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sábado, 30 de julho de 2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

As últimas palavras de Van Gogh

Após atirar no próprio peito, Van Gogh, na cama, pronuncia suas últimas palavras nos braços do irmão Théo: "La tristesse durera toujours." (A tristeza durará para sempre)


Hesse sobre a solidão

“Solidão é independência, com ela eu sempre sonhara e a obtivera afinal após tantos anos” (O Lobo da Estepe - Hermann Hesse)

segunda-feira, 30 de maio de 2016

A Visita

Ele não era de receber muitas visitas. Talvez, por isso, desacostumou-se a elas. Quando aconteciam, era por que havia convidado para um jantar ou para reunir amigos que compartilhavam com ele o gosto por boa música e conversas pausadas por vinho, cerveja ou aquilo que dispunha. Habituou-se a ser companhia de si mesmo e, até onde se sabe, nunca se deixou desamparado. Não se voltava contra aquilo que a vida havia reservado e preferiu reconciliar-se com o momento; quer fosse de festa, euforia e vozes que ecoavam longe, quer fosse do mais absoluto silêncio. Não vivia só, pois acreditava que seus livros, discos e filmes rodeavam seus passos, adentravam seus pensamentos, tranquilizavam (ou não) sua mente.
Era manhã e se encontrava na escola onde trabalhava. Dedicado às demandas do seu trabalho, não lhe sobrava tempo para acessar caixa de e-mail e redes sociais. Aproveitando-se de um privilégio nem sempre concedido durante as horas que passava no ambiente de trabalho, resolveu abrir a caixa de e-mail. Nem sempre tempo livre significava permissão para fazer qualquer coisa que não estivesse ligado ao trabalho, mas esse pequeno espaço de tempo foi aproveitado para subverter a rotina que havia criado para si. Descendo os olhos que passavam por spams, congressos, solicitações e mensagens pessoais, ficou atônito ao deixá-los cair num e-mail identificado por Felipe Trindade. Ajeitou-se na cadeira, desligou-se do movimento ao redor, retomou a atenção que havia caído em confusão e leu o assunto deslizando a vista sobre as letras como se analisasse um texto feito para ser avaliado. O assunto trazia uma proposta de venda de uma coleção de filmes do Charlie Chaplin. Clicou sobre e leu o conteúdo com redobrada atenção. Era mesmo uma oferta e pedia resposta urgente. Enviou uma resposta afirmativa, embora não soubesse se o valor da coleção iria comprometer o orçamento do mês que nem sempre permitia extravagâncias ou mesmo pequenos gastos.
Felipe era um amigo que não via há certo tempo. Naquele momento, não saberia mensurar quanto tempo, mas tinha por certo que ver o velho amigo o faria muito feliz. Felipe não demorou a responder e confirmou ida a seu apartamento naquele mesmo dia após o expediente. Levaria os DVDs para que fossem testados, pois eram de segunda mão. No teor do e-mail, nenhuma palavra sobre amizade, ausência, saudade. Apenas a confirmação de uma transação comercial e nada mais. Mas isso não importava. Preferiu ressaltar a importância da visita de um amigo que fora tão significativo e, de repente, distância, ausência de contato, lembrança de momentos que estavam ancorados longe daquele dia em que tudo se atualizaria e a amizade seria retomada.
A campainha toca. Não tem dúvida que é seu amigo à porta, pois não costumava atrasar. Um cumprimento formal marcou a recepção. Trazia consigo uma sacola que logo identificou tratar-se dos DVDs.
- Tudo bem? - perguntou num tom meio formal. Parecia receber alguém que havia ido levar uma encomenda qualquer ou fazer um conserto na antena da TV a cabo.
- Sim. Tudo bem? E você?
O tom não foi diferente. Talvez a falta de contato, o desamparo ao qual se impuseram durante essa ausência e a indiferença que, pouco a pouco, foi se instalando entre os dois tivessem construído um abismo sem possibilidade de ponte capaz de religá-los. Havia um desconcerto, uma desarmonia que estabelecia um conflito silencioso que tomava a sala.
- Aqui estão os DVDs. Pode testá-los. - falou secamente.
Ele liga os aparelhos e começa a testar os DVDs. Agora já não se tratava mais de amizade, lembranças, vivências etc. Tratava-se de um negócio e ele não gostaria de sair perdendo. Um a um, com cautela e observação cuidadosa, os DVDs iam sendo testados. Nenhuma palavra foi dita. As vozes desencarnaram e o ambiente foi se tornando cada vez mais opressivo, pois o conflito instalado assumia proporções ainda maiores. Desbordava. Não sabendo devolver o DVD à capa e fechá-la, atrapalhou-se e recebeu uma ajuda mecânica. Na verdade, não sabiam mais o que eram, quem eram e o que significavam. Estavam perdidos no espaço da amizade que se dissipava, escapava-lhes por entre dedos, dentes, cabelos. O teste acabou. Sentados e confusos, entreolhavam-se cientes do abandono a que tinham se infligido.
Suspensos, segregados e cada um resguardando suas fronteiras, ainda fizeram um esforço contido em direção a um diálogo que girava em torno do mesmo tema e não progredia. Fez um movimento no sentido de se retirar e não foi solicitado para que ficasse um pouco mais. À porta, a despedida estava envolta nos mesmos sentimentos que participaram da recepção. Batera a porta atrás de si enquanto o peito pesava e a cabeça dava voltas. A amizade era um passado irrecuperável e cheia de cicatrizes que não se prestavam a desaparecer. À medida que o tempo passava e organizava os DVDs, tentava recobrar o controle e pacificar as emoções que ainda ondulavam sobre sua existência. Dormiria ali mesmo na sala, pois o peso daquele conflito psicológico não permitiria que chegasse à cama.
Alguns meses após aquele episódio, recebeu outra mensagem que informava que Felipe morrera subitamente. Não sabia o que pensar, menos ainda, dizer. Não se arrependeu das palavras caladas naquele último encontro. Resignou-se e aceitou esse silêncio final como o início de uma nova forma de se relacionar com a vida.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Roger Waters - The Wall

