Total de visualizações de página

domingo, 30 de dezembro de 2012

Havana

Havana, 1958. A cidade encontra-se devastada. A milícia de Fidel Castro enfrenta o Exército liderado por Fulgencio Baptista e rebeldes comunistas são caçados porque desejam a Revolução. Em meio ao caos, Jack (Robert Redford) conhece Roberta (Lena Olin) por quem se apaixona. Melhor cena: após uma sessão de tortura, Roberta, de rosto crispado e choroso, olha o corpo de uma conhecida que foi assassinada pela polícia do SIM. Ao final do filme, Jack separa-se de Roberta e, após alguns anos, rememora: - Sento-me de costas para a parede, de olho na porta. Você nunca sabe quem vai entrar. Alguém que tenha perdido o rumo.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Um filme de Jean-Luc Godard



Para Sempre Mozart, de Jean-Luc Godard, apresenta várias histórias que se entretrecruzam e permitem uma reflexão - acima de tudo filosófica - acerca da vida, da morte, da arte de representar, da literatura e do cinema. Alguns trechos ditos ...pelos personagens:
"A morte não existe. Só eu... eu... que vou morrer."
Sobre a filosofia, Camille diz: "O que permanece em vigília em nós até no sono se deve a sua difícil amizade."
E sobre a representação: "Conhecer a possibilidade de representar nos consola da sujeição à vida." 
Tudo isso, ao som de Mozart. Sempre.
 Roteiro, fotografia, argumento, locação e trilha sonora impecáveis!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

O Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa recebeu novo ano para entrar em vigor: 2016. Por enquanto, só o Brasil fez a lição de casa e os demais, como Portugal por ex., arrastam as mudanças. Vale salientar que ortografia não é gramática, mas política. Ela é estabelecida de acordo com interesses políticos e, por isso, pode sofrer tantas alterações quantos forem esses interesses. Desnorteados ficam os professores, alunos e o cidadão brasileiro que aprende e desaprende a todo instante. Enquanto o conchavo político não acontecer e encontrar a paz, todos nós pagamos por isso.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A receita de Nicholas Sparks

Eu seria um homem de sorte se Nicholas Sparks me revelasse o segredo do sucesso. Em 2010, faturou cerca de 14 milhões e vendeu mais de 55 milhões de livros. No Brasil, Paulo Coelho - que segue receita parecida - já vendeu mais que Flaubert e Guimarães Rosa juntos. Dores de cotovelo transformadas em números que viram best-sellers e alguns milhões na indústria cultural.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Reportagem de capa da Veja da semana passada e artigo da filósofa Marcia Tiburi discutem a qualidade estética e de conteúdo dos best-sellers. Entendido como produto da cultura de massa, Marcia Tiburi dispara: "O desejto de audiência é o des...ejo de fazer parte, de frequentar o clube, de entrar no estádio de futebol, de ver a novela que todos veem, de também ler o livro da lista dos mais vendidos. A lista aglutina a massa e assim conquista os indivíduos." Fica aí para pensar.


A Cult deste mês traz uma entrevista com o poeta Manoel de Barros que descreve assim os paradoxos do andarilho:
"Do lugar onde estou já fui embora. Andar é um dom da inércia. Eu tenho um dom de traste atravessado em mim. Como trovão eu sou... levado a sério. Quero não falar até chegar ao silêncio dos vermes. Um pingo de sol na formiga fica maior que o mar. Sou muito concorrido de bobagens. Eu só ando por dentro de mim; se fui em outro lugar foi para me ver. Não saio de dentro de mim nem para pescar. Ando mais por dentro de mim do que na estrada.Passarinhos existem para dar movimento ao entardecer.Eu me recolho no abandono para ser livre. Desenharam nas pedras meu silêncio.Uma árvore que eu vi dava borboleta em vez de flor. Só o cinzento de uma tarde me amanhece. Mexer con gratuidades me enriquecem." Ao fim da leitura, só vertigens.



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Um Dia de Cão com Al Pacino

O filme não faz parte da safra recente nem conta com efeitos em 3D. Nem por isso deixa de empolgar, emocionar e entreter qualquer telespectador. A produção estadunidense data de 1975 e apresenta Al Pacino no elenco.
A cidade é Nova York e o bairro que servirá de cenário à trama é o Brooklyn. Sonny (Al Pacino) encabeça um assalto a banco junto com o comparsa, Sal (John Cazale) e faz o gerente e demais funcionários reféns. O que era para ser um assalto cuja duração seria de 10min, passa a uma série de atropelos que resultará em revelações, mídia, catarses, protestos e reflexões sobre questões atuais em nossa sociedade como a construção de gênero. O diretor, Sidney Lumet, alinha a tensão de um ato de violência, a espectacularização da mídia e a reflexão social de uma maneira, a um tempo, responsável e bem-humorada. Vale a pena dedicar duas horas a esse clássico do cinema americano.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Caminhos da América do Sul: agradecimentos

Sempre vislumbro uma miríade de possibilidades quando planejo uma viagem. E, por mais que você planeje e preveja situações, a viagem sempre surpreende e inaugura momentos e situações não previstas. Nessa etapa da organização da minha viagem pela  América do Sul, estabeleço roteiros, pesquiso hostels, acompanho a cotação do dólar, busco por passagens aéreas mais baratas, reviso o corpo e verifico se estou com a saúde em dia para fazer essa viagem sem preocupação e com a cabeça leve.
Ao longo desse percurso, tenho contado com a ajuda de algumas pessoas que, não fossem elas, não teria chegado ao estágio em que me encontro. A bem da verdade, a viagem já começou e parte dela se realiza toda vez que compartilho minhas expectativas, aflições, dúvidas e conquistas com os amigos e recebo deles uma mão estendida. Fico receoso em citar nomes porque não são poucos aqueles que, de diferentes maneiras e proporções, têm me ajudado a trilhar os Caminhos da América do Sul e redescobrir a alma do meu continente. Mas gostaria de destacar a contribuição de algumas pessoas. No primeiro lugar da fila, coloco Júnior, meu companheiro de viagem, que se desdobra em obter informações, levantar valores de passagens, ou simplesmente saber em que pé estão as coisas. Tem se mostrado bastante cioso e interessado em descobrir os universos humanos e geográficos do nosso continente. No grupo daqueles que me ajudaram a montar o roteiro, destaco Johan, Agathe e Valeria. Embora esse grupo não se restrinja aos três, foram eles que me deram informações determinantes para a conclusão do roteiro. Faço também um agradecimento muito especial a Marcos. Ele "bolou" o logotipo do projeto Caminhos da América do Sul e ajudou a dar um "gás" aos passos seguintes. Por fim, agradeço a todos que vêm contribuindo com a viagem, seja como for.

A verdadeira viagem não está em sair a procura de novas paisagens, mas em possuir novos olhos. (Marcel Proust)


domingo, 18 de novembro de 2012

A REGULAMENTAÇÃO POLÍTICA DO LIVRO DIDÁTICO E O ENSINO DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA ADICIONAL

Boa noite. Disponibilizo a versão preliminar do texto da comunicação individual que apresentarei no I Simpósio Internacional sobre o Ensino de Português como Língua Adicional. O texto não traz resultado de uma pesquisa, mas apanhados que estou reunindo para a construção de uma proposta de trabalho a ser submetida a uma banca de seleção de doutorado na UNICAMP. O Simpósio acontecerá na Universidade Federal do Rio Grande do Sul entre os dias 22 e 25 deste mês.
UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO – UPE A REGULAMENTAÇÃO POLÍTICA DO LIVRO DIDÁTICO E O ENSINO DE PORTUGUÊS COMO LÍNGUA ADICIONAL

 Profº Ms. Luciano Taveira de Azevedo

 1. Introdução

 A história do LD (se é que existe uma história do livro didático no Brasil) tem o seu início com a criação do primeiro órgão governamental criado para legislar sobre políticas do livro didático, o Instituto Nacional do Livro (INL), em 1929. Assim, com a criação desse órgão, temos a inauguração de uma história da política do LD. No dizer de Freitag et alii (1989:11), poder-se-ia mesmo afirmar que o livro didático não tem uma história própria no Brasil. Sua história não passa de uma sequência de decretos, leis e medidas governamentais que se sucedem, a partir de 1930, de forma aparentemente desordenada, e sem a correção ou a crítica de outros setores da sociedade (partidos, sindicatos, associações de pais e mestres, associações de alunos, equipes científicas etc.) Desse modo, a história do LD encontra-se indissoluvelmente ligada ao conjunto de medidas políticas criadas para gerir sua produção e distribuição em território brasileiro. No cenário educacional da República Argentina, a política voltada para a seleção e compra dos livros de texto estabelece critérios avaliativos muito semelhantes àqueles praticados no Brasil. Mas, não obstante a inclusão obrigatória da disciplina Língua Portuguesa ao currículo escolar, a compra e distribuição de livros didáticos voltados ao ensino de português como segunda língua ainda não foram efetivada pelo Ministério da Educação da Nação Argentina.

