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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sobre "As amizades particulares"


Há filmes que não nos abandonam e sempre voltam à memória quando refletimos acerca de determinadas questões existenciais. Isso acontece também com livros, músicas e pinturas que desencadeiam reflexões pontuais e aos quais retornamos quando mencionamos um assunto ou nos perdemos em pensamentos específicos. No decorrer destas linhas, lembrei das recordações de Hermann Hesse ao ouvir a Marcha Fúnebre de Chopin. No livro Felicidade (1999), Hesse descreve uma situação em que recorda, subitamente, um camarada - como ele mesmo gosta de chamar - da escola que se suicidou e teve seu cortejo acompanhado pela Marcha Fúnebre. Anos depois, ao escutar a música, Hesse é tomado pelas lembranças e sentimentos que o envolveram quando avistava o cortejo desfilar pelas ruas de Tübingen. É um texto belíssimo, cujo trecho foi usado por mim em uma crônica que escrevi sobre a morte da cantora Cássia Eller logo após a tragédia que abreviou sua vida.
Mas voltemos ao filme. As amizades particulares (Les Amitiés Particulières), dirigido pelo francês Jean Delannoy, conta a história de amizade entre dois adolescentes num colégio católico. O filme é baseado no romance autobiográfico do escritor francês Roger Peyrefitte e traz no elenco nomes como os de Francis Lacombrade, Didier Haudepin, François Leccia, Dominique Maurin, entre outros. O ano de lançamento é 1964.
Vivendo como internos em um colégio católico de reconhecido rigor, os adolescentes Georges de Sarre (Francis Lacombrade) e Alexandre Motier (Didier Haudepin) constroem uma afeição que poderia ser descrita nas palavras citadas por Oscar Wilde em Escritos do Cárcere: "o amor que não ousa dizer seu nome." Embora usem de estratégias as mais diversas para manter-se longe da desconfiança e perseguição dos padres, a afeição entre os dois torna-se evidente e é efetivamente flagrada na estufa onde se encontravam. Exposta a relação, resta cuidar da amizade sincera que nasceu entre os muros do seminário, a fim de que não arrefeça nem se apague com a saída de um dos alunos: Georges de Sarre. Infelizmente, a astúcia de um dos padres é infalível em separar os alunos. Essa artimanha sacrossanta trará uma consequência trágica ao aluno mais novo que prefiro descrevê-la nesses versos de W. H. Auden:

Funeral Blues

Pare os relógios, cale o telefone
Evite o latido do cão com um osso
Emudeça o piano e que o tambor surdo anuncie
a vinda do caixão, seguido pelo cortejo.
Que os aviões voem em círculos, gemendo
e que escrevam no céu o anúncio: ele morreu.
Ponham laços pretos nos pescoços brancos das pombas de rua
e que guardas de trânsito usem finas luvas de breu.
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste
Meus dias úteis, meus finais-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, minha fala e meu canto.
Eu pensava que o amor era eterno; estava errado
As estrelas não são mais necessárias; apague-as uma por uma
Guarde a lua, desmonte o sol
Despeje o mar e livre-se da floresta
pois nada mais poderá ser bom como antes era.

O filme de Delannoy é um verdadeiro poema à amizade indistinta e incondicional. A relação vivenciada por Roger em sua adolescência e narrada no livro "Les Amitiés Particulières" é uma prova material de que o amor não pode ser encarcerado em fórmulas canônicas ou catecismos, embora os cães de guarda da Igreja Católica assim o queiram.
Acredito que seja um post propício ao penúltimo dia do ano porque é um post que fala de amor: palavra muito dita, mas pouco vivida. Em 2011: AMOR.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Recife em fotos e olhares








Não há cidade do Nordeste que me encante mais que Recife. A cidade tem uma energia e uma vibração que a diferenciam das demais capitais nordestinas em aspectos que vão além da organização estrutural, demografia, espaço territorial etc. Só ousaria compará-la a Salvador, mas os laços afetivos que mantenho com Recife não o permitem. Morei em Salvador durante dois anos, senti a força espiritual e cultural que a cidade emanava, mas não consegui amá-la como Recife. Salvador é um tipo de cidade que, de tanto aparecer na mídia escrita e falada por ter um potencial turístico já consolidado no cenário nordestino,antecipa para os visitantes as belezas que prendem o olhar. O Pelourinho, embora reserve encantos que só se revelam no contato visual, físico, real, é, de certo modo, um tanto previsível. Recife não. É necessário pisar seu chão com delicadeza, sentir as paredes de seus prédios históricos, cantar sua música lentamente, atravessar suas pontes com olhar atento ao panorama que as cerca, a fim de conhecer uma cidade que se desvela aos olhares que não correm céleres sobre suas ruas, praças, rios, pontes e maracatus. Só conhece Recife quem a olha, nunca quem a vê somente. Em fotos, apresento um recorte da cidade de Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Chico Science, Paulo Freire e tantos outros.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Coleção: Chico Buarque



Chico Buarque é um ícone da música popular brasileira. Isso é incontestável. E o que declaro seria um lugar comum, um clichê, não fosse a surpreendente força do trabalho desse artista que nos faz repetir em coro a citada declaração sem que nos sintamos cansados ou prolixos. Essa força vem da beleza e da versatilidade do seu trabalho que incide sobre campos variados. Compositor, intérprete, músico, escritor: essas são algumas das suas ocupações. Mas sabemos que não fica por aí. Chico tem vida e talentos tão diversos quanto sua obra.
Para aqueles que são fãs incondicionais e aguardavam o relançamento das pérolas musicais com as quais presenteou os ouvidos dos brasileiros e brasileiras durante décadas, a Editora Abril - sob orientação do próprio Chico - selecionou os vinte melhores CDs da carreira do artista que poderão ser encontrados toda semana nas livrarias e bancas de revista. Até o momento foram lançados dois: Chico Buarque de 1978 e Construção de 1971. O preço de lançamento foi R$ 7,90, mas a partir do segundo esse valor aumentou para 14,90.
A caixinha do CD feita em capa dura e com imagem reproduzida do trabalho original em vinil traz um encarte com fotos (raras), boxes e texto que contextualiza as condições históricas, sociais e pessoais de produção das músicas. Além disso, o fã poderá contar com uma pequena biografia e letras das músicas.
Comprei os dois primeiros e aguardo o próximo que chegará amanhã. É uma coleção imperdível!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A experiência Couch Surfing


