200 pés) acima do nível do mar. Logo, em qualquer época do ano, casacos, ponchos e luvas caem bem.
A cidade não dispõe de muitos passeios turísticos, não obstante, é possível informar-se sobre os poucos que dispõe nas agências que estão localizadas no centro histórico. Volto a dizer: Sucre é uma cidade cara. Até para o mochileiro que dispõe de um montante com certa folga, é possível que tenha que organizar bem as finanças para que evite perrengues financeiros. Só para ter uma ideia: o artesanato vendido em Sucre é um dos mais caros em toda Bolívia. As roupas tradicionais feitas da lã das llamas podem chegar a preços abusivos e vendidas em lojas de grife. Recomendo ao mochileiro com pouco ou muito dinheiro: ver e deixar lá.
As praças são bem cuidadas e raramente vemos lixo nas ruas. Antes, placas para que nativos e turistas cuidem das plantas, praças e lugares públicos de modo geral, espalham-se pela cidade. Eles têm um apreço tão genuíno pelas praças que podemos nos deparar com uma obra de arte verde como a da foto acima. Nessa praça, passava horas, lendo jornais, observando os comportamentos humanos e fotografando um detalhe, uma cena que despertasse o olhar.
Uma vez que Sucre dispõe de um parque reservado aos dinossauros que habitaram a região, é comum o turista ver elementos que se relacionam ao Parque Cretáceo, maior atração turística da cidade.
Por fim, penso que a organização, a valorização cultural e a educação para dividir o espaço físico vem do reconhecimento daquele que pode vir a ser primordial na formação do cidadão responsável por si, mas ciente do entorno que o cerca e exige dele igual responsabilidade: o professor. Fotografei esse monumento que faz uma justa homenagem ao educador e, na figura dele, todos os elementos relacionados ao processo educacional que não começa na escola nem no professor, mas implica a contínua construção e desconstrução de toda uma vida.
Cheguei ao fim, mas com um pressentimento sutil de que se tratava de um começo.
Santa Cruz de la Sierra foi meu último destino e ali deixei o solo boliviano trazendo a poeira de uma terra milenar toda feita de crenças, costumes, etnias e uma alma capaz de enamorar o mochileiro desavisado. É isso.