Total de visualizações de página

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Corpo(s)


Corpo vigiado
Corpo punido
Corpo macerado
Corpo mutilado
Corpo ocultado
Corpo desejado
Corpo padronizado
Corpo santificado
Corpo demonizado
Corpo excluído
Corpo violado
Corpo explorado
Corpo falado
Corpo (re)significado
Corpo produzido
Corpo mortificado
Corpo celebrizado
Corpo escravizado
Corpo liberado
Corpo comercializado
Corpo transformado
Corpo encarcerado
E se um dia esse corpo
for simplesmente livre?

domingo, 25 de setembro de 2016

Vivia absorta em recordações. Suspensa, como um trapezista que se mantém no ar em estado de êxtase, rememorava os fatos passados sem bater o olho. Imersa num pensamento que dava voltas em torno de si sem se desprender dos afetos envolvidos naquele último relacionamento, ela cedia seus instantes apenas ao passado. Revirava cartas, lembranças de viagem, músicas, e-mails e tudo aquilo que ajudasse a aprofundar seu estado de irreversível anamnese. Encostada na parede do quarto que tinha os objetos cobertos por uma penumbra, segurava, com mãos trêmulas, as últimas linhas escritas por ele. Apartada de qualquer realidade que não fosse aquela feita de lembranças, deslizava o pé que caia languidamente sobre o chão que parecia fugir, não estar ali. A impressão que aumentava a galopes era de que um abismo se abria sob seus pés enquanto sua cabeça orbitava no vivido, nas reminiscências.
- Você fez o artigo da disciplina de linguística aplicada? - inquiriu na saída da faculdade de letras.
- Ainda não. Tenho priorizado outras disciplinas, respondeu lacônico.
- Eu também não fiz. E também me encontro sobrecarregada de trabalhos, mas se você quiser ir a minha casa à tarde, então, podemos traçar um esboço, insistiu sem a intenção de pressioná-lo.
Ele assentiu, embora seu espírito metódico e disciplinado resistisse e optasse pela primeira opção que fora priorizar outras disciplinas. Não sabia de quem havia herdado esse comportamento orientado por uma racionalidade acima de qualquer sentimento e afeto. Não poderia ter sido, efetivamente dos seus pais. Esses viviam à mercê de todo tipo de vento emocional, de maneira que raramente concluíam tarefas, cursos e afins. Além disso, as brigas eram tão frequentes que era impossível permitirem-se um momento de silêncio e reflexão necessários a reorganização da vida prática e emocional. Olhava-os de longe e, de repente, se via absorto em pensamento acerca da vida que queria para si. E essa vida excluía, em definitivo, aquela dos pais. Dono de uma seriedade e objetividade invejáveis, ele pagava o preço que um perfil assim exigia. Aquele rosto branco, esquelético e fantasmagórico era perfeitamente compatível com seu corpo esguio e andar compassado. Tudo nele remetia à racionalidade e parecia desprovido de sentimentos e emoções efêmeras e sem corporeidade passível de uma análise lógica e científica.
- Que horas posso ir a sua casa? - perguntou secamente.
- Eu te espero às 14h, disse com voz sobressaltada porque já se dirigia à parada onde passava o ônibus CDU-Boa Viagem.
Ele fez um gesto com a cabeça que confirmava sua ida. Seguiu pelo campus quando finalmente chegou ao restaurante universitário. Tinha que apressar-se, pois não era dado a atrasos e se orgulhava quando diziam que era detentor de uma pontualidade britânica. Não mastigava e engolia às pressas para não perder tempo. Concluída a difícil tarefa de engolir aquela comida que distava enormemente daquela feita por sua mãe, deixou apressado o restaurante e tomou o primeiro ônibus que passasse em Boa Viagem.
- Fico feliz que tenha vindo. Entre, por favor - ordenou polidamente.
O edifício ficava na avenida Ernesto de Paula e o apartamento era revestido de elementos da cultura pernambucana. Das paredes pendiam pinturas de artistas da terra e num recanto de parede havia uma pequena réplica de uma escultura de Francisco Brennand. Na varanda, uma alfaia de maracatu e uma rede compunham um cenário quase inverosímel não fosse o todo do apartamento que justificava cada objeto ali posto. Ele observava e digeria toda a decoração sem deixar entrever sua curiosidade e estranheza.
- Agradeço o convite. Se não se incomoda gostaria que começássemos - disparou nervosamente.
- Sim. Você mora na Cidade Universitária e não pode ficar muito tempo. Daqui a pouco, o trânsito estará um caos.
Sentaram à mesa e começaram a folhear um livro sobre os fundamentos da Linguística Aplicada. Começaram discutindo conceitos centrais dessa disciplina.
- Você concorda com o autor quando diz que o ensino descontextualizado de gramática não contribui com a competência linguística do aluno? - perguntou para testar seus conhecimentos sobre os assunto, pois sabia que não dava o devido valor a essas questões pragmáticas.
- Sim, concordo. - respondeu impensadamente.
Ela percebeu que havia uma desordem instalada naquele diálogo. As reflexões não se encontravam e as palavras pareciam desnecessárias. Silêncios diziam mais e era nos intervalos entre uma palavra e outra que os verdadeiros significados explodiam. Um franzir de testa, um toque rápido na mão para chamar a atenção, um correr de olhos pelo corpo do outro e a cadência dos lábios revelavam o indizível. Era nos entremeios que a evidência de um amor que não se esgota apenas na amizade se manifestava. Naquelas palavras não ditas, todo o afeto reprimido se descortinava como num filme silencioso. Ele perdera a noção da hora. Ela esquecera que ele tinha que voltar à Cidade Universitária e que, a partir das 17h, o trânsito era um inferno cujas chamas se espalhavam pela cidade. Esquecidos dos compromissos que fizeram com que estivessem naquele apartamento numa tarde escaldante e sem previsão de chuva, beijaram-se. Espaço e tempo dissolvidos, a felicidade era a única realidade possível. Atualizavam o amor que sentiam um pelo outro naquele beijo. Ele afastou-se e, inquieto, tentava organizar seus papeis que não conseguia distinguir dos dela. Ela mantinha-se impassível diante dele, mas ele estava desorientado. Reuniu o que foi possível, pôs na mochila e saiu sem se despedir. Ela bateu a porta atrás de si ainda em êxtase. Nem procurou entender o que havia acontecido. Queria sentir; não entender. Estava tomada de um sentimento ainda não sentido e, por isso, queria prolongá-lo no seu corpo e mente.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Carnaval