De um lado, o homem que busca resgatar e se reconciliar com o passado. Do outro lado, o músico que construiu a única ópera rock capaz de fazer refletir, emocionar e fruir. O filme produzido por Roger Waters e Sean Evans é um dos melhores da marca "Pink Floyd". Quando cantou Confortably Numb, confesso que não aguentei e chorei.

O Abraço

Quando lemos a biografia de Van Gogh, então entendemos melhor os temas dos seus quadros. Durante a vida, Van Gogh esperou esse abraço que poderia ter vindo de qualquer pessoa, desde que fosse sincero. Talvez o irmão Theo tenha sido esse abraço, mas ainda é difícil dizer por que nem mesmo o amor do irmão foi capaz de aplacar a angústia que caminhava com o pintor.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Homenagem a W. H. Auden


Morre o poeta.
Morre, com ele, toda a luz do mundo:
o espaço do seu rosto, o mar profundo,
a aurora e um pôr-do-sol escandaloso.
Morre o poeta e morre o Ocidente.
E o Oriente. E os pontos cardeais.
Morrem as estrelas. Morre o firmamento.
Morrem as sombras do pântano e o arvoredo.
Todos os santos, todos os escribas,
os dias da semana, a quarta-feira.
E o próprio tempo, imóvel, que agoniza:
foi-se o olhar que no relógio via
a marcha, alegre e triste, dos ponteiros.
Morre o poeta.
Morre a alegria.
Morre tudo que flui: morre a poesia.
Morre o poeta.
E morre o mundo inteiro. (Hector Pelizzi - poeta argentino)

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sob o Céu de Piranhas


Quando cheguei, caía uma chuva fininha e o vento frio do alvorecer tocava calidamente a pele. O cheiro de terra molhada e de vegetação renascida enchia os pulmões deixando-nos mais leves. Pisava a terra ensopada como quem pisa as penas espalhadas numa piscina. Cheguei a pensar que flutuava quando não passava da experiência, cheia de simplicidade, de pisar o chão de barro.
Saí do alojamento e fui revisitado por aquele ar vigoroso de uma camurça sem nome. Estava em Piranhas. Passados alguns minutos, encontrava-me no Instituto. Cheguei cedo e não havia professores nem gestores. Aos poucos, eles foram chegando e, de repente, estávamos amontoados em torno de uma mesa de frios, frutas e bolos. Demos as boas-vindas aos que já eram e aos que serão de hoje em diante. Além disso, sentimos os espaços deixados por aqueles que amamos e que já não compartilham do mesmo chão. O sentimento de amizade e as boas memórias da convivência preenchem os espaços e voltamos a nos harmonizar com o todo e com o tempo presente feito de cumprimentos que nos chegam como um ritual padronizado. Na sequência, avaliação do comportamento dos alunos que acabam sendo a avaliação das nossas próprias dores, insatisfações e descontentamentos. A chuva volta a cair no fim da tarde e, aquele frio que nos desamparou durante o dia, volta a nos abraçar no cair da noite. Aguardo, franzo a testa, olho para os lados e volto ao alojamento sob o firmamento estrelado que me cobre sem chuva, sem nuvens, mas com a vida que cintila sob o céu de Piranhas.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