 2. A regulamentação política do livro didático de português no Brasil e na Argentina: o esboço de duas realidades

Na esteira das legislações criadas para gerir a economia e a pedagogia do LD, encontramos o Decreto-lei 1.006 de 30/12/1938 e, por meio desse decreto temos, pela primeira vez na história da política educacional brasileira, os parâmetros que definem o LD: Art. 2º, § 1º - Compêndios são livros que exponham total ou parcialmente a matéria das disciplinas constantes dos programas escolares; 2º - Livros de leitura de classe são os livros usados para leitura dos alunos em aula; tais livros também são chamados de livros de texto, livro-texto, manual, livro didático (Oliveira, A. L. apud Freitag et alii, 1989:12-13) Em 1938, o mesmo Decreto-lei 1.006 criou a Comissão Nacional do Livro Didático (CNLD) que é assim descrita nas palavras de Oliveira et alii (1984:33): Criada no mesmo Decreto-lei 1.006, essa comissão seria inicialmente composta de sete membros, designados pela Presidência da República e escolhidos dentre pessoas de notório preparo pedagógico e reconhecido valor moral, das quais, duas especializadas em metodologia das línguas, três especializadas em metodologia das ciências e duas especializadas em metodologia das técnicas. As críticas ao desempenho da Comissão se intensificam a partir da década de 40 e na década de sessenta o acordo MEC/USAID cria a COLTED (Comissão do Livro Técnico e do Livro Didático). Com a criação do Programa do Livro Didático (PLID), a COLTED foi extinta em 1971. Extinta a COLTED, foi criada em 1968, a FENAME (Fundação Nacional de Material Escolar). Entre outras ações, esse programa desenvolveu uma política voltada para a assistência ao estudante carente que se realizou através do PLIDEF (Programa do Livro Didático – Ensino Fundamental), PLIDEM (Programa do Livro Didático para o Ensino Médio), PLIDES (Programa do Livro Didático – Ensino Superior) e PLIDESU (Programa do Livro Didático – Ensino Supletivo). Inicialmente geridos pelo INL, esses programas passaram, após a redefinição do PLID, a serem administrados pela FENAME. Criada em 1983, a FAE (Fundação de Assistência ao Estudante) reúne sob a mesma instituição diferentes programas governamentais tidos como programas de assistência. É o caso do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), PLIDEF (Programa do Livro Didático – Ensino Fundamental) e programas que distribuem bolsas de estudo, material escolar etc. Alvo de críticas que se endereçavam no sentido da centralização da política assistencialista do governo e da inoperância da comissão, não obstante o amplo poder que lhe foi conferido, o comitê da FAE é desativado em 1985 e, através do Decreto 91.542 de 19/08/85, o PLIDEF dá lugar ao Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Atuando através da FAE até 1997, data da extinção desse órgão, as funções do PNLD restringiam-se à compra e distribuição gratuitas de livros didáticos que eram escolhidos pelos professores e, em seguida, enviados às escolas. Com o fim desse órgão, o PNLD passou a exercer suas funções através do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação (FNDE). O FNDE reformulou as diretrizes e a política de escolha, aquisição e distribuição de LDs a partir das discussões que vinham sendo desencadeadas em vários setores da sociedade acerca da qualidade do material didático que chegava às escolas brasileiras. Esses estudos e investigações que emanavam, sobretudo, da esfera acadêmica denunciavam “a falta de qualidade de parte significativa desses livros: seu caráter ideológico e discriminatório, sua desatualização, suas incorreções conceituais e suas insuficiências metodológicas” (BATISTA, 2003:28). Atualmente, o PNLD avalia materiais voltados ao ensino de língua portuguesa (séries iniciais, séries finais e Ensino Médio), bem como aqueles que sistematizam o ensino de línguas estrangeiras (inglês/espanhol). Na República Argentina, o ensino de português como língua estrangeira tornou-se obrigatório a partir da criação da Ley nº 26648 que foi sancionada no dia 17 de dezembro de 2008 e promulgada em 12 de janeiro de 2009. As leis e protocolos que antecederam e acarretaram na criação da Ley nº 26648, já previam medidas referentes à elaboração de livros de texto que auxiliassem o docente em sua prática pedagógica. O Ministério da Educação da República Argentina disponibiliza em seu site o processo de seleção e compra de livros didáticos que contempla todas as disciplinas pertencentes ao currículo escolar do ensino secundário. Nesse texto, temos que o processo de seleção dos livros didáticos é conduzido pelas Comisiones Asesoras Provinciales (CAP) e a Comisión Asesora Nacional (CAN) que dispõem de docentes e especialistas altamente qualificados. Esse trabalho de seleção compartilhado com os dois órgãos governamentais permite que a seleção dos livros de texto corresponda aos acordos federais em termos de conteúdos e propostas pedagógicas, bem como às políticas e às diversas realidades de cada uma das jurisdições ou províncias. A escolha do livro se inicia mediante uma Resolución Ministerial que aprova os parâmetros de seleção que incluem os processos e prazos administrativos, os critérios e a pautas de funcionamento das Comisiones Asesoras Provinciales (CAP) e a Comisión Asesora Nacional (CAN). Em seguida, é publicada, em dois jornais de circulação nacional, a data para retirada das diretrizes de seleção pelas editoras e empresas. Uma vez retiradas as diretrizes, publicam-se as Declaraciones Juradas dos membros de cada comissão e as editoras têm dois dias para concluírem o que lhes foi ordenado. Nessa etapa, as apresentações de mostras de livros por parte das editoras são concluídas. Então, a Comisión Asesora Nacional elabora um informe final sobre os livros que mais se adequam aos critérios federais e providencia o envio de cópias às províncias. Por fim, os livros são revisados pelas Comisiones Asesoras Provinciales que recomendam ao Ministro Provincial três textos por área ou ano de estudo. A referida autoridade educacional é encarregada de indicar ao Ministério da Educação da Nação a proposta de sua jurisdição com três títulos por ano de estudo. Não obstante haja uma política que regula a seleção e compra de livros didáticos no território argentino, ainda não existe produção, seleção e compra de materiais didáticos voltados ao ensino de língua portuguesa como língua adicional neste país. Segundo informações dadas por um professor de língua portuguesa na cidade de Rosário (província de Santa Fé), inexiste uma política voltada para a produção, avaliação e distribuição do material didático, uma vez que não há livros didáticos de língua portuguesa que são adquiridos pelo Estado e repassados aos alunos. O cenário que encontramos na Argentina no tocante à aquisição de material didático de língua portuguesa é o mesmo que até há pouco tempo tínhamos no Brasil no que se refere aos materiais relacionados ao ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras. Essas conclusões foram definidas a partir das respostas dadas a um pequeno questionário enviado ao professor de língua portuguesa, Mauricio Avalos. O questionário compreendia as seguintes perguntas: 1. As escolas adotam algum material didático de ensino de português? 2. Como se dá o processo de produção, distribuição e escolha do material didático? 3. Há algum programa governamental que normatiza a produção e distribuição desse material? 4. Existe um programa curricular específico para o ensino de português? 5. Qual a legislação que define o planejamento do ensino de português na Argentina? Segundo Maurício Avalos, “para o ensino de qualquer língua estrangeira é o professor quem escolhe o material didático, pode ser algo que ele mesmo prepare ou um livro, em geral é uma combinação, você escolhe um livro mas a prática sempre é pouca e tem que acrescentar, seja de elaboração própria seja tirado de outros livros.” Ainda sobre isso, Mauricio acrescenta: “Aqui não entendo bem a pergunta. Se é o professor que elabora seu material, cada um terá um processo diferente. A que você se refere com "distribuição"? Quanto à escolha, se for um livro, na verdade não há muito publicado aqui portanto sempre se tenta de "adaptar" algum livro de ensino de portugués para estrangeiros já que não há um específico para ensino em escola (seja o nível que for).” Acerca do programa curricular, Mauricio é sucinto: “Não, tem uma lei de ensino médio (que faz pouco sofreu modificações e agora está se debatendo como aplicar essas mudanças) que estabelece certos conteúdos básicos para cada ano. Aqui só posso falar do nível médio que é onde eu tenho experiência.” Ele é enfático ao responder a última pergunta: “Não tem, essa lei que eu falei estabelece certos conteúdos básicos, "orientações", para a matéria "Língua estrangeira", de preferência o inglês que é o que todas as escolas ensinam. O portugués nunca é a única LE, sempre vem como algo extra no currículo de algumas escolas e o planejamento se baseia naquelas orientações.” As respostas do professor Mauricio expõem a lacuna ainda presente no processo de produção e distribuição de materiais didáticos de língua portuguesa como língua estrangeira e, concomitantemente, nos fazem vislumbrar possibilidades de construção de um programa de pesquisa.

3. Conclusão

Do que foi apresentado, conclui-se que a política voltada para a regulamentação do livro didático no Brasil e na Argentina revela a política linguística explícita (ver Shohamy, 2005) que estabelece, nos vários documentos que constroem seu arcabouço, uma concepção de língua e, por conseguinte, as diretrizes que ditam o modo como a língua deve ser trabalhada em sala de aula e as estratégias a serem utilizadas nas diversas situações de ensino-aprendizagem. No caso específico da Argentina, embora não tenhamos dados que contemplem situações efetivas de ensino-aprendizagem de língua portuguesa mediadas por livros didáticos, será possível chegar a algumas conclusões acerca da política implícita (Shohamy, 2005) incurso na legislação oficial, nos livros escolhidos pelos professores, nas atividades e materiais paralelos elaborados pelos docentes como material complementar, nos textos que selecionam para compor esse material, bem como nos usos feitos em sala de aula do LDP (livro didático de português) escolhido ou das atividades complementares. Esse pode ser um ponto de partida, entre outros, para darmos início a uma pesquisa que objetiva traçar a política linguística para o ensino de português como língua adicional na República Argentina. Muito obrigado.

 Referências bibliográficas
BATISTA, A. A. G. A avaliação dos livros didáticos: para entender o Programa Nacional do Livro Didático. In: ROJO, R; BATISTA, A. A. G (orgs). Livro didático de língua portuguesa: letramento e cultura da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 2003.

FREITAG, B. et. alii. O livro didático em questão. São Paulo: Cortez, 1989.

MINISTERIO DE EDUCACIÓN DE LA NACIÓN ARGENTINA. Dirección nacional de políticas socioeducativas. Argentina, 2012. OLIVEIRA, J. B. A. et alii. A política do livro didático. São Paulo: Sumus; Campinas: Editora da Unicamp, 1984.