Na rua da Aurora,
de par em par, amanhecia.
Na rua do Sol,
ardo em alegria.

Na rua da União,
me embriago de poesia.
Na rua do Bom Jesus,
ressuscito em plena euforia.

Na rua da Concórdia,
é Galo, é folia...
Na rua do Imperador,
sonho com um novo dia.

"Já disse que pode deixar, moço.
Eu consigo chegar em casa
sozinho."

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Era tarde

Era tarde.
O mar agitava a areia 
e lançava seus braços raivosos
contra o calçadão da avenida.

Era tarde.
O trânsito enfurecia o transeunte
que não passava indiferente
às buzinas que ensurdeciam.

Era tarde. 
O sol declinava e,
à medida que declinava,
fazia seus raios dançarem 
e sua cor era despedida sem lágrima.

Mas era devaneio no Recife
e ninguém notava isso. 



sábado, 30 de julho de 2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

As últimas palavras de Van Gogh

Após atirar no próprio peito, Van Gogh, na cama, pronuncia suas últimas palavras nos braços do irmão Théo: "La tristesse durera toujours." (A tristeza durará para sempre)


Hesse sobre a solidão

“Solidão é independência, com ela eu sempre sonhara e a obtivera afinal após tantos anos” (O Lobo da Estepe - Hermann Hesse)

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A Visita

Ele não era de receber muitas visitas. Talvez, por isso, desacostumou-se a elas. Quando aconteciam, era por que havia convidado para um jantar ou para reunir amigos que compartilhavam com ele o gosto por boa música e conversas pausadas por vinho, cerveja ou aquilo que dispunha. Habituou-se a ser companhia de si mesmo e, até onde se sabe, nunca se deixou desamparado. Não se voltava contra aquilo que a vida havia reservado e preferiu reconciliar-se com o momento; quer fosse de festa, euforia e vozes que ecoavam longe, quer fosse do mais absoluto silêncio. Não vivia só, pois acreditava que seus livros, discos e filmes rodeavam seus passos, adentravam seus pensamentos, tranquilizavam (ou não) sua mente.
Era manhã e se encontrava na escola onde trabalhava. Dedicado às demandas do seu trabalho, não lhe sobrava tempo para acessar caixa de e-mail e redes sociais. Aproveitando-se de um privilégio nem sempre concedido durante as horas que passava no ambiente de trabalho, resolveu abrir a caixa de e-mail. Nem sempre tempo livre significava permissão para fazer qualquer coisa que não estivesse ligado ao trabalho, mas esse pequeno espaço de tempo foi aproveitado para subverter a rotina que havia criado para si. Descendo os olhos que passavam por spams, congressos, solicitações e mensagens pessoais, ficou atônito ao deixá-los cair num e-mail identificado por Felipe Trindade. Ajeitou-se na cadeira, desligou-se do movimento ao redor, retomou a atenção que havia caído em confusão e leu o assunto deslizando a vista sobre as letras como se analisasse um texto feito para ser avaliado. O assunto trazia uma proposta de venda de uma coleção de filmes do Charlie Chaplin. Clicou sobre e leu o conteúdo com redobrada atenção. Era mesmo uma oferta e pedia resposta urgente. Enviou uma resposta afirmativa, embora não soubesse se o valor da coleção iria comprometer o orçamento do mês que nem sempre permitia extravagâncias ou mesmo pequenos gastos.
Felipe era um amigo que não via há certo tempo. Naquele momento, não saberia mensurar quanto tempo, mas tinha por certo que ver o velho amigo o faria muito feliz. Felipe não demorou a responder e confirmou ida a seu apartamento naquele mesmo dia após o expediente. Levaria os DVDs para que fossem testados, pois eram de segunda mão. No teor do e-mail, nenhuma palavra sobre amizade, ausência, saudade. Apenas a confirmação de uma transação comercial e nada mais. Mas isso não importava. Preferiu ressaltar a importância da visita de um amigo que fora tão significativo e, de repente, distância, ausência de contato, lembrança de momentos que estavam ancorados longe daquele dia em que tudo se atualizaria e a amizade seria retomada.
A campainha toca. Não tem dúvida que é seu amigo à porta, pois não costumava atrasar. Um cumprimento formal marcou a recepção. Trazia consigo uma sacola que logo identificou tratar-se dos DVDs.
- Tudo bem? - perguntou num tom meio formal. Parecia receber alguém que havia ido levar uma encomenda qualquer ou fazer um conserto na antena da TV a cabo.
- Sim. Tudo bem? E você?
O tom não foi diferente. Talvez a falta de contato, o desamparo ao qual se impuseram durante essa ausência e a indiferença que, pouco a pouco, foi se instalando entre os dois tivessem construído um abismo sem possibilidade de ponte capaz de religá-los. Havia um desconcerto, uma desarmonia que estabelecia um conflito silencioso que tomava a sala.
- Aqui estão os DVDs. Pode testá-los. - falou secamente.
Ele liga os aparelhos e começa a testar os DVDs. Agora já não se tratava mais de amizade, lembranças, vivências etc. Tratava-se de um negócio e ele não gostaria de sair perdendo. Um a um, com cautela e observação cuidadosa, os DVDs iam sendo testados. Nenhuma palavra foi dita. As vozes desencarnaram e o ambiente foi se tornando cada vez mais opressivo, pois o conflito instalado assumia proporções ainda maiores. Desbordava. Não sabendo devolver o DVD à capa e fechá-la, atrapalhou-se e recebeu uma ajuda mecânica. Na verdade, não sabiam mais o que eram, quem eram e o que significavam. Estavam perdidos no espaço da amizade que se dissipava, escapava-lhes por entre dedos, dentes, cabelos. O teste acabou. Sentados e confusos, entreolhavam-se cientes do abandono a que tinham se infligido.
Suspensos, segregados e cada um resguardando suas fronteiras, ainda fizeram um esforço contido em direção a um diálogo que girava em torno do mesmo tema e não progredia. Fez um movimento no sentido de se retirar e não foi solicitado para que ficasse um pouco mais. À porta, a despedida estava envolta nos mesmos sentimentos que participaram da recepção. Batera a porta atrás de si enquanto o peito pesava e a cabeça dava voltas. A amizade era um passado irrecuperável e cheia de cicatrizes que não se prestavam a desaparecer. À medida que o tempo passava e organizava os DVDs, tentava recobrar o controle e pacificar as emoções que ainda ondulavam sobre sua existência. Dormiria ali mesmo na sala, pois o peso daquele conflito psicológico não permitiria que chegasse à cama.
Alguns meses após aquele episódio, recebeu outra mensagem que informava que Felipe morrera subitamente. Não sabia o que pensar, menos ainda, dizer. Não se arrependeu das palavras caladas naquele último encontro. Resignou-se e aceitou esse silêncio final como o início de uma nova forma de se relacionar com a vida.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Roger Waters - The Wall

De um lado, o homem que busca resgatar e se reconciliar com o passado. Do outro lado, o músico que construiu a única ópera rock capaz de fazer refletir, emocionar e fruir. O filme produzido por Roger Waters e Sean Evans é um dos melhores da marca "Pink Floyd". Quando cantou Confortably Numb, confesso que não aguentei e chorei.

O Abraço

Quando lemos a biografia de Van Gogh, então entendemos melhor os temas dos seus quadros. Durante a vida, Van Gogh esperou esse abraço que poderia ter vindo de qualquer pessoa, desde que fosse sincero. Talvez o irmão Theo tenha sido esse abraço, mas ainda é difícil dizer por que nem mesmo o amor do irmão foi capaz de aplacar a angústia que caminhava com o pintor.