CouchSurfing é um site que se encaixa no que se chama hoje de redes sociais. Embora apresente características comuns a outros sites de relacionamento, como Orkut e Facebook, CouchSurfing apresenta algumas peculiaridades:
a)CouchSurfing não é um site de relacionamentos (embora alguns o usem para esse fim). Quando falo em relacionamento, refiro-me ao amoroso. Nesse ponto, vale esclarecer que a experiência CouchSurfing é uma experiência essencialmente relacional. Isso parece contraditório, mas não é, uma vez que os membros do CouchSurfing estabelecem relações de outra ordem que são determinadas pelos objetivos do projeto e que não são propriamente amorosas;
b)CouchSurfing implica uma experiência de convivência humana muito mais fina e intensa que aquelas possíveis em outra redes. Esse aspecto justifica-se pelo fato de que os membros do site se dispõem a hospedar (disponibilizam o sofá, nos termos do site) pessoas que viajam. Com isso, CouchSurfing possibilita a seus membros uma experiência que vai além da troca de afetos como vivenciada no Orkut e/ou Facebook. Quem recebe o viajante (ou mochileiro) divide com ele o mesmo chão e rotina. Por sua vez, o hóspede retribui de maneira não material, mas vivencial, compartilhando sua experiência de vida (social, cultural, intelectual). Assim, viaja quem hospeda e aquele que é hospedado. As trocas são recíprocas e espontâneas.
c) Couch Surfing, embora seja um site que tem a hospedagem como objetivo predominante, esse objetivo não é o único. Outras ações podem ser mobilizadas pelos usuários, como o Coffee and Drink. Essa opção permite que os membros combinem encontros com a finalidade de conversarem e conhecerem novas pessoas. As pessoas as quais me refiro, compreendem os membros pertencentes a uma determinada localidade ou pessoas que estão passando por ali.
Penso que CouchSurfing representa uma diluição extrema de fronteiras, bem como a materialização daquilo que poderíamos chamar de relações globais. A experiência CouchSurfing permite abrir as portas para o mundo e isso não se dá apenas simbolicamente, mas concretamente. Além da superação de fronteiras, CouchSurfing impõe uma condição que tem ficado esquecida num mundo em que o medo é imperativo: a confiança. Talvez represente uma resposta às constantes investidas de uma mentalidade corrente que levanta muros entre as pessoas porque, de acordo com essa mentalidade, o outro é visto/entendido como uma ameaça às seguranças das quais acredito estar cercado. Couch Surfing restabelece a confiança perdida e estabelece uma maneira de relacionar-se com o outro em que a confiança e a partilha são condições indispensáveis a bem sucedida experiência do chão humano compartilhado.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Fliporto em leituras e sentidos


A Fliporto exigiu fôlego e disposição em seu primeiro dia. A tenda de conferências e mesas-redondas recebeu grandes nomes, como os biógrafos de Clarice Lispector: Benjamim Moser e Nádia Gotlib. Além deles, passaram pela tenda os escritores Nelson Vieira, Arnaldo Niskier, Luzilá Gonçalves, Camille Paglia, Márcia Tiburi, Gunter Axt, Ricardo Piglia, Raimundo Carrero, entre outros.
A mesa Clarice Lispector: como se constrói uma biografia foi mediada pela jornalista Mona Dorf e teve como debatedores os escritores Nádia Gotlib e Benjamin Moser. Mona Dorf foi repórter e âncora de telejornalismo. Atuou nos jornais da Globo, Cultura e Manchete e criou o programa Letras e Leitura que pode ser acessado na web e ouvido na rádio Eldorado. O escritor norte-americano Benjamin Moser nasceu em 1976 e fala seis línguas. Nascido em Houston, Texas, Moser matriculou-se num curso de chinês mas, ao perceber que não levava jeito para os ideogramas, decidiu estudar português. No terceiro semestre do curso, deparou-se com A Hora da Estrela de Clarice Lispetor. A leitura desse livro desencadeou um processo de encantamento pela obra de Clarice que não parou de crescer. A professora Nádia Gotlib é livre-docente da Universidade de São Paulo e pesquisadora da obra e vida de Clarice Lispector. Escreveu a biografia Clarice, uma vida que se conta e Clarice fotobiografia.
Os debatedores, mediados por Mona, responderam e explicitaram pontos de congruências e dissonâncias entre suas biografias. Nádia Gotlib foi cativante em suas colocações sobre Clarice e sua obra. A intimidade com que a biógrafa trata a autora dá a impressão de que a conhece por dentro e em todos os seus meandros e sutilezas. O mistério Clarice, embora seja difícil desevendá-lo e traduzi-lo em palavras,tem em Nádia um princípio de interpretação, pois ela ao menos permite acessá-lo de uma maneira singela e iluminadora. Traduzir em palavras a palavra dita por Clarice é uma tarefa que só quem a bebeu por inteiro e em gotas tão esmiuçadas pode fazê-lo. Nádia fez a experiência da palavra clariceana e, em suas biografias, encontramos as chaves que abrem as portas que permitem o acesso a esse mistério que nunca se dá por inteiro.
Leituras da obra e leituras da vida de Clarice: cada biógrafo as constroem de perspectivas diferentes. Ora dando ênfase a um determinado aspecto, ora a outro. Se Nádia Gotlib privilegia o aspecto literário, o uso da palavra, a linguagem em contínua fruição e objeto de reflexão dentro da obra clariceana, Benjamin relaciona a condição miserável da família Lispector, os problemas econômicos e sociais enfrentados por eles quando decidiram sair da Ucrânia e vir para o Brasil e a obra de Clarice Lispector.
Tenho saboreado cada página do livro de Benjamin Moser. Nelas, tenho mergulhado num oceano sem fundo, num mistério insondável e numa vida que não conheceu limites; nem mesmo aqueles impostos pela palavra. Clarice talvez tenha realizado aquela passagem descrita de maneira emocionada no poema de Tagore quando diz estar livre da escravidão das palavras. Se, por um lado, a palavra não a escraviza, por outro, espalha-se e produz efeitos irreversíveis naqueles que ouvem a sua voz. Essa experiência pode ser mais uma vez descrita nas palavras de Rabindranath Tagore:

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.