São Paulo: voltar é preciso


Há sempre bons motivos para voltar a São Paulo. Eles podem ser simples ou complexos, pequenos ou grandes, importantes ou banais. A única coisa certa é que há sempre um, dois, três ou milhares de motivos para fazer a experiência-São Paulo.
Cheguei no fim da tarde de uma sexta-feira. O frio ameaçava, mas não passou de uma agradável e moderada temperatura. Quando saí da estação de metrô, dei de cara com um bairro agitado, vívido. Estava na Liberdade. Habitado por japoneses e outras etnias, a Liberdade é um celeiro de encontros culturais e étnico-raciais.
Exausto da viagem, sentei no primeiro restaurante que vi ao sair da estação. Comi sushi. Foi possível saciar a fome, mas não tive prazer algum naquele sushi que nem de longe parecia ter sido feito pelas mãos dos seus criadores.
Na primeira noite, pensei apenas em descansar e planejar o roteiro do dia seguinte. Além de consultar o mapa, preparei a câmera que registraria um outro olhar sobre a cidade. Já havia passado cinco anos desde a última visita.
Na manhã do dia seguinte, saí de casa como se fosse familiar à cidade, embora tivesse a certeza de que novos caminhos e experiências já se anunciavam. Andei pelo bairro da Liberdade tomado por uma tranquilidade genuína, de maneira que me permiti entrar e sair de ruas reiteradas vezes, perder o rumo, ficar desnorteado. Nesse passo embriagado de atenção e curiosidade, acompanhei o cotidiano dos moradores, seus costumes, comércio, burburinho, pagodes, silêncios.
Tudo isso me preparou para uma nova visita ao MASP na parte da tarde. Revisitar o acervo do museu é a única vivência do tipo "mais do mesmo" que não me deixa entediado. Ali nos encontramos com Gauguin, Cézanne, Rembrandt, Van Gogh, Rodin e muitos, muitos outros. Percorri as salas sem pressa, desfilei o olhar docemente sobre as pinturas, pensei nos processos criativos daqueles homens e mulheres de arte, descansei nas cores de Renoir.
Após experiências abstratas que representam objetos visíveis, chegou a hora de experienciar o tocável, amável e que nunca cai no esquecimento: os amigos. A bem da verdade, duas amigas que conheci quando estive pela primeira vez em Buenos Aires. Elas me sugeriram dança de salão e eu devolvi com jazz e blues no bairro da Madalena. Cederam e acabamos nos fundos de um estacionamento onde circulavam pessoas interessantes e aos ouvidos chegavam os sons tirados de um saxofone cheio de vida. A apresentação durou o tempo suficiente para que fôssemos felizes; felizes por sermos amigos, amigos sinceros.
No domingo, minha opção foi a Pinacoteca. Esse é outro espaço que nos faz pairar  no ar. Dessa vez, foi possível conhecer o anexo que trata-se de outro prédio próximo à Pinacoteca e menor que essa. Na entrada, uma exposição fotográfica sobre a Ditadura Militar brasileira e, em uma das salas, exposição de arte brasileira. Portinari, Di Cavalcante, Tarsila do Amaral foram meus recepcionistas e me fizeram entender melhor o que é fazer uma releitura do Brasil por meio da representação pictórica.
Por fim, peguei um cineminha no prédio da Gazeta no espaço Reserva. Adivinhe quem encontrei lá? Liv Ullman exibindo seu longa metragem que, embora tenha recebido heranças do memorável Ingmar Bergman, apresenta o traço cinematográfico peculiar da menina dos olhos que se celebrizou nos filmes do diretor sueco.
É hora de voltar. Na mala: roupas, agenda, e tudo aquilo que foi possível comprar a preço de banana, como livros, DVDs, cartazes, lembrancinhas e aquilo que o dinheiro não compra, a saudade de voltar.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O Permanente e o Provisório




O PERMANENTE E O PROVISÓRIO

O casamento é permanente, o namoro é provisório.
O amor é permanente, a paixão é provisória.
Uma profissão é permanente, um emprego é provisório.
Um endereço é permanente, uma estada é provisória.
A arte é permanente, a tendência é provisória.
De acordo? Nem eu.
Um casamento que dura 20 anos é provisório. Não somos repetições de nós mesmos, a cada instante somos surpreendidos por novos pensamentos que nos chegam através da leitura, do cinema, da meditação. O que eu fui ontem, anteontem, já é memória. Escada vencida degrau por degrau, mas o que eu sou neste momento é o que conta, minhas decisões valem pra agora, hoje é o meu dia, nenhum outro.
Amor permanente... como a gente se agarra nesta ilusão. Pois se nem o amor pela gente mesmo resiste tanto tempo sem umas reavaliações. Por isso nos transformamos, temos sede de aprender, de nos melhorar, de deixar pra trás nossos imensuráveis erros, nossos achaques, nossos preconceitos, tudo o que fizemos achando que era certo e hoje condenamos. O amor se infiltra dentro de nós, mas seguem todos em movimento: você, o amor da sua vida e o que vocês sentem. Tudo pulsando independentemente, e passíveis de se desgarrar um do outro.
Um endereço não é pra sempre, uma profissão pode ser jogada pela janela, a amizade é fortíssima até encontrar uma desilusão ainda mais forte, a arte passa por ciclos, e se tudo isso é soberano e tem valor supremo, é porque hoje acreditamos nisso, hoje somos superiores ao passado e ao futuro, agora é que nossa crença se estabiliza, a necessidade se manifesta, a vontade se impõe – até que o tempo vire.
Faço menos planos e cultivo menos recordações. Não guardo muitos papéis, nem adianto muito o serviço. Movimento-me num espaço cujo tamanho me serve, alcanço seus limites com as mãos, é nele que me instalo e vivo com a integridade possível. Canso menos, me divirto mais, e não perco a fé por constatar o óbvio: tudo é provisório, inclusive nós.
Martha Medeiros Crônica "O permanente e o provisório", 2004.

Nota: Texto originalmente publicado na coluna de Martha Medeiros, no website Almas Gêmeas, a 26 de janeiro de 2004.