SHOHAMY, E. Language Policy: hidden agendas na new approaches. UK: Routledge, 2005.

sábado, 29 de setembro de 2012

A FLIP revisitada

Depois de um longo tempo sem postar, volto com algumas palavras sobre a experiência vivenciada em Paraty durante a Festa Literária Internacional de Paraty - FLIP. O lado positivo de escrever sobre uma vivência tempos depois de tê-la experienciado é que podemos revisitá-la e estabelecer uma nova conexão com o vivido, de maneira que novos sentidos se revelam. Além disso, recompomos situações e pessoas e revivemos toda a carga emocional que acompanhou nossos passos ao longo da viagem. Parafraseando Machado de Assis nas primeiras páginas do livro Dom Casmurro, digo que, antes de passar aos fatos, faz-se necessário dar os motivos que impulsionaram essa viagem. São dois apenas e, de certo modo, não guardam nada de espetacular: o primeiro reside no desejo alimentado desde longa data em conhecer a FLIP. Desde meus tempos de universidade, ouvia falar nessa festa literária e fazia planos de um dia conhecer; o segundo motivo é um pouco mais profundo e tem a ver com minha relação afetiva com um livro que foi para as telas do cinema, chamado REPARAÇÃO, do escritor inglês Ian McEwan. No Brasil, o filme recebeu o nome de Desejo e Reparação. Desde o início do ano que vinha recebendo informativos sobre a Festa e quando vi que o autor participaria do evento não pensei muito, na verdade, pensei bem pouco, pois logo decidi pegar o avião ao Rio de Janeiro (e depois o ônibus para chegar em Paraty).
Em Paraty, fiquei hospedado em uma Pousada-Camping e, como queria fazer uma nova experiência de hospedagem - além de economizar - optei por ficar no Camping. Experiência maravilhosa. A impressão que o hóspede tem é similar àquela deixada por um lugar familiar ou sua própria casa. Acordar e se deparar com um ambiente natural, quase campal, numa temperatura amena e pessoas acolhedoras contribuiu bastante para que logo entrasse no clima da festa.
Paraty é uma cidade secular que conserva um centro histórico com ruas estreitas e pedras que reluzem em seu calçamento. É nesse centro que a FLIP acontece em suas várias tendas e casas. Os autores que constam da programação oficial podem ser vistos em duas tendas: a tenda dos autores e a do telão. Na tenda dos autores você paga um pouco mais caro pelo privilégio em ver o autor ao vivo e em todas as cores. Como isso não é possível na tenda do telão, o valor cobrado é menor. Comprei ingressos antecipados para a tenda dos autores e selecionei aqueles que me interessavam, seja por que os conhecia de ouvir dizer ou de obra lida, seja porque estavam ligados a culturas e países que vêm despertando meu interesse. Ao fim e ao cabo, participei de várias mesas e conheci autores diversos, bem como entrei em contato com autores cuja obra já havia conhecido por meio do cinema.
Empolgado e mergulhado na efervescência da festa literária, vi e ouvi Javier Cercas, Amin Maalouf, Adonis, Fernando Gabeira, Zuenir Ventura, Walcyr Carrasco, Luiz Felipe Pondé, Frei Betto,Luis Fernando Veríssimo,Ian McEwan, entre outros. Como falei no início, uma das minhas motivações a estar ali foi conhecer o autor de uma obra (Reparação) que me fez descobrir um outro valor da literatura: reconstruir a si mesmo e sua própria história por meio das palavras. Eu o conheci. Primeiro, separados geograficamente e mediados por um telão, depois, de braços e ombros entrelaçados em uma das ruas mais movimentadas do centro histórico. Naquele instante, talvez o instante-já de Clarice Lispector em Água Viva, eu me senti plenamente feliz.
Mas a FLIP não permitiu apenas encontros com autores e livros. Reunindo gente de todos as regiões do país e diferentes países, a Festa abre para outras experiências que envolvem fotografia, cinema, artes cênicas, natureza exuberante, amizades. Além dos livros e lembrancinhas, voltei com uma reserva de amigos que conservo até então.

sábado, 3 de março de 2012

O Chile e suas letras

"Os pés da manhã pisar o chão". É com essas palavras extraídas da canção de Gilberto Gil que inicio este post. Nos pés que pisam a terra estrangeira, concentra-se o desejo de conhecer e explorar espaços humanos, culturais, naturais e históricos. É com esse desejo fincado nos pés que me ponho a caminhar pelo chão chileno que carrega a ancestralidade dos índios Mapocho, a herança dos Rapa Nui e os "espíritos" dos Andes. Esses elementos servem de mote para a literatura que se produz em terras chilenas, de maneira que sua relação com a "tierra larga" é estreita e as páginas dos romances trazem esse universo que assume uma centralidade tal na pena dos escritores que é impossível entender suas palavras se não comungamos desse chão. Das terras chilenas, trouxe romances, poemas e crônicas que apresentarei sucintamente: 1)Manuel Peña Muñoz: a) Chile: memorial da tierra larga. Autor de Ayer soñé con Valparaíso, Muñoz escreve um novo livro de crônicas organizadas de norte a sul do país. Estes artigos descrevem com amenidade a geografia humana e poética do Chile. Através de um percurso literário, o autor apresenta as imagens de chilenos de distintas condições sociais e culturais, através da história mostrando sua idiossincrasia e vistos na intimidade dos seus lugares. b) Valparaíso: la ciudad de mis fantasmas. Nesse livro, Muñoz escreve sobre suas memórias que vão desde o ano de 1951 até 1971. Nelas, nos conduz pela mão pelos labirintos insondáveis de Valparaíso e nos mostra uma galeria maravilhosa de personagens que povoam essas casas fantasmas com varandas abertas ao mar.
2.Hernán Rivera Letelier: a) Mi nombre es Malarrosa. Nessa novela, o autor narra com humor e compaixão outro ângulo da épica dos homens e mulheres do "salitre", na dureza de um mundo que, nos últimos tempos, está prestes a desaparecer.
3. José Donoso: a)La desesperanza. Donoso nasceu em Santiago, Chile, em 1924. Estudou na Universidade do Chile e em Princeton, Estados Unidos. Entre 1967 e 1981 viveu na Espanha, onde escreveu algumas de suas novelas mais importantes e se consolidou como uma figura central do boom latinoamericano. José Donoso Morreu em Santiago do Chile, em dezembro de 1996.
4.Germán Marín: a) Últimos resplandores de una tarde precaria. Esse conjunto de relatos, selecionados da obra publicada de Marín, como também de sua produção inédita, é o espelho de uma realidade imaginada que, construída à base da fragmentos do mundo vivido, tanto ontem como hoje, ajuda a formar certo espetáculo da condição humana. 5. Pablo Neruda: a) Los versos del Capitán. Os amantes ocultos - Pablo e Matilde - sabem dos inconvenientes para declarar à viva voz esse sentimento que os une e, a despeito dos impedimentos, se refugiam na Ilha de Capri. Assim, o Capitão não dirá ser o autor desses versos míticos(para não causar com sua felicidade a dor de outra pessoa)e, por dez anos, esse livro será um "filho natural, não reconhecido."
Por meio dessas letras, é possível acessar o universo mítico e imaginário dos chilenos, suas dores, sonhos e lutas. É possível, acima de tudo, estabelecer relações com o fim do mundo. É isso. *Os comentários que aparecem após o título dos livros foram traduzidos do original em espanhol.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Literatura argentina para brasileiros

Depois de percorrer o território físico da Argentina, agora percorro o território movediço, emocionado e fictício da literatura produzida em território argentino. Nesse mergulho no oceano sem fundo da literatura, posso entrever um cenário construído por palavras que permitem acessar um modo de dizer e significar o cotidiano, as relações amorosas, as discrepâncias e mazelas sociais, enfim, a vida. Neste post, trago a poesia de Aldo Oliva e Ivana Alochis e a prosa de Antonio di Benedetto e Cristina Loza. Aldo Oliva nasceu na cidade de Rosario em 27 de janeiro de 1927 e publicou seu primeiro livro de poemas aos 59 anos. Apesar da publicação tardia, Oliva começou a produzir poemas nos primeiros anos da juventude. Em Poesía Completa, Oliva reúne a melhor parte da sua produção poética. Cristina Loza nasceu e reside em Córdoba. Ela é fisioterapeuta egressa da Universidade Nacional de Córdoba. Sua primeira novela, Malasangre (2002), recebeu críticas positivas. El revés de las lágrimas (Emecé, 1997) obteve grande êxito de crítica e público, com mais de 20.000 exemplares vendidos. Publicado em 2008, La Hora del Lobo, conta a história de Pilar, mulher disposta a reencontrar seu próprio caminho a partir das memórias e dos lugares com os quais se depara durante a narrativa.
Ainda de Córdoba, temos a poeta Ivana Alochis que é licenciada em língua e literatura castelhanas. Egressa da Escola Superior de Línguas da UNC, Ivana tem publicações que elucidam questões referentes à gramática espanhola. Seu livro de poemas, Fuego en el Patio de Atrás, foi publicado em 2010 pela Salvoconductos.
Por fim, Antonio Di Benedetto. Nasceu na cidade de Mendoza em 1922 e morreu em Buenos Aires em 1986. É autor de novelas e vários livros de relatos. Recebeu numerosos prêmios e seus livros têm sido reeditados e traduzidos para outros idiomas. Los Suicidas foi reeditado em 2010 e está em sua 4ª edição.
Fico por aqui.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

...e a viagem não acabou.

Ainda lembro as palavras de Mauricio Avallos: "aqui na Argentina, quando alguém quer se mostrar inteligente, culto, diz que leu Jorge Luis Borges". Expressão maior das letras argentinas, Jorge Luis Borges deixou atrás de si uma obra extensa que inclui poemas, contos e ensaios. Borges teve seu talento reconhecido por meio de prêmios que recebeu ao longo da vida por governos estrangeiros, como o Cervantes em 1979. Conhecendo a vida e o percurso literário de Borges, entende-se o fato de pessoas lançarem mão de sua obra, a fim de fazerem um marketing pessoal. Borges é, de certo modo, lendário, de maneira que acessar essa lenda e apropriar-se de suas palavras é sinal de distinção seja em que nível for. Os leitores de Borges têm que se orgulhar mesmo! Quando se pensa numa viagem, pensa-se imediatamente em descanso, passeios e na possibilidade de desligar de tudo aquilo que ocupou sua mente e seus dias até então. Além desses elementos que, em proporções diferentes, estão presentes em qualquer viagem, busquei estabelecer um vínculo com a cultura dos países por onde passei e, foi com esse projeto em mente, que vasculhei produtos culturais que fossem capazes de me fazer entrever a alma desses países e a visão de mundo dos seus habitantes. Desse modo, em Buenos Aires, trouxe dois grandes da literatura em língua espanhola: Jorge Luis Borges - que já comentei acima - e Julio Cortázar. Mas não fiquei apenas na literatura e passei a minha segunda paixão: a música. Abaixo faço uma pequena relação dos diamantes que guardei ciosamente como quem tenta guardar água no deserto sem dispor de um recipiente. Da literatura: Jorge Luis Borges. El libro de arena. 1ª ed. Buenos Aires: Debosillo, 2011. Julio Cortázar. Todos los fuegos el fuego. 1ª ed. Buenos Aires: Aguilar. Da música: Soda Stereo (Gira): Me Veras Volver. Los Fabulosos Cadillacs: Vasos Vacios Encuentros de Grandes: Rock Argentino. Southamerican big sessions. Tapeku´A: Água A caça aos produtos acima descritos permitiu que entrasse em contato com pessoas e pudesse aprender mais sobre o espanhol falado. A leitura das letras das músicas, bem como da apresentação dos autores na quarta capa dos livros, possibilitou o entendimento do funcionamento do espanhol escrito. Imergir nesse mundo feito de palavras e sons, permitiu um entendimento acerca dos sonhos que argentinos alimentam, dos arquétipos que reproduzem e das lutas nas quais cotidianamente se engajam. É isso.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Viña del Mar e Isla Negra

Quando estamos viajando, a relaçao com o tempo ganha um novo sentido diferente daquele que damos quando nos encontramos em nossa rotina. Passamos a medir o tempo nao pelo relógio ou calendário, mas pelas experiências vivenciadas e percepçoes que nos chegam a todo instante. Assim, ficamos perdidos no tempo, fora de órbita e corremos o risco da imprecisao no que diz respeito ao tempo seguido por rodoviárias e aeroportos. Isso tudo é para dizer que nao posso esquecer que hoje é segunda-feira (lunes por essas bandas) e amanha volto a Santiago para embarcar na quarta-feira logo cedo, bem cedo. Hoje resolvi ficar "de boa" no Hostel para descansar, organizar a cabeça, cuidar da mente e arrumar a bagagem que está uma bagunça. Antes de falar das minhas andanças em Viña del Mar e Isla Negra, vou discorrer rapidamente sobre um show que fui em Valparaíso no sexta-feira. O nome do grupo é Tapeku´A, oriundo do litoral da Argentina e apresentou-se no Centro Cultural IPA para uma plateia nada mais, nada menos, formada por três pessoas: eu e dois porteños. Isso nao diz nada acerca da qualidade musical do grupo que foi vítima, talvez, de uma divulgaçao insuficiente. No início da apresentaçao, pensei estar ouvindo música sertaneja em outra chave e, nao estava enganado, pois o grupo faz um som muito semelhante ao som sertanejo feito no Brasil, embora nao deem esse nome. A bem da verdade, o resultado do seu trabalho musical é uma mescla dos sons produzidos em território argentino. O produto dessa fusao é um som que extasia, eleva a alma, pacifica. Ao final da apresetaçao, trocamos algumas palavras e comprei o CD que traz uma capa com desenhos que remetem a elementos da natureza colocados nos espaços abertos da letra Y. Dentro da capa, um pequeno texto em castelhano (óbvio!) explica o tema e o conceito do CD. Vou reproduzir trechos do texto original: "Y...es agua, en guaraní. Tanto el elemento como el pueblo originario son parte intríseca de nuestra vida, y nuestra cultura. (...) "Y" es la síntesis del comienzo de Tapeku´a, ese "punto de encuentro", ese "a mitad de camino" donde nos encontramos y contemplamos nuestra realidad, evocando voces de la tradición popular que fusionamos para transformalas en nuestra música contemporánea. " Agora traduzam. Desse lado da América do Sul, a arte mantém um vínculo muito estreito com a natureza, de maneira que seus elementos ocupam temas ou sao usados em instrumentos que reproduzem seus sons originais. Acredito que o duo Tapeku´a persiga essa tradiçao. Em Viña del Mar. Finalmente cheguei aqui, última cidade do meu roteiro de viagem. Viña del Mar é uma cidade provinciana, talvez um pouco mais provinciana que Valparaíso, mas que apresenta um cenário mais moderno com grandes edifícios, largos restaurantes, orla marítima e ruas que deixam para trás o traço secular de Valparaíso. Desci próximo ao Relógio de Flores e disputei um lugar com os turistas que tentavam sua melhor foto. Eu também queria a minha e tive paciência em esperar que grupos enormes de turistas deixassem o local. Em seguida, andei pela orla e entrei em castelos que viraram centros de exposiçoes, passei em restaurantes que assumiram a forma de um navio e, finalmente, resolvi entrar na praia. Ops! Que é isso? Areia de praia? Embora cheio de dúvidas, segui em direçao ao mar e resolvi medir a temperatura da água. Nem de longe tomo banho nessas águas!!! Tá louco!!! A água é geladaaaa!!!! Ainda pensei em sentar numa cadeira e ouvir música ou ler um livro. Após alguns minutos observando o movimento, entendi que aqui os banhistas trazem seu guarda-sol e sua toalha, de maneira que nao existem donos de barraquinhas oferecendo cadeiras. Cada um no seu quadrado e com sua toalha e guarda-sol: essa é a lei!! Após minha tentativa frustrada de "pegar" uma praia no sábado, continuei percorrendo a cidade e fotografando praças, conhecendo museus e igrejas e parando para ouvir artistas de rua que descansam o viajante com seus sons peculiares e místicos, como me explicou um tocador de Didgeridoo, instrumento australiano usado em rituais indígenas. Ontem estive em Isla Negra, uma pequena praia a duas horas daqui que foi escolhida por Pablo Neruda para receber sua terceira casa. Enquanto esperava para conhecer a casa, aproveitei para explorar a praia e recolher as energias vindas daquele lugar privilegiado e rico em recursos naturais. Ali o Oceano Pacífico parece dançar e o sol invade a terra como um presente. Concluí minha visita à casa de Neruda no túmulo onde jaz seu corpo. Ali encerrei minha viagem e entendi todo percurso realizado nas palavras do último livro de Neruda: "Confesso que vivi." É isso.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Valparaíso

Acordei às 10h30 e quase perdi o café da manha que é servido até às 11h. Diferentemente dos outros hostels onde me hospedei, foi servido apenas pao, geleia, margarina e café. Nao vi com bons olhos, mas me dei por satisfeito. Compensei no almoço do Color Café que fica pertinho do hostel e tem uma decoraçao muito bizarra. Aqui costuma-se servir uma entrada que geralmente é pao francês cortado em rodelas e molho, patê ou pimenta (come-se muita pimenta por essas bandas). A entrada do Color Café é um pouco mais farta, de maneira que primeiro veio o pao com dois tipos de molhos, depois salada (ou ensalada, como queira), sopa (desconfio que era feita de abacate porque aqui abacate nao é fruta, mas verdura) e, enfim, o almoço que estava de lamber os "beiço". Mas nem pense que tudo está acabado... Esqueci de falar da sobremesa que foi uma deliciosa panqueca com doce de leite, mel e banana... Hum... Dessa vez quase como os beiços!!! Comecei minha peregrinaçao pelo Cerro Concepcion e depois segui ao centro de Valparaíso. Vale lembrar que estou num cerro, ou seja, no alto de uma serra e, assim sendo, é até fácil descer, mas subir é "rojao". Se estivesse ganhando por difícil acesso em Valparaíso já estaria milionário. Sim! Milionário! Porque as notas de $10.000 nao me fizeram um milionário, entao estou buscando outras alternativas. Durante minhas andanças pelo cerro e centro, descobri galerias de arte que expoem obras de artistas que têm certa visibilidade no cenário das artes plásticas chilenas. Dois desses artistas chamaram muito minha atençao e comprei os postais que trazem algumas de suas obras. Sao eles: Loro Coirón que produz uma arte baseada em cenas do cotidiano e Beto Martínez que lança mao de um surrealismo que é possível ler e traduzir suas representaçoes. Nessas galerias, ainda se expoe obras de escultores, cartunistas e chargistas. Continuei andando pelo cerro e, no mirante, uma mulher com uma espécie de bacia com tampa envolvia os passantes no som que retirava daquele instrumento desconhecido. Ouvi, contribuí e perguntei. Quer saber o nome do instrumento? Hang. E foi criado em Bern, Suiça alema, no ano de 2000, por Sabina Schaerer e Felix Rohner. Comprei o CD que foi dedicado a Buda e se intitula "For Budha". Segui pelo centro, fotografei praças, monumentos e o porto que é de uma beleza singular. Depois de muito andar, subi o cerro Bella Vista e procurei o cerro seguinte, Florida, onde fica a casa de Pablo Neruda. Depois de muito subir, subir, subir, até as pernas cambalearem, encontrei "La Sebastiana". A casa, que se organiza em cinco pisos e foi saqueada durante o golpe militar, virou museu e abriga muitas das coleçoes de Neruda. Ao longo dos andares, pituras, esculturas, jogos de porcelana, cavalos, se distribuem e dao uma identidade ao lugar que nao poderia ser de outra pessoa, senao de Neruda. Nessa visita, chamou-me atençao o pôster do Walt Whitman que ocupa um tamanho considerável da parede do escritório. Além de Whitman, Neruda tinha em Baudelaire e Arthur Rimbaud seus ícones. Dos andares, uma vista belíssima da baia que o poeta desfrutou durante os anos que ali viveu. Na volta para casa, ainda entrei numa livraria e comprei o livro do escritor portenho, Manuel Peña Muñoz, chamado "Valparaíso: la ciudad de mis fantasmas". A obra, autobiográfica, traz relatos do autor acerca dos anos que viveu em Valparaíso. E aí chega a noite e o cansaço que nao perdoa. Para finalizar, queria citar o título da exposiçao do Loro Corión que me pôs em estado de reflexao, mais ou menos como acontece com os personagens clariceanos, ou seja, num estado de epifania: "Como si la vida fuera a durar para siempre." Penso que é essa impressao e esse sentimento que as belezas de Valparaíso nos imprimem e fazem sentir.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Santiago e Valparaiso

O povo chileno tem suscitado muitas impressoes seguidas de perguntas que espero respondê-las a partir de um olhar que se volta, por um lado, para o cotidiano e, por outro, para a literatura, a música e o cinema produzidos aqui. Tenho conversado com muita gente, ouvido muitas histórias e visto um panorama amplo e múltiplo que mais parece uma colcha de retalhos costurada com a linha da esperança e otimismo. Chilenos convivem com diversas condiçoes climáticas e ambientais que se estendem ao longo do país. Vivem sob a sombra dos terremotos que assombra suas vidas, embora prefiram viver como se nao existisse e, por isso, nao falam neles desde que nao sejam questionados. Ontem, conversando com um cineasta enquanto comprava o filme chileno "Machuca" do diretor Andrés Wood, fiquei sabendo que o Chile ainda vive sob os resquícios de uma ditadura que censura produçoes artísticas que denunciam as arbitrariedades do governo atual. Durante a conversa, disse-me que a película que estava levando nao seria encontrada facilmente em Santiago porque era uma película censurada pelo governo. Devido a essa censura, o filme nao podia ser exposto na vitrine, mas escondido entre outros filmes que ficavam por trás do balcao da loja. Viviana também me confidenciou que o governo intenta mudar o termo "Ditadura Militar" por "Governo Militar". Essa é uma maneira de dissimular a opressao infligida ao povo chileno. A universidade pública é paga e paga-se muito dependendo do curso que se quer fazer. Isso produz uma profunda desigualdade social no país que privilegia com o conhecimento uma pequena parcela da sociedade que tem condiçoes de pagar os estudos. A mídia tem divulgado as muitas mobilizaçoes que os estudantes têm realizado, a fim de que a universidade pública seja gratuita e de excelência. No Chile há muitos peruanos que se acomodam nos bancos das praças ou trabalham pesado em seus restaurantes que oferecem um cardápio tipicamente perurano. Em Santiago, aproveitei para provar a culinária peruana e, se estivesse no programa da Ana Maria Braga, passaria embaixo da mesa, sem dúvida. A arte chilena tem uma coloraçao e um contorno próprio de um povo que foi colonizado ou recebeu em seu território tantos outros povos que construíram esse país. Em suas características multiculturais, abriga diferentes segmentos e produz um modo bastante particular de ler, compreender e expressar sua visao de mundo por meio da música, da literatura, do folclore etc. Hoje cheguei em Valparaiso e estou muito deslumbrado com o que encontrei aqui. Essa cidade tem alma e tem identidade. O nascimento de Valparaiso data da primeira metade do século XVI e, recentemente, foi reconhecida como Patrimônio Histórico da Humanidade. Cercada de serras e contemplada por um clima próprio a cidades serranas, Valparaiso foi invadida por artistas que se apresentam em suas ruas estreitas e dao vida a uma cidade que já teve 40% das suas construçoes destruídas por um terremoto ocorrido em 1906. Ao percorrer a cidade, encontrei um dupla de mulheres que tocava tango romântico e parei sob o céu-azul-felicidade para avistar o mar-azul-delicadeza e ouvi-las tocar. É isso.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Santiago do Chile

Deixei Mendoza/Ar às 13h30. Nao foi sem um leve peso no coraçao que deixei as terras argentinas. Experiências que se acumulam na memória e descobertas que me acompanham fizeram com que nascesse um vínculo com aquele povo e sua cultura. Na Argentina, aprendi, entre outras coisas, que a arte pode alargar a consciência, moldá-la, de maneira que novas atitudes de responsabilidade, respeito, cuidado e compaixao nascem desse contato com as manifestaçoes artísticas. Lembro bem que em Rosario encontrei um monumento dedicado aos perros (cachorros). No alto de uma base de cimento, a estátua de um cachorro que lembrava aqueles bustos que no Brasil só se erguem para homenagear pessoas ilustres (algumas nem tao ilustres assim...). Esse "busto" é dedicado aos cachorros de rua. Isso mesmo! Cachorros de rua que sao cuidados pela prefeitura. Fiquei impressionado e convicto de que as pessoas, ou melhor, a consciência daquele povo, era diferente. Viajei pela empresa Cata que me cobrou algo em torno de $190 pesos pela passagem. Refiz o caminho pela cordilheira que havia visitado no dia anterior. Tudo estava muito bem até chegarmos na Aduana que inspeciona os ônibus e documentaçao dos passageiros antes de entrarem no Chile. Passamos nesse lugar nada amigável aproximadamente duas horas e meia. Foi tenso. Seguimos viagem por território chileno e a paisagem até Santiago era deslumbrante. Montanhas, colinas, vegetaçao, riachos, rios, e neve emolduravam nosso caminho. Logo que entramos no Chile, começamos a descer as montanhas e curvas que nao acabavam e pareciam querer amedrontar. Mas as curvas nao foram suficientes para amedrontar os viajantes, entao, de quebra, ainda tínhamos precipícios que beijavam a ruta (estrada). De repente, medo e deslumbre se misturam na gente e a fotografia nos serve como meio de catarse. Libertados pela fotografia e/ou filmagem, seguimos nosso caminho. Nos bancos de trás, viajantes brasileiros gritavam excitados: "Solta a embreagem!¨ Brasileiros sempre fazendo um barulho, uma algazarra. Faz parte do nosso show... rs
Quando chegamos em Santiago, tivemos um problema com um engarrafamento perto da rodoviária, de maneira que cheguei ao apartamento de Viviana às 23h. Bem recebido e bem acomodado, cuidei em descansar pois tinha um dia todo pela frente para explorar Santiago. Depois de ficar milionário...Nao está acreditando? No Chile fiquei milionário, pois aqui, além de circularem notas de $5, $10, $20 pesos, circulam também notas de $1.000, $2000, $5000. Quando saí da casa de câmbio e abri as notas, pensei que haviam errado e quase voltei para devolver. Foi assim que entrei milionário no Chile ... A triste verdade de tudo isso é que alegria de pobre dura pouco e, quando fui pagar o taxista que ouvia sem parar: "menina, menina, assim você me mata/Ai se eu te pego/Ai, ai se eu te pego", tive que desembolsar $6.000. Nao pense você que isso aqui vale muita coisa,porque nao vale. Ontem conheci o centro de Santiago e pude comparar Santiago a Buenos Aires. As pessoas de Santiago nao expoem toda aquela elegância que as de Buenos Aires fazem questao de expor. Em vez de uma elegância ao molde europeu, traços indígenas (que também têm sua elegância)sao exibidos pelas pessoas simples e trabalhadoras que percorrem as ruas de Santiago. No centro, conheci a Praça das Armas que traz em suas organizaçao a marca dos espanhóis, uma vez que distribui em seu espaço uma igreja, Correios, um órgao do governo e um museu. Batendo perna pelo centro, encontrei o Palácio da Justiça, o Teatro Municipal, igrejas históricas, a Biblioteca Municipal, praças, a Bolsa de Valores e outras tantas maravilhas que Santiago consegue manter intacto apesar dos terromotos.
À noite, saí com Viviana e fomos ao Bela Vista. Durante o passeio noturno, Viviana mostrou-me o Museu de Belas Artes, o Museu de Artes Visuais e a casa de Pablo Neruda. Depois sentamos num barzinho e tomamos uma cerveja que traz nome alemao, mas é fabricada no Chile. Hoje voltei ao Bela Vista e fiz uma visita guiada pela casa do Pablo Neruda. Há a identidade do Neruda pulsando naquela casa. Foi muito bom encontrar fotografias e matérias de jornal que traziam Neruda, Vinicius de Moraes e Jorge Amado. Fiquei sabendo também que o poeta Thiago de Mello mantinha uma relaçao estreita com Neruda e foi seu tradutor no Brasil. Em seguida, subi um mirante de bondinho (aqui se dá outro nome, mas nao lembro agora). No alto do mirante, um zoológico, piscinas e um santuário. Uma visao panorâmica da cidade é possível desse lugar. Para finalizar a jornada de hoje, visitei o Museu de Belas Artes que, além das clássicas esculturas, apresenta exposiçoes de artistas locais. Bem, por hoje é só. Só mais uma coisa: a imagem abaixo mostra a visao que se tem de Santiago do alto do cerro ou mirante.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Mendoza/Aconcagua

"O mundo é bao, Sebastiao!" É com essa frase retirada de uma música do grupo Titas que inicio o post de hoje. Se o bom de viajar é a descoberta, o melhor é encantar-se. E quando a gente se encanta, o mundo deixa de ser apenas "bao", como diz o trecho da música, e passa a ser objeto de admiraçao. Exercitar a admiraçao por um mundo que nao é apenas "bao", mas também absurdamente belo porque organizado e harmônico, torna-nos responsáveis por esse mundo. É essa reflexao que vem à tona quando visitamos a Cordilheira dos Andes. É sobre a cidade de Mendoza e a Cordilheira que falarei hoje. Mendoza é uma cidade pequena e com uma paisagem um tanto proviciana, embora a McDonald´s e o Carrefour já tenham aportado por aqui. Nao obstante, Mendoza conserva comportamentos, estrutura e hábitos tipicamente interioranos. As pessoas daqui nao exibem beleza nem sao tao bem vestidas como as de Rosario e Córdoba. Isso faz de Mendoza uma cidade familiar, e onde se pode caminhar mais à vontade. O que torna Mendoza uma cidade atraente é o turismo que se constitui de trilhas, lugares paradisíacos, Cordilheira dos Andes, Aconcagua, prática de rafting, riding etc. No mais, a cidade nao apresenta grandes atrativos. Numa tarde, você percorre algumas praças, como a Chile, a Italia, Independencia, San Martín e España. Como anoitece bastante tarde aqui, a partir das 21h (hora que o comércio começa a baixar as portas), você pode esticar e conhecer um dos maiores parques da América Latina, o San Martín. É um parque que ocupa uma área de 400 hectares e reúne cerca de 550 espécies vegetais. Além disso, um lago que é bastante usado para a prática de canoagem, salta aos olhos. Vale a pena reservar um bom tempo para explorar esse parque que é um dos grandes atrativos da cidade. Aqui também encontrei autores de prosa e poesia que contribuem para a literatura mendoncina e do país. Hoje acordei cedo, porque às 7h15 o transfer passava para começar a excursao pela Cordilheira dos Andes. Saímos do hostel acompanhados por uma guia muito divertida, simpática e sem papas na língua. Ao todo, éramos dez turistas prestes a descobrir as maravilhas dentro da Maravilha que é a Cordilheira dos Andes e o Parque Aconcagua. Nesse grupo, existiam franceses, holandeses, bolivianos, polacos, argentinos e um brasileiro, eu :). Deixamos Mendoza às 8h30 e, desde entao, os olhos dilatavam diante de tanta beleza natural. A Cordilheira está dividida em três partes (ainda lembro da nossa guia louca explicando isso e pedindo para que as peguntas fossem feitas apenas em espanhol): Pré-Cordilheira, Cordilheira Frontal e Cordilheira Principal. A Cordilheira dos Andes é uma vasta cadeia montanhosa que vai da montanha mais baixa a mais alta e sua classificaçao é dada de acordo com o tamanho das montanhas. Sendo assim, a Pré-Cordilheira refere-se àquelas montanhas baixas, a Cordilheira Frontal àquelas de tamanho mediano e a Cordilheira Principal àquelas que chegam a 6.962m, como é o caso do Aconcagua. Fizemos um longo percurso, intercalado por pequenas paradas para "sacar" (tirar) fotos. Ao longo do passeio, a guia (louca, louca, louca...) explicava sobre povos que habitam aquelas áreas que ficam ao pé da Cordilheira, o rio Mendoza que nasce do degelo da neve que cobre as montanhas, linhas de trem desativadas, "rutas" rodovias destruídas etc. Paramos, paramos, paramos e, extasiados diante de todo aquele espetáculo natural, "sacávamos" (totalmente em portunhol) muitas fotos. Enfim, chegamos ao Parque Aconcágua. A van fez o transporte até determinado trecho e depois ficou por nossa própria conta e risco. Tínhamos que fazer um longo trecho a pé, pisando sobre pau e pedra. De longe, avistamos o imponente e amedrontador Aconcagua: objeto de desejo de muitos montanhistas. Cercado de montanhas, vegetaçao rasteira, lagos de águas límpidas, clima seco e frio, montanhas vestidas de neve, parei e pensei: "O mundo é bao, Sebastiao." É isso.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Córdoba/Mendoza

Buenos dias, amigos!! Finalmente cheguei em Mendoza. Após dez horas de estrada, encontro-me perto do Aconcagua, da Cordilheira dos Andes e do Chile. Saí de Córdoba às 13h30 e cheguei em Mendoza às 00h30. Pensei que o tempo de viagem era o mesmo dos outros trechos (cinco horas) e acabei saindo tarde de Córdoba. Ainda na Província de Córdoba, muita chuva e nuvens bem pesadas. Acredito que os cordobeses devem ter dançado muito o toré, porque o calor estava infernal e a chuva veio com força. Córdoba tem festival de música? Tem sim, senhor!! No domingo à tarde, rolou um festival de música na praça Sarmiento e assisti o pedacinho de uma apresentaçao de uma banda formada por jovens que tentavam animar o público anêmico e indiferente que lotava a praça. Dali, segui pelo parque, destino predileto dos cordobeses aos domingos. Toalha lançada sobre a grama, família reunida, muitas empanadas, medialunas e alfajor...Pronto! A farra do cordobense está completa. E nao se pode deixar de citar a Coca-Cola, objeto bastante cultuado nessa parte do mundo. Na segunda-feira, acordei cedo, melhor, acho que nem dormi porque o calor me cutucava a todo instante. Embora o passeio do hostel nao tenha acontecido, peguei minha câmera e fui à cidade de Alta Gracia às pressas para nao perder a hora do café da manha na casa de Che Guevara. É isso mesmo que vocês acabaram de ler! Che Guevara viveu em Alta Gracia e, na casa onde viveu, hoje funciona um museu. Mas nao é só a casa de Che que Alta Gracia, cidadezinha guardada pelas serras de Córdoba, apresenta ao turista. A cidade também abriga a Parroquia Nuestra Señora de la Merced e as Missoes Jesuíticas, ambas tombadas pela Unesco e feitas patrimônio da humanidade. Além dessas obras de grande valor histórico e do Museu Che Guevara, Alta Gracia presenteia o turista com o Museu Manuel Falla e o Museu Dubois. Como toda cidade serrana, Alta Gracia exagera nas ladeiras e, ao fim do dia, as pernas imploravam por descanso. Antes de sair de Córdoba, voltei ao centro da cidade que se encontrava bastante movimentado e tomado por brasileiros que visitavam as construçoes históricas. Saí procurando música e literatura produzidas por cordobeses. Encontrei materiais interessantes e acredito que estou levando o melhor da Argentina para casa. Aqui tenho me virado muito bem com meu portunhol e, de tanto ouvir as diferentes versoes da língua, estou perto de falar espanhol. Aproveito para fazer uma imersao na língua e leio tudo que me aparece. Nada passa despercebido. É assim que descobri que "tapa" aqui significa "camada" e, desse modo, nao pense que um tapinha argentino nao dói, pois, dependendo do material da camada, pode doer bastante. Ontem o recepcionista do hostel onde estava hospedado, explicou-me que uma comida "extraña" é uma comida muito boa e ainda bem que descobri a tempo que "gaseosa" é refrigerante, do contrário, nao teria sabido escolher entre café ou gaseosa quando me ofereceram no ônibus. Enfim, curiosidades de uma língua que tem me fascinado. Vou nessa, porque mais tarde tenho Mendoza para explorar e na quinta, Aconcagua. Vou escalar e gritar bem alto: Yo estoy bien!!!!!

domingo, 8 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Córdoba

Ontem deixei Rosario às 13h e vim a Córdoba. Antes de dizer "adiós" a Rosario, fui com Mauricio ao centro da cidade, pois precisava trocar real por peso e procurar um livro que reunisse poemas lidos no Museu da Cidade no dia anterior. Comprei o livro e os pesos. Por falar em peso, Rosario é um celeiro de poetas, contistas, romancistas e representa para a Argentina uma arcádia literária de peso. Trouxe comigo a antologia do poeta rosarino, Aldo Oliva, e deixei uma dica de viagem (praia de Genipabu-RN)com a moça que me atendeu. A sua mae encontra-se em Pipa e pensei que ela nao poderia deixar de conhecer Genipabu, praia que me encheu os olhos quando estive em Natal. Ainda passamos numa loja de souvenir e arrastei mais duas ou três lembranças da cidade (a mochila já nao suporta mais e nem minhas costas). Voltamos ao apartamento, e tentamos ocupar o tempo com conversas sobre o que vimos e ouvimos nesses dias passados na encantadora cidade de Rosario. Além das comidas típicas que Mauricio e Adriana já me haviam apresentado (medialunas, facturas e um prato peruano que por ora nao lembro o nome), tivemos um almoço intimista, saudoso e ao sabor de empanadas variadas. Só consegui comer duas, pois ainda pesavam em meu estômago as danadas das medialunas. Adriana fez questao de preparar minha sobra para viagem e pronunciou suas últimas palavras antes da minha saída: "Com amor." É isso. Foi com muito amor que fui recebido na prosaica cidade de Rosario e foi morrendo de amor pela estrada que segui a Córdoba. Durante o percurso, lindas paisagens alternam-se com trechos secos e as horas pareciam arrastar-se. É nisso que dá ir no pinga-pinga... E o daqui segue na base do contagotas!!! Desembarcando na rodoviária, peguei um táxi e fiquei muito incomodado com o volume do som que o taxista ouvia enquanto se balançava e lia mensagens no celular. Pensei: "Será que sou obrigado a ouvir esse som nesse volume?" Mas como dizer isso em espanhol sem ser agressivo? Nao encontrei nem as palavras nem a maneira certa de dizê-lo, entao, resignei-me. O hostel onde estou hospedado é bastante simpático. Na chegada, conheci brasileiros de Londrina que fariam check-out naquela noite e seguiriam em direçao a Mendoza, meu próximo destino. Após o check-in, acomodei minha bagagem e fui tomar banho pois o calor aqui está de matar! Em seguida, andei um pouco pela cidade, a fim de me situar e o que vi agradou bastante. Córdoba é uma cidade bastante turística. Por aqui, passam constatemente viajantes em busca de ecoturismo e esportes de aventura. Mochileiros circulam o tempo todo pelas ruas da cidade, carregando mochilas que mais parecem sua própria casa. Aproveitei para fotografar a noite de Córdoba e acabei chegando a museus, praças e ruas bastante graciosas. A expectativa já estava criada para o dia seguinte... Hoje explorei a cidade e, durante meu tour, passei pela Praça de San Martin, Catedral e Cabildo, Igreja da Companhia de Jesus, Teatro Libertador General San Martin, Passeio da Flores e das Artes, Shopping Center Patio Olmos e muitos, muitos outros pontos turísticos que Córdoba exibe com orgulho. Orgulho...Sim. Essa é a palavra que melhor define o povo cordobense. Em vários monumentos, o turista encontra placas com a frase: "Maravilha de Córdoba." A igreja do jesuítas é patrimônio histórico e nao sei se poderíamos chamar de construçao, prédio ou igreja somente. Eu saí de lá pensando ter saído de um museu de belas artes. É espantosamente bela. Mas nao só ela. A igreja das Carmelitas Descalças também é de uma beleza ímpar, o Museu de Belas Artes extravasa em encantos, o prédio do Shopping Olmos, estarrece. Toda Córdoba é bonita. Aqui nao há botecos, bodegas ou coisa semelhante. Todos os cafés, bares e sorveterias seguem um altíssimo padrao estético, de maneira que o turista fica sobressaltado de par em par. Pessoas que nem parecem ser desse mundo de tao lindas, desfilam pelas ruas e parecem estranhar o turista que é constante por aqui. Eles estranham, mas nao ignoram. Hoje recebi liçoes de espanhol da atendente de um café onde tomei meu café da manha. Ela disse que aquilo que eu pedia como suco, pronunciava-se "jusgo" (algo próximo a rusgo) e eu saí, além de muito bem alimentado, agradecido e à vontade por estar entre pessoas que se respeitam e sabem exercer o fino trato. Amanha, se tudo der certo, irei à cidade Alta Gracia. Nessa cidade, viveu Che Guevara. Um de seus atrativos é o Museu Che Guevara, que se soma a uma paisagem natural de exuberância inquestionável. Mas vamos deixar isso para amanha, che!!! Gracias.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Rosario

Buenas tardes, chicos(as)! Estou em Rosario, mas vou voltar no túnel do tempo para falar das últimas vivências em Buenos Aires antes de sair do hostel ao meio-dia. Na quarta-feira, chegou uma turma do interior do Rio (lembra daquela música "o Haiti é aqui...", pronto, é só trocar Haiti por Brasil que você entende BsAs) e dois cariocas ficaram em meu quarto. A princípio, estavam muito preocupados com o sistema do hostel porque nao acharam seguro; entao, eu cuidei de pôr um pouco de lenha na fogueira e disse que tivessem cuidado com o peso argentino porque circulava muita moeda falsa. Tadinho dos cariocas... Puseram-se a averiguar o dinheiro e descobriram que já tinham recebido algumas notas falsas. Juro que nao queria causar pânico, apenas esclarecer. Sou bonzinho e vou pro céu. Desesperos à parte, trocamos ideias sobre o Rio, BsAs e Recife. Agora éramos quatro viajantes (uma alema e três brasileiros) e um ventilador de teto quebrado (ninguém merecia o roncado desse ventilador). No dia seguinte, durante o café da manha, conheci três paulistas e uma argentina. Conversamos muito sobre a Argentina, música clássica, viagens e fotografia. Pena que minhas horas em BsAs estavam se esgotando... Logo agora que começava a criar laços. Ainda bem que existe Facebook pra resolver esse problema. Após as fotos feitas na entrada do hostel, peguei o Face de todos (paulistas e cariocas) e me despedi. Cheguei na boleteria (bilheteria pra gente)do metrô e pedi um bilhete (as pernas tremiam feito vara verde, pois temia ouvir aquela denúncia de dinheiro falso). Nao aconteceu. Cheguei na rodoviária (estácion de bus em espanhol... mais ou menos isso) e fui comprar minha passagem. Peguei a fila da primeira agência que vi que vendia passagens (passajes) para Rosario e fiquei aguardando numa fila que se arrastava. De repente, alguém atrás de mim pergunta alguma coisa que nao entendo e, para nao ser deselegante, respondi "si", "si", e completei com um sorriso. Mas nao era coisa boa, nao. Continuei na fila como se nada tivesse acontecido. Daí, a pessoa insistiu. Dessa vez, mostrou-me um papel e pronunciou palavras das quais entendi duas ou três. Essas duas ou três foram suficientes para entender que eu estava na fila errada. Essa bendita fila, que se arrastava feito bicho preguiça, era reservada aos que traziam um documento do governo que garantia descontos nas passagens ou isençao de pagamento. Eu todo esperto querendo passagem de graça... No embarque, passei por outro embaraço. O ônibus que constava na passagem demorou a chegar e ninguém sabia como deveria proceder. O motorista dizia que era aquele, entao eu subia. Daí, batia aquela desconfiança, perguntava ao funcionário da empresa que fazia o embarque e esse dizia que nao era aquele ônibus. Pego minha mochila e desço. Falo com outra pessoa, também funcionário da empresa e esse me fazia subir. Sei que depois de tanto sobe e desce, disseram que deveria ir no ônibus que se anunciava "Resistência" e descer na primeira parada para pegar o Salvador-Mazzi. Os ônibus na Argentina sao muito bons. Todos que vi tinham primeiro andar e serviço de bordo. Sentei-me ao lado de uma boliviana que viajava com sua filha mui bela (bela para quem está viajando, porque viajante acha tudo lindo e digno de foto). Fiquei surpreso quando, após uma longa parada, o funcionário começou a distribuir uma bandeja que trazia sanduíche, biscoito e bolo (Ah! O dono da Jotude tem muito que aprender com os argentinos). Cheguei em Rosario no início da noite e encontrei aqui um casal que é muito simpático e acolhedor, além de uma cidade que permite, nao obstante os problemas sociais que apresenta, uma qualidade de vida satisfatória. Em Rosario, com meus novos amigos, aprendi muito sobre a história da Argentina e de Rosário especificamente. A cidade desfila vários parques, pessoas bonitas, gente elegante e artistas que perambulam por sua ruas planas e bem cuidadas. Saímos ontem à noite para conhecer um pouco da cidade (o que conheci já vale uma viagem inteira) e hoje passamos o dia nos belíssimos e tranquilos parques e museus de Rosario. Enquanto eles descansam, escrevo essas linhas e aguardo o festival de jazz que iremos assistir à noite, com seus amigos, junto ao rio Paraná. Amanha sigo para Córdoba, carregando saudade de Rosário.

Crônicas de um viajante em Rosario

Postagem rápida. Estou em Rosario, após cinco horas de estrada. Sinto-me nostálgico de Buenos Aires e encantado com Rosario. Fui recebido por um casal muito simpático que me levou ao centro da cidade e compartilhou conhecimentos em espanhol. Vou ficando por aqui... Salud!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Buenos Aires

Buenas noche, chicos y chicas! Cada dia melhor...rs Segundo dia em Buenos Aires e meus pés já gritam por todos os poros. Hoje foi bastante cansativo, mas nao (o til tá de folga novamente) me dei por vencido. Mas antes de falar do percurso desse segundo dia, gostaria de destacar a quantidade de brasileiros no hostel e nas ruas de Buenos.Quase nao tenho ouvido espanhol nas áreas turísticas. Ontem estacionaram uma van na frente do hostel e desembarcaram milhares deles (estou falando baixinho porque há quatro ou cinco bem pertinho). Às vezes, bate uma dúvida que chego a perguntar: "Estou mesmo fora do Brasil?¨ Brasileiros formam a parte descontraída, festiva da cidade; além de injetar muito dinheiro na economia argentina (eu sou quase zero econômico aqui e, dessa maneira, nao me tomem como exemplo do que acabo de falar). Mudando de assunto... Quero registrar o defeito no ventilador que parou de funcionar de uma hora para outra na noite de ontem e a porta do quarto que insiste em querer entrar sem bater. Empilhamos livros embaixo da porta, mas nada consegue mantê-la fechada. Temos nos divertido com isso... Acerca do povo argentino, continuo com as mesmas boas impressoes do primeiro dia. Nada mudou. Hoje nao levei bronca do guarda por tentar entrar nos parques após o horário permitido nem da funcionária do metrô por tentar passar nota falsa (que vergonha!!). Aí vao algumas peculiaridades do povo argentino: a) as pessoas aqui fumam muito e, de acordo com minha estimativa do olhar, mulheres parecem fumar mais que os homens. Acho que a campanha contra o tabaco ainda nao chegou por aqui; b)argentinos nao se esforçam por entender-nos em português. Quando meu portunhol dá defeito, nao há acordo e corro o risco de ficar sem a informaçao. Ainda bem que tenho um bom vocabulário e acabo encontrando uma palavra em português ou inglês que permite o entendimento; c) os argentinos têm um senso de nacionalidade e patriotismo notório. Isso aparece nas bandeiras hasteadas em vários prédios e expostas em estabelecimentos. Outros elementos da cultura argentina também sao bastante explorados pelo comércio, como a Mafalda, o tango, a seleçao nacional de futebol, entre outros; d) os argentinos sao comedidos. Hoje presenciei uma tentativa de assalto no metrô(durante o embarque), e a vítima pronunciou "polizia" de uma maneira que parecia chamar a mae dele. Em seguida, outra pessoa repetiu "polizia" de modo moderado (nada de: - Polícia, pegue o filho da puta que tentou me assaltar). Aqui há polidez até na hora do desespero. e) os argentinos sao bastante conscientes dos seus direitos e deveres e ainda trazem o espírito revolucionário de Che Guevara cunhado em suas cabeças. A figura de Che aparece em vários lugares e objetos. Depois desse longo resumo sobre o perfil do argentino, vou brevemente falar das minhas andanças e descobertas. Pela manha, conheci o bairro bucólico de San Telmo que verte nostalgia em suas construçoes históricas e em estilo colonial. Passei pelo parque Lezama, a Igreja Ortodoxa da Santíssima Trindade, Museu Histórico Nacional, Museu de Arte Moderna etc. Algumas coisas chamaram minha atençao nesse bairro: a arquitetura, a presença de judeus e pessoas puxando entre seis e oito cachorros. Mal consigo dominar minha basset, de maneira que nao consigo me imaginar conduzindo dez cachorros. Acho que isso justifica a quantidade de cocô deixada pelos bichinhos com o pleno consetimento do dono. Depois do agradável San Telmo, segui a La Boca e Caminito. Durante o percurso, parei para fotografar o estádio do Boca Juniors (sugiro que mudem as cores do estádio). Ali comprei souvenirs e segui em direçao a Caminito. Esse museu de rua arranca suspiros de qualquer pessoa. É um lugar colorido, onde pululam artistas e objetos de arte. O tango toma conta das ruas e é possível assistir a uma apresentaçao de tango sem pagar nada. Nesse lugar, almocei e voltei de ônibus a 9 de Julio. Paguei $1,20 no ônibus que dispensa cobrador. O passageiro deve trazer moedas e depositá-las numa máquina que, após reconhecer o pagamento, libera um ticket. Diga-se de passagem, o ônibus estava cheio de brasileiros e eu me atrevi a ensiná-los a chegar a Casa Rosada. Espero que tenham consigo chegar com minhas informaçoes truncadas. À tarde, voltei ao hostel porque esqueci de recarregar a bateria da câmera. Por volta das 16h30, voltei a Palermo para conhecer o Jardim Botânico e o zoológico. Esse último nao foi possível, pois novamente cheguei após o horário de funcionamento. Em seguida, fui procurar a rua onde o escritor argentino Jorge Luis Borges nasceu e descansar em uma das tantas praças que Palermo abriga. Quando voltava, comprei uma camisa bombástica do Pink Floyd (The Wall). Com a coluna e os pés em dores de parto, peguei o metrô e voltei ao hostel. Ao fim do dia, fiz um balanço do quanto aprendi de espanhol e fiquei intrigado em saber que o significado de venta aqui nao tem nada a ver com aquela palavra que costumava nomear nariz quando, menino, conversava com os amigos em Garanhuns. Em espanhol, "venta" significa venda de vender. É isso mesmo. Por exemplo: "Venta tarjetas" significa venda de cartoes e nao um adjetivo para nariz ou coisa parecida. Essas línguas malcriadas dao o que falar (se for em espanhol, melhor). Fin. P.S.: Próxima parada: Rosario. Deixo o hostel às 11h e sigo envolto em perplexidades deixadas pela beleza da capital argentina.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Buenos Aires

Segundo dia em Buenos Aires. Após uma noite quase passada com olhos arregalados, acordei às 8h30 e fiquei logo pronto para desbravar uma das cidades mais elegantes da América do Sul. Após o café da manha, segui em direçao à Av. 9 de Julio. Durante o percurso, tropecei em belíssimas construçoes e, sobressaltado pelo tropeço, parei e comecei a fotografar as linhas e desenhos de uma arquitetura bastante peculiar. Em toda Buenos Aires, encontramos prédios que conservam uma arquitetura rústica e tradicional convivendo com construçoes pra lá de modernas. A passos largos pela cidade e olhar atento, a câmera nao parava de trabalhar. No centro da cidade, a atençao repousou sobre a Basílica Nuestra Señora del Rosario (Ordem de Predicadores - Convento de Santo Antonio). No pátio em frente à igreja, reina imponente o Monumento El ejercito de la nacion creador de su glorioso bandera (acho que o nome é esse, se não for - que alegria! encontrei o til rs - acabo de batizá-lo com esse nome). Segui sem direção (ainda vou comprar uma bússola para parar com isso) e, entrando e saindo por ruas que conservam um traçado secular, cheguei ao Ministério da Defesa, Museo del Bicentencenario e, totalmente por acaso, dei de cara com a famosa Plaza de Mayo e a Casa Rosada. Entre tantos turistas que fotografavam a praça, brasileiros se esbarravam o tempo todo. Cheguei a pensar que não tinha saído do Brasil. Após muitas fotos na Plaza, que é palco de protestos contantes, bateu "aquela fome" e resolvi fazer um intervalo nas fotografias para almoçar. Até esse instante sagrado do almoço, meu espanhol já havia melhorado e muito e o peso argentino voava da carteira como folhas ao vento. Tudo aqui é muito caro e, só para dar um exemplo, mas sem a intenção de espantar quem deseja conhecer a cidade, comprei água por $8. Ainda bem que nosso Real é valorizado aqui. Finalmente cheguei à Av. 9 de Julio (meu espanhol tá bombando!!!!) e fiquei espantado diante das dimensões da avenida, da imponência do obelisco e da modernidade dos anúncios que fazem desfilar letreiros e imagens que parecem cascatas tecnológicas. Andei toda a 9 de Julio atento aos cafés que ocupam as calçadas, a limpeza que impressiona, o andar elegante dos argentinos, os prédios imponentes, as praças bem cuidadas e o verde que ocupa muitos lugares. Foi encantado com tudo isso que cheguei a um dos mais famosos bairros de Buenos Aires, Recoleta. Muito do que já descrevi, repete-se nesse bairro nobre, elegante e singular de Buenos Aires. Acrescentaria apenas a política de construção dos prédios que os deixa na mesma altura e a quantidade de plantas que os moradores exibem em suas varandas. Impressionante e ecologicamente necessário. Por falar em ecologia, os argentinos são frequentes no uso de bicicletas que são distribuídas numa cidade que tem ciclovias e sinalização em várias áreas. Parabéns, Buenos Aires!!! Em Recoleta, visitei parques, o Centro Cultural, a Igreja Nuestra Señora del Pilar e o cemitério (nunca fiz tanta foto num lugar que detesto tanto). Ainda não satisfeito, rumei a Palermo, outro bairro bastante badalado de Buenos Aires. Como cheguei no fim da tarde, muitos dos lugares que intencionava conhecer, já haviam fechado. Mas, não me dando por vencido, planejei uma volta na quinta-feira pela manhã (último dia em Buenos Aires...snif...)para explorar melhor o bairro. Bem, já era hora de voltar para casa e peguei o metrô que, diga-se de passagem, é bem rápido. Nesse momento de pegar o metrô, descobri que recebi uma moeda de $2 e acho que levei uma bronca da funcionária (não posso dizer com precisão que se tratava de uma bronca porque meu espanhol ainda não permite). Durante essa volta ao hostel, ainda conheci o prédio da Corte Suprema, o Teatro Cólon e a Escuela Presidente Roca. Só pra finalizar, quero dizer que o povo argentino não é ríspido nem ranzinza. Talvez a maneira de falar, gesticular e, numa possibilidade mais remota, a sonoridade da língua, deixe essa impressão. Em todos o momentos que necessitei de uma informação, fui recebido com um caloroso Hola! ou Buenos dias! Faço uma exceção apenas no segurança do Jardim Botânico que gritou porque eu estava prestes a invadir o parque após o horário de funcionamento. rs Ainda ressoam suas palavras: "Você não leu a placa?" Em vez de tomar como uma deselegância, vi no gesto uma tentativa - não só do segurança, mas na pessoa dele, dos argentinos - em organizar a vida urbana. É isso. Vou dormir porque amanhã tenho Puerto Madero e San Telmo para deixar meus passos de mochileiro.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante

Sao 22h23 e em Buenos Aires é como se a noite estivesse apenas começando. O dia aqui é mais longo e, às 19h, o sol ainda brilhava e iluminava a cidade com seus raios que pareciam nao querer se despedir. Estou em Buenos Aires há pouco tempo, mas já me sinto um tanto familiar, embora o cansaço de uma viagem que durou mais de doze horas insista em negligenciar essa impressao. Saí de Recife às 5h10, fiz uma escala em Brasìlia às 8h e desembarquei em Sao Paulo às 11h30. Depois disso, fui submetido a uma espera no aeroporto de Guarulhos que se estendeu por mais de quatro horas. Foi nesse momento que percebi que minha resistência física e mental estavam sendo colocadas à prova. A fim de ludibriar a ansiedade e nao sentir o peso do tempo que se estendia indefinidamente, ouvi música, visitei lojas nas quais jamais compraria um alfinete sequer (que assalto nesses aeroportos!!!). Mas fiquei por ali, admirando o inacessível. Quando a aeronave da Aerolineas Argentinas aterrissou, um novo ar de esperança inflou-me o peito. Durante o terceiro voo do dia (nem o saco do mochileiro mais convicto suporta tanto sobe e desce), conheci um argentino radicado no Estado de Sao Paulo que me deu ótimas dicas sobre a cidade de Cordoba. Enfim, terra firme e novos desafios. Li no Guia do Viajante Independente pela América do Sul que havia um ônibus (autobus aqui) que custava $25 pesos e deixava o passageiro onde quisesse. Encontrei a empresa de ônibus, mas nao a oferta. Por falta de dinheiro trocado (os ônibus daqui, ou autobus, como queira, só aceitam moedas)e da informaçao dada no livro, tive que desembolsar $80 para pagar um táxi e chegar no Hostel Buenos Aires. É um lugar amigável, humano, jovial. Já ouvi muitos sotaques e línguas por aqui. Além disso, as pessoas parecem estar dispostas a se conhecerem e fazer novas amizades. Isso é uma tábua de salvaçao para quem está longe de casa, há milhas e milhas do seu Recife. Aproveitei para comer alguma coisa fora, porque achei caro o prato oferecido pelo Hostel. Encontrei um lugar simples, mas com boa comida a três quadras daqui. Esse pequeno percurso foi suficiente para sentir que a cidade é uma promessa. Fico por aqui. P.S.: Algumas palavras estao sem til (e meu texto todo sublinhado de vermelho), porque esse teclado castelhano só traz til sobre o Ñ (e sò!!).