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sexta-feira, 2 de março de 2007

A difícil arte de ensinar.


Não sou professor de longa data, embora exerça o magistério desde que ingressei na faculdade. Mas, como não faz muito tempo que colei grau, então, isso faz de mim um professor que engatinha na difícil arte de ensinar.

Cada dia é um desafio revestido da imprevisibilidade peculiar aos indivíduos que formam o nosso público, os alunos. Cada aluno representa uma história prestes a ser contada. São como pergaminhos que se desenrolam à nossa frente e que lemos, tantas vezes, com o mesmo dissabor que lemos um livro de autor indesejado. Sua vida é tosca, seu comportamento é agressivo, sua perspectiva é estreita e o respeito por aqueles que cuidam da sua educação é anêmico. Nisso, há a parcela de culpa do aluno e há aquela que cabe à instituição. No que tange à instituição, temos a falta de compromisso, responsabilidade e criação de um lugar agradável onde o aluno sinta prazer, e não obrigação em se encaminhar todas as manhãs para o estabelecimento de ensino. Tantas vezes o faz como se estivesse se dirigindo ao matadouro.

Por outro lado, a profissão tem sua riqueza. Nós, professores, temos, todos os dias, a possibilidade única e singular de conhecer nossos limites e nos reconhecermos frágeis. Desse modo, abandonamos a imagem de homem infalível que ostentamos e, tantas vezes, representamos. Somos todos falíveis. Na sala de aula fazemos a experiência diária da nossa falibilidade.

Descubro, na relação com eles, que indiferente, agressivo, indisciplinado, rude e egoísta também sou. Lembro que não tenho, como eles, a mesma energia, curiosidade, sonho, desejo e força. Olho para meus alunos e, por vezes, anseio ter as características que os fazem diferentes de mim. E lembrar que um dia eu tive as mesmas inquietações, as mesmas dúvidas, as mesmas perguntas e os mesmos dilemas. Basta lembrar que um dia tive a mesma coragem de transgredir e que, foi nesse momento de inversão da ordem, que verdadeiramente aprendi.

3 comentários:

fpa disse...

Sei não, visse? Tá tudo meio estranho, mesmo. Há uma ênfase na expressão do indivíduo, na criatividade ilimitada e ao alcance de todos - de cada um, separadamente, claro -, no cuidado em não se podar iniciaticas e, marcadamente, do receio das escolas de se opôr a pais, eles mesmos, mais infantis do que seus filhos: não os educo e não deixo ninguém educar.

A escola é, antes de mais nada, exatamente o espaço além do núcleo familiar, aquele que exercita o convívio social para além da afinidade dos laços de sangue ou do hábito da convivência domiciliar. Além ainda do convívio espontâneo da rua - hoje tão escasso, entrincheirados que estamos - a escola promover a necessária e aprendizado dos limites e deveres interpessoais, da crescente superação de dificuldades comuns, não de sua evitação por mamães e papais aborrecidos.

Tenho medo do amanhã dos meninos mimados, e do que eles fazem do mundo e do que o mundo faz com eles.

Flávio Amaral

Alex - Soulman disse...

Interessante pensar nisso, Luciano.
Também sou educador já há alguns anos e durante esse tempo uma liçãi aprendi de forma dura e difícil: não podemos mais deixar q nossa atividade de educador e "lapidador" do conhecimento seja substituída pela função de tratar o aluno como se fosse um paciente de terapia.

Aluno tem que entender, de uma vez por todas, que escola existe para ele aprender, para ter bagagem afim de possiblitar seu ingresso num mundo competitivo e, altamente injusto.

Por outro lado, professores devem entender que o aluno é um ser em processo e, como tal, deve aprender a respeitar limites e regras.

Não podemos mais tolerar desrespeito à nossa ação educacional.

De qquer forma, a grande sacada da profissão é perceber o qto gratificante é perceber nossos ex-alunos se tornando adultos responsáveis e pessoas boas....


Grande abraço!!

Alex Mühlstedt Fegänbaün - Paraná

EdNiCe disse...

Bravo, Luciano, bravíssimo! Ser verdadeiramente professor é ter essa alma sensível, é ver os outros com olhos sempre novos, reconhecendo e reconhecendo-se. Na verdade, vc é um educador! Parabéns e não desista!