Clarice se fez palavra para que pudéssemos ser turbilhão, desequilíbrio, conflito, e, enfim, encontrar a paz.
Abraços clariceanos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Fliporto 2010: literatura, cinema, gastronomia e música


Participei no último fim de semana da Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas - FLIPORTO. O evento acontecia no balneário de Porto de Galinhas, mas foi transferido para Olinda. A mudança não poderia ser mais oportuna, uma vez que Olinda abriga um cenário propício às manifestações culturais. O Centro Histórico de Olinda revela minúcias de um retrato multifacetado da cultura local. Artesãos, músicos, atores, pintores, enfim, artistas dos mais variados segmentos compõem esse cenário que encanta os passantes que transitam pelas ruas históricas da cidade.
A mesa de abertura da Fliporto teve como mediador o jornalista Geneton Moraes Neto e Eva Schloss e Moacyr Scliar como debatedores.
A escritora judia Eva Schloss, sobrevivente de um campo de concentração nazista, falou da experiência dilacerante vivenciada nas fugas, no trajeto em trens superlotados e em condições subumanas até o campo e os dias em Auschwitz. Schloss lançou durante a Fliporto seu mais recente livro A História de Eva e emocionou o público ao responder perguntas feitas pelo jornalista Geneton Moraes e Moacyr Scliar.
A obra e o testumunho de Eva Schloss ganham atualidade incontestável, uma vez que atos bárbaros motivados por intolerância a homossexuais, negros, nordestinos e outras minorias ainda fazem tantas vítimas e promovem pequenos holocaustos cotidianos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Recomeçar é preciso...


Leitores e leituras suspensos, compartilhando intervalos e buscando novos espaços de significação. Leituras omitidas, deslocadas, silenciadas; espaços deixados em branco, sentidos retidos. Resultado de um processo de reclusão e atenção voltada para os livros e a leitura impressa. Motivo? Razão? Justificativa? Eis: uma seleção para o programa de doutorado da UFPE. Obtive êxito? Não, não obtive. Fui reprovado na (entre)vista. Quer saber se estou triste, acabrunhado? Não, não estou. E não me pergunte por quê. Aprendi a lidar com as adversidades ou me transformei num bloco de mármore? Nada disso. Apenas acreditei cegamente e sem vacilar nestas palavras:

É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói

Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.

Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então.


- Tudo passa, tudo passará...

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.

(Renato Russo - Legião Urbana)

Voltei com muitas leituras a produzir... e sentir.
Força sempre!

domingo, 5 de setembro de 2010

MIMO(SA)


Desde o dia 01 de setembro que a Mostra Internacional de Música de Olinda (MIMO) está acontecendo a pleno vapor na cidade que foi reconhecida como patrimônio cultural: Olinda.
Hoje fui prestigiar essa festa da música que percorre ritmos, estilos e gêneros distintos, ou seja, vai do popular ao clássico.
Na programação constava a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Leonardo Altino e Ana Lúcia Altino, Egberto Gismonti e Orquestra de Sopros da Pro Arte, Heloísa Fernandes Trio, Fernando Portari, Rosana Lamosa e Jean Louis Steuerman, Chorisso e o grupo francês Selmer (a grande atração da noite).
Devido a um choque nos horários das apresentações, pude assistir a três apresentações apenas: Heloísa Fernandes Trio, Fernando Portari, Rosana Lamosa e Jean Louis Steuerman e Selmer.
A fim de não perder as apresentações que pincei na programação, cheguei cedo, garanti os ingressos e aproveitei o intervalo entre a entrega dos ingressos e a primeira apresentação para andar pelas ruas centenárias de Olinda.
Embora tenha chegado atrasado para a apresentação da pianista paulista Heloísa Fernandes, foi possível conhecer um pouco do seu trabalho e do som que produz. As músicas que apresentou enquanto estive na platéia fazem parte de um CD chamado "Candeias" que foi totalmente inspirado em pesquisa de Mário de Andrade sobre danças populares. O estilo da pianista é rico em interpretações instrumentais e jazzísticas da música popular brasileira.


A segunda atração contou com o brilhantismo da soprano Rosana Lamosa, do tenor Fernando Portari e do pianista Jean Louis Steuerman. Cantando peças de Schumann, o trio encantou a platéia que, ao final da apresentação, aplaudiu demoradamente para que voltassem e novamente nos permitissem o prazer de ouvi-los. Fernando Portari é um dos maiores nomes da música lírica no Brasil e Rosana Lamosa é uma das mais importantes sopranos brasileiras. Ela foi contemplada com prêmios como APCA e Carlos Gomes e sua discografia inclui gravações com a Osesp e a Nashville Symphony Orchestra. O pianista Jean Louis atuou como solista nas principais orquestras mundiais, como a Orquestra Sinfônica de Londres e apresentações na América do Norte e Japão.


Por fim, subiu ao altar da igreja da Sé o grupo Selmer609 que arrancou aplausos até mesmo durante as execuções das músicas. O quinteto formado por jovens franceses apresentou releituras de Milles Davis, John Coltrane, Richard Giuliano e Django Reinhardt. O grupo formado por Ghali Hadefi, David Gastine, Adrien Moignard, Sebastien Giniaux, Richard Manetti e Jérémie Arranger montou um coletivo de jazz manouche, também conhecido como jazz cigano.


A MIMO acontecerá até o dia 07 de setembro nas igrejas do sítio histórico de Olinda. Vale a pena conferir.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Compartilhando sons

Boa noite, pessoal!
Hoje, após as aulas da tarde, fui ao shopping pagar contas e passei na Saraiva e Americanas a fim de encontrar cds do Pink Floyd. Acabei esbarrando em cds com preços bastante acessíveis e resolvi fazer a feira. Comecei pelo cd do Pink Floyd (The Dark Side of the Moon. Nessa aquisição, tive mais de 50% de desconto. Isso me animou a procurar outros títulos na loja seguinte. rs Sobre o cd The Dark Side of the Moon (O lado sombrio da lua), dizem ser uma metáfora para ilustrar os conceitos de lado negativo da mente e da vida. Ao contrário do que se possa imaginar, o cd é só positividade. Muito bom recordar o som do Pink Floyd.

Chegando na loja seguinte, dei de cara com vários títulos da banda Legião Urbana. Não resisti à oferta e enchi as mãos. Passada a empolgação, lembrei da minha cota mensal de gastos com produtos culturais e comecei a devolver alguns cds. Além da cota, pesou o salário minguado de professor do estado e fiquei convencido de que não poderia levar mais que dois ou três cds. O preço era tentador, mas controlei a veia consumista e selecionei três com muito pesar (queria todos): Dois (1986); O Descobrimento do Brasil (1993) e A Tempestade (1986).







Não satisfeito com a pequena despesa em curso, incluí La Vie en Rose da saudosa Edith Piaf e o dvd Público de Adriana Calcanhoto. Aquele, além da riqueza musical, me ajudará nas aulas de francês que iniciarei na próxima semana e este traz a contida e refinada performance de Adriana Calcanho em show na cidade de São Paulo. Em Uns Versos, Adriana pronuncia o "R" com uma tal entonação que parece rasgar os poemas que acabou de escrever. É brilhante. Texto, música e teatro se encontram num show que revela muito da tímida audácia da cantora. Quando cheguei em casa, espalhei os cds, liguei o som e esqueci as parcelas penduradas. Estava feliz entre sons variados. Só isso importava.
Beijos!



domingo, 15 de agosto de 2010

Um passeio, um artista e sua obra

Olá, pessoal!
Estive ausente por um tempo porque entrei em recesso escolar na primeira metade do mês de julho. Aproveitei esse período para descansar, rever a família e viajar. Quando voltei, fui convidado a ministrar um curso numa universidade do interior de Pernambuco e fiz uma seleção para tutor de ensino a distância da Universidade Aberta do Brasil. Além disso, o projeto de doutorado que procuro esboçar e os temas a serem estudados para a seleção doutoral que acontece no fim do ano têm tomado um tempo enorme. Não deixei o espaço abandonado e, sempre que possível, tenho vasculhado e visitado os blogs que leio assiduamente e explorado outros que sigo, mas não garimpei.
Sobre a viagem a São Paulo, feita durante o recesso escolar, tenho muito a dizer. Não foram poucas as impressões que a cidade deixou e as fotos e lembranças trazidas de muitos lugares provam isso. Passear por São Paulo é caminhar por entre um universo envolto em arte, artistas consagrados e do cotidiano e cultura de modo geral. Fiquei impressionado - e registrei isso em fotos que guardo com disfarçado ciúme - diante da profusão de objetos artísticos que se distribuem pelas estações, ruas e edifícios.
Recordo, incontáveis vezes, lugares que imprimiram-se à memória de maneira indelével. Vale citar: Pinacoteca do Estado de São Paulo, Estação da Luz, Museu da Língua Portuguesa, Museu do Ipiranga, Museu de Arte Sacra etc. Esses são verdadeiros nichos onde a arte se concentra. Mas temas sobre cinema, música, teatro, pintura, literatura, entre outros, são conteúdos de conversas de botequim.
Durante o passeio pela Pinacoteca, fiquei envolvido num misto de deslumbramento e dor diante de uma das obras do artista plástico José Ferraz de Almeida Júnior e, mesmo após o passeio, fui visitado pela lembrança daquela obra. Almeida Júnior nasceu em Itu, interior de São Paulo, e seus trabalhos mais importantes datam da segunda metado do século XIX. Caso queira saber um pouco mais sobre a vida do pintor, visite: http://pt.wikipedia.org/wiki

/Almeida_J%C3%BAnior
A obra de Almeida Júnior que me chamou particular atenção foi Saudade de 1899. Fiquei impressionado ao olhar o estado desta mulher, encostada à janela, solitária, rosto crispado de tristeza e imersa na leitura de uma carta que a castiga. É quase uma fotografia. Esse efeito é dado pelo tom realista da obra.

Almeida Júnior morreu aos 49 anos. Segundo seus biógrafos, foi assassinado por seu primo.
Desde essa visita, tenho procurado conhecer a obra de Almeida Júnior e saber mais sobre sua vida. Ainda olho para a mulher recostada à janela e novas leituras se revelam. Aos queridos leitores, um pouco mais do artista:



terça-feira, 6 de julho de 2010

A criação poética


A criação poética é descrita nestes versos fabricados por Adriana Calcanhoto e Waly Salomão. Utilizando-se de uma metalinguagem que se constrói por recursos poéticos, os poetas delineiam o processo de criação que não dispensa a tensão e a dolorosa via do trabalho árduo que é lutar com palavras.

A FÁBRICA DO POEMA

Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo;
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo;
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?


Você há de convir, caro leitor, que é de uma beleza inigualável. É isso.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Pílulas de Cazuza



O poeta se foi, mas a obra o eternizou na terra dos homens.
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Vida louca vida
Vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida
Vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa

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Poetas e loucos aos poucos
Cantores do porvir
E mágicos das frases
Endiabradas sem mel
Trago boas novas
Bobagens num papel
Balões incendiados
Coisas que caem do céu
Sem mais nem porquê

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Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

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Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos
Foram traçados na maternidade

Paixão cruel desenfreada
Te trago mil rosas roubadas
Pra desculpar minhas mentiras
Minhas mancadas

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Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma prá viver
Ideologia!
Eu quero uma prá viver...

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Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

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Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice
Desta eterna falta do que falar

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Porque eu só canto só
E o meu canto é a minha solidão
É a minha salvação

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Palavras que fincaram raízes no solo pedregoso da vida humana e conseguiram florescer e perfumar os dias. É isso.

domingo, 4 de julho de 2010

Um pouco de Hermann Hesse


"A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram sê-lo, obscuramente alguns, outros mais claramente, cada qual como pode.
Todos levam consigo, até o fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que não chegam jamais a ser homens, e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são homens da cintura para cima e peixes da cintura para baixo. Mas, cada um deles é um impulso em direção ao ser.
Todos temos origens comuns: as mães; todos proviemos do mesmo abismo, mas cada um - resultado de uma tentativa ou de um impulso inicial - tende a seu próprio fim.
Assim é que podemos entender-nos um aos outros, mas somente a si mesmo pode cada um interpretar-se."

O homem em busca de si mesmo. Essa é a linha que perpassa toda a obra do escritor alemão Hermann Hesse e garante uma certa unicidade dos temas trazidos para a reflexão do leitor. Entre temas considerados secundários e que passam pela religiosidade, valores, moral, misticismo, ânsia de viver, desejo, entre outros, sobressai aquele que apresenta o homem como garimpeiro de si mesmo. E a comparação não é grosseira. Tal como o garimpeiro que extrai da terra minerais preciosos após longas horas de busca incessante e incansável, o homem desenhado nas páginas dos livros de Hesse volta-se para a mina pessoal que o concerne e busca meticulosamente o ser. Ser que não é constituído tão-somente de pedras preciosas, mas revela-se um misto de cascabulho e grãos preciosos. Recorrendo à parábola bíblica, podemos dizer que o ser projetado por Hesse nas páginas que lhe deram o prêmio Nobel de Literatura é feito de joio e trigo; revela-se mercenário e pastor e traz a um tempo a ovelha e o lobo (da estepe?) entranhados nos fios que tecem sua constituição psíquica e espiritual. Eu diria até que os temas elencados acima formam uma espécie de cenário que serve de pano de fundo para aquilo que nas personagens de Hesse é essencial: destruir a casca de ovo que as envolve, ou seja, abandonar um mundo tido como cômodo, já-conhecido, dado, para re-descobrir a si mesmo vasculhando o interior a partir do confronto diário com a realidade e com o outro. Essa rede lançada sobre o interior e o exterior cria as condições imprescindíveis para que encontrem o objeto permanente do seu desejo: o ser.
A obra de Hermann Hesse é autobiográfica. Filho de pais protestantes que queriam-no pastor, Hesse recusa a religião, abandona cedo a casa paterna e segue para a Suiça, onde naturaliza-se. A partir de 1911, entra em contato com a espiritualidade oriental quando de uma viagem à Índia e conhece a psicanálise através de um discípulo de Jung. Essas influências balizarão, daí em diante, a obra do autor. Oportunizo breve resumo colhido na internet das obras que li e nunca esqueci:

DEMIAN

O livro conta a história de um jovem - Emil Sinclair, protagonista e narrador - criado por pais muito piedosos que, de repente, se vê em um mundo bem diferente daquele pregado por seus pais e avós. Atormentado pela falta de respostas às perguntas que faz sobre sua existência, passa a procurar na introspecção suas respostas. Dividido entre o mundo ideal e o real, com suas interpretações (mundo claro e paternal, associado às idéias de seus pais e à residência destes, e o mundo sombrio e frio, externo à residência dos pais e com valores estranhos a estes), Sinclair experimenta ambos, através do confronto com suas próprias concepções, para tentar encontrar sua verdadeira personalidade. Percorrendo este caminho perigoso, influenciado por Max Demian, um colega de classe precoce e envolvente, ele prova do crime, da amizade e das incertezas - surpresas que engendram as descobertas de sua vida adolescente. Sinclair, então, se rebela contra as convenções sociais e descobre não apenas o doce sabor da independência mas também seu poder de praticar o bem ou o mal. A relação de Sinclair e Demian atravessa toda a narrativa a partir do momento que os personagens se conhecem. Demian revela a Sinclair que existem filhos de Caim, pessoas que possuem a capacidade de exercer o bem e o mal; também apresenta a entidade Abraxas, divindade de características humanas - também capaz de exercer o bem e o mal. A obra tem muitas referencias bíblicas, como o Sinal de Caim e o Gólgota, tornando dificil a leitura a quem não sabe muito sobre a religião cristã, mas também trata de misticismo e autoconhecimento, da busca da essência do Eu. A obra narra principalmente os conflitos internos que um indivíduo passa desde a infância, através da adolescência, até sua idade adulta. É possível afirmar que Demian trata-se de um romance iniciático, descrevendo os contatos de um indivíduo com aspectos existenciais e de sua personalidade.
Fonte: Wikipédia

O LOBO DA ESTEPE
O Lobo da Estepe é a história de um intelectual cinqüentão vivendo em plena desvairada década de 1920 que, após abandonar a regrada vida burguesa, se entrega à dissipação da vida boêmia dos bares, dos salões de dança onde aprende o jazz, e das elegantes cortesãs.

O erudito Harry Haller vive o tempo toda a tensão entre a vida sublime de seus grandes poetas e músicos - Goethe e Mozart, mormente, com os quais inclusive tem encontros imaginários ? a vida da alta cultura, do espírito, dos Imortais, e a vida das profundezas da superficialidade, do sensual, da carne, a que é conduzido por Hermínia, mulher da noite que conhece em um bar e alter ego de um amigo de infância que muito o impressionou. Vive, portanto, atraído por dois pólos magnéticos opostos, um representado pela vida noturna, pelo álcool, pelos cigarros, pelo jazz, pelas meretrizes e pelo despertar ao meio dia; o outro pela vida ascética, diurna, tranqüila, de jardins bem cuidados da família burguesa vizinha que admira logo no primeiro capítulo como alguém que sente nostalgia por um paraíso perdido.

Fonte: http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_2425.html

GERTRUD
Esta obra foi escrita já numa época em que o autor havia alcançado a sua maturidade plena. É um texto de uma beleza extraordinária, tanto do ponto de vista formal como do seu conteúdo, tematizando a irredutibilidade da experiência estética e da arte (neste caso a música) à vida humana.

O autor retoma a concepção do artista que transfigura a experiência, sublimando a sua vida através da arte, procurando sobreviver à realidade e às contingências do quotidiano. É pelo impulso criador que se opera essa sublimação, despojando-se o artista da sua própria vida para poder sobreviver à infelicidade e escapar ao seu mal-estar.

A personagem central do romance é Kuhn, um jovem que, após sofrer um violento acidente, perde a sua pujança física e fica definitivamente marcado pela sua deformidade. A tragédia pessoal não lhe traz apenas azedume e amargura perante o seu futuro, mas desenvolve nele a capacidade de a transfigurar, acrescida de um amor frustrado, em arte sublime, impregnada de nostalgia e tristeza melancólicas.

Autora: Maria João Cantinho

NARCISO E GOLDMUND
Dois homens medievais, um em tranquilo contentamento com a sua religião e vida monástica, o outro numa fervente busca de uma salvação mais profana, e que parte para se encontrar, passando por aventuras fantásticas...
o conflito entre carne e espírito, o homem emocional e o contemplativo, constituem os temas preferidos de Hesse, temas que transcendem a passagem do tempo. "Parecia uma despedida e era, na verdade, o antegosto de um adeus. Ali, diante do seu amigo, Goldmund, ao contemplar aquele rosto decidido e aquele olhar dirigido para um alvo, sentiu iniludivelmente que os dois já não eram irmãos, companheiros e iguais, que os seus caminhos se tinham bifurcado. Aquele que ali estava à sua frente não era um sonhador nem esperava por apelos do destino: era um monge, comprometera-se, pertencia a uma regra firme e a um dever, era um servidor da Ordem, da Igreja, do Espírito. Goldmundo, porém, como hoje claramente reconhecera, já ali não pertencia, não tinha pátria e um mundo desconhecido esperava-o. O mesmo acontecera outrora a sua mãe. Deixara casa e lar, marido e filho, comunidade e ordem, dever e honra e lançara-se à aventura onde há muito, decerto, tinha soçobrado. Não tivera fito algum, como ele também o não tinha. Ter alvos era bom para os o_tros, não para ele. Oh, como Narciso previra isto de longa data, como tivera razão!"

http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_45177.html

FELICIDADE
Felicidade é uma obra magistral. O que o leitor encontrará nesse livro está longe de um romance com lugar e tempo demarcados, personagens que se movimentam em ambientes requintados ou grotescos e um narrador que se distancia dos fatos para descrevê-los ou conta à medida que os vivencia. Nesse livro, encontramos o próprio Hermann Hesse refletindo sobre sua obra, voltado para os impactos do seu pensamento, compartilhando sua solidão, recordando acontecimentos, cartas, amigos, lugares e fatos do cotidiano. É um livro sobre a felicidade, mas que não traz capítulos dedicados exclusivamente ao assunto. Por que isso? Certamente por que Hesse quis falar de felicidade ao falar da sua própria obra e dos momentos que o conduziram, qual menino guiado pela mãe (Eva?), ao encontro desse estado de espírito que Hesse pronunciava/escrevia com reverência, como atesta o texto da quarta capa do referido livro:

Entre as palavras, existem para cada falante as prediletas e as estranhas, preferidas e evitadas, cotidianas - que se usam mil vezes sem temer o desgaste - e outras - solenes - que, por mais que as amemos, só pronunciamos ou escrevemos com cuidado e reflexão, como objetos raros: fazendo as escolhas que correspondem a essa sua solenidade.
Entre elas está para mim a palavras felicidade
.

Ele conseguiu porque se permitiu vivenciar aquilo que em si brotava espontaneamente, de modo que o ser não lhe era mais estranho nem difícil vivenciá-lo. Permaneceu lobo a vida toda e descansou na estepe que o encontro consigo mesmo permitiu aconchegar.

domingo, 27 de junho de 2010

Pelas ruas do Recife

Anúncio no jornal: "programação comemorativa pelos 160 anos do teatro Santa Isabel tem apresentação nos dias 20 e 21 de maio de 2010 da peça 'Sopros de vida', baseada no livro do britânico David Hare. A peça traz no elenco Rosamaria Murtinho e Nathalia Thimberg." Não pensei duas vezes. Logo saí da escola, passei em casa e em seguida desci no Recife Antigo com destino determinado: teatro Santa Isabel.
Percorrer as ruas do Recife Antigo é como se descobríssemos a máquina do tempo. Suas construções, pontes, igrejas, artesanato, ruas etc sempre nos fazem remontar a um passado que, na maioria das vezes, nem sequer conhecemos. Contudo, a história contada e recontada em cada esquina, rua e labirintos que abriga ajuda-nos a reconstruir imaginariamente os contornos e entornos de vidas vividas e momentos deflagados.
Durante o percurso, chamou-me particular atenção a inscrição no frontispício de um prédio com ares de imponência e acolhimento: Gabinete Português de Leitura . Resolvi entrar. Embora as portas grandiosas estivessem abertas, entrei receoso e meio que querendo pedir licença. De imediato fiquei impressionado com a grandiosidade do espaço, os quadros que se distribuiam pelas paredes conservadas e limpas, livros que pareciam recepcionar os visitantes. Troquei algumas palavras com o recepcionista e ele disse que o gabinete era uma instituição cultural, literária e de estudos lusófonos. É mantido por uma colônia de portugueses radicada em Recife que procura manter acesa elementos da cultura portuguesa, como livros, brasões, condecorações, móveis, fotos etc. Continuei a visita guiado por uma senhora bastante simpática que me abriu as portas de um espaço que funciona, a um tempo, como biblioteca e sala de reunião. Esse ambiente guardava um lustre de saltar aos olhos e uma biblioteca que muito me fez lembrar a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Após assinar o livro de visitas, desci as largas escadas e continuei meu trajeto.




Até poderia ter passado despercebida. Mas não foi possível. Aquela igrejinha envelhecida pelo tempo e com sinais de deterioração convidou-me a entrar. Era a Igreja de Santo Antônio. As dimensões físicas da igreja são acanhadas, mas o espetáculo que apresenta em imagens sacras, pinturas em ouro, arquitetura e azulejos que contam fatos bíblicos prendem o olhar e liberam a emoção. A Wikipédia nos dá a seguinte descrição:
A presente Igreja de Santo Antônio é a sucessora do primitivo oratório erguido junto com o convento no século XVII. No início do século XVIII o oratório foi substituído por uma igreja maior, novamente remodelada entre 1753 e 1770, o que lhe emprestou o seu atual estilo rococó.
O interior, de nave única, preserva uma série de painéis de azulejos representando cenas da vida de Santo Antônio ao longo das paredes laterais e junto ao piso, e mostra algumas tribunas, um púlpito à direita e um teto em abóbada de berço (com pinturas de Sebastião Canuto da Silva Tavares) de onde pendem grandes candelabros.

Bancadas e um corredor central conduzem até o fundo da igreja, cuja parede é completamente recoberta de talha rococó de refinado desenho. Nesta parede duas capelas secundárias se apegam ao arco do cruzeiro, dedicadas à Virgem Maria e São Francisco, respectivamente à esquerda e à direita, ladeando a capela-mor, em um nicho recuado. Seu retábulo ostenta um grande crucifixo rodeado de resplendor, tendo aos lados dois pares de colunas de capitel coríntio e fuste salomônico em uma e canelado em outra, além de estatuária menor, e um grande frontão ricamente lavrado. Acima, o teto da capela-mor é também em abóbada de berço revestida de azulejaria policroma em motivos florais.

Anexa à igreja está a Capela Dourada, separada da nave por um grande arco gradeado, à esquerda. Na sacristia se guarda grande quantidade de objetos preciosos de culto e outras obras de arte, como mobiliário setecentista com ornamentação de prata, obra do mestre entalhador José Gomes de Figueiredo, além de lavatórios e pinturas a óleo. Atrás da sacristia existe um pequeno cemitério, onde se eleva um cruzeiro de pedra instalado em 1840. No século XIX, a Igreja de Santo Antônio abrigou o "cemitério dos infamantes" ou "da vergonha", onde eram sepultados indigentes, escravos e mártires de revoluções, como os da Revolução Pernambucana, de 1817.





Não preciso dizer mais nada para saberem que saí encantado após ver tanta beleza esculpida em imagens, traçadas em azulejos e pinceladas sobre as paredes em pinturas de ouro. Prossegui minha jornada rumo ao Santa Isabel e, finalmente, cheguei a um dos teatros mais antigos deste país. Localizado na Praça da República, o teatro possui uma fachada traçada pelo estilo neoclássico. A fachada não encanta tanto quanto o interior do teatro e, de certa forma, eu diria que até há uma lacuna significativa entre interior/exterior. O interior deixa qualquer um estupefato e perdido entre os lustres, pinturas e arquitetura a ponto de fazer qualquer espectador perder cenas do espetáculo para admirar seu teto, camarotes e decoração. Ainda com a ajuda da nossa Wikipédia, um pouco da história do teatro Santa Isabel:
Construção
Durante todo o período de construção era chamado de Teatro de Pernambuco. Só pouco antes da sua inauguração, em 18 de maio de 1850 o seu nome foi mudado para Teatro de Santa Isabel, em homenagem à Princesa Isabel, filha do Imperador Pedro II. A sugestão para a homenagem partiu do então governador da Província de Pernambuco, Honório Hermeto Carneiro Leão, o Marquês do Paraná. A peça apresentada no dia da inauguração foi O Pajem de Aljubarrota, do escritor português Mendes Leal.

O Teatro de Santa Isabel era a grande casa de espetáculos da cidade, lugar de divertimento, convivência social e também de exercício da cidadania. Segundo Joaquim Nabuco, foi no Santa Isabel que se ganhou a causa da Abolição, referindo-se a seus discursos e eventos lá realizados.

No século XIX, as companhias que se apresentavam no Teatro de Santa Isabel eram, na sua maioria, administradas por empresários, que firmavam contratos por longas temporadas. O teatro também recebia companhias líricas estrangeiras, entre as quais, a Companhia Lyrica Italiana G. Marinangelli, que apresentou a ópera La Traviata, em 1858.

Em 1859, o teatro recebeu seu mais ilustre convidado, o Imperador Pedro II, que, visitando as províncias do Norte, passou seu aniversário no Recife e foi ali homenageado com um espetáculo de gala.

Reconstrução
No dia 19 de setembro de 1869, o teatro foi quase que totalmente destruído por um incêndio, que deixou de pé apenas as paredes laterais, o alpendre e o pórtico, sendo construído, em madeira, como uma substituição temporária, no Campo das Princesas, o Pavilhão Santa Isabel.

A orientação vinha de Louis Léger Vauthier, que, mesmo estando em Paris, teve as suas recomendações respeitadas pelo engenheiro José Tibúrcio Pereira de Magalhães, responsável pelas obras de reconstrução do teatro. O Santa Isabel foi reinaugurado no dia 16 de dezembro de 1876.

Reformas
Em 1916, no governo de Manuel Borba, houve mais uma intervenção com a instalação de luz elétrica, reforma total da canalização de gás, substituição do pano de boca por um importado da Inglaterra e reparos gerais de conservação do prédio.

Em 1936, também houve novas reformas gerais, assim como as que foram feitas por ocasião do seu centenário, em 1950, quando era governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho, prefeito do Recife, Moraes Rego, e diretor do teatro, Valdemar de Oliveira. O Santa Isabel pertenceu ora ao estado ora ao município, sendo que, a partir de 1949, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, como propriedade da Prefeitura do Recife.

Houve ainda obras de restauração nos anos de 1970 e 1977 e entre 1983 e 1985 inúmeros benefícios foram realizados no Santa Isabel.

Em 2000 foi iniciada uma outra reforma que exigiu intervenções para assegurar a preservação do prédio, retomar algumas feições originais, dar mais segurança aos seus freqüentadores e mais espaços e recursos para a realização dos espetáculos. Dessa última reforma, a Fundação Joaquim Nabuco participou, através do trabalho de técnicos do seu Laboratório de Pesquisa, Conservação e Restauração de Documentos e Obras de Arte - Laborarte.




Comprado o ingresso, lembrei que estava em exposição, na Torre Malakoff, fotografias do fotógrafo francês Marc Riboud e não perdi tempo. Enquanto atravessava a ponte, o céu nublou e um arco-íris de beleza singular abraçou o céu sob o qual deixava meus passos. Naquele instante, visitou-me a impressão de que recebera uma benção naquela tarde. Vi a exposição e voltei para casa com a certeza de que entre tanta desigualdade, exclusão, violência e contradições, a cidade do Recife reserva rosas para aqueles que "enxergam" além do caos e ainda nos permite fazer a experiência da transcendência. Esse é o relato de uma tarde pelas ruas do Recife.

sábado, 19 de junho de 2010


Há livros, frases, textos que compõem o acervo da nossa história de leituras e que se atualizam sempre que revisitados. São palavras com as quais temos uma relação especial, seja por que mudaram o rumo das nossas vidas, seja por que participaram de momentos singulares e dos quais conservamos uma memória afetiva. Essas palavras nos construíram e nos impulsionaram a construir a história que partilhamos com os outros, nossos irmãos. Entre tantas palavras que atravessaram meus dias de jovem leitor, encontram-se estas do escritor Morris West:

"Custa tanto ser um homem completo, que existem muito poucos que tenham a sabedoria e a coragem para pagar o preço... Para o conseguir, é preciso abandonar, completamente, a procura de segurança e arriscar-se à vida com ambos os braços. Para o conseguir, é preciso abraçar o mundo como um amante e não esperar um regresso fácil do amor. Para o conseguir, é preciso aceitar a dor como condição da existência. Para o conseguir, tem de se cortejar a dúvida e a escuridão, como preço da sabedoria. Para o conseguir, é preciso ter-se uma vontade férrea ante o conflito, mas sempre apta a aceitar totalmente quaisquer conseqüências da vida ou da morte." (In: As Sandálias do Pescador)

Palavras, palavras e mais palavras... Desejo a você, leitor, um domingo acompanhado por muitas delas.

domingo, 6 de junho de 2010

Com que corpo eu vou?

Este texto foi publicado na Folha de São Paulo de 30 de jun. de 2002. Achei oportuno publicar porque retoma um ponto de vista que assumi num post anterior sobre o controle e a vigilância a que submetemos o corpo. Vale uma leitura!

Que corpo você está usando ultimamente? Que corpo está representando você no mercado das trocas imaginárias, que imagem você tem oferecido ao olhar alheio para garantir seu lugar no palco das visibilidades em que se transformou o espaço público no Brasil? [...] Fique atento, pois o corpo que você usa e ostenta vai dizer quem você é. Pode determinar oportunidades de trabalho. Pode signifiar a chance de uma rápida ascensão social.
Acima de tudo, o corpo que você veste, preparado cuidadosamente à custa de muita ginásticae e dieta, aperfeiçoado por meio de modernas intervenções cirúrgicas e bioquímicas, o corpo que resume praticamente tudo o que restou do seu ser é a primeira condição para que você seja feliz.
Não porque ele seja, o corpo, a sede pulsante da vida biológica. Não porque possua uma vasta superfície sensível ao prazer do toque - a pele, esse invólucro tenso que protege o trabalho silencioso dos órgãos. Não pela alegria com que experimentamos os apetites, os impulsos, as excitações, a intensa e contínua troca que o corpo efetua com o mundo. O corpo-imagem que você apresenta no espelho da sociedade vai determinar sua felicidade não por despertar o desejo ou o amor de alguém, mas por constituir o objeto privilegiado do seu amor-próprio: a tão propalada autoestima, a que se reduziram todas as questões subjetivas na cultura do narcisismo.
Nesses termos, o corpo é ao mesmo tempo o principal objeto de investimento do amor narcísico e a imagem oferecida aos outros - promovida, nas últimas décadas, ao mais fiel indicador da verdade do sujeito, da qual depende a aceitação e a inclusão social. O corpo é um escravo que devemos submeter à rigorosa disciplina da indústria da forma (enganosamente chamada de indústria da saúde) e um senhor ao qual sacrificamos nosso tempo, nossos prazeres, nossos investimentos e o que sobra das nossas suadas economias.

Maria Rita Kehl

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Violência e escola



A violência adentra o ambiente escolar e responde "presente." O que antes era um fato raro de ser presenciado entre dos muros da escola, hoje é uma rotina quase naturalizada. Todas as semanas, estampam-se nos jornais manchetes, notas, notícias sobre casos de agressões sofridas por professores e alunos. O resultado disso é um clima de insegurança que acomete a todos: professores, funcionários, alunos e pais.
Durante esta semana, conversei com alunos da 8ª série do Ensino Fundamental II sobre o assunto e foi proveitoso saber que os medos desencadeados por esse ambiente hostil (mas não só) são compartilhados com aqueles que, na maioria das vezes, são atores nesse cenário que, volta e meia, abriga cenas de xingamento,empurrões, brigas, ofensas de todo tipo, ameaças etc. Durante a partilha de opiniões que concorriam para ver quem expunha primeiro, muitos alunos foram unânimes em atribuir a responsabilidade aos pais (tantas vezes ausentes da vida dos filhos). Outros, por sua vez, atribuíram a responsabilidade às autoridades que ignoram essa realidade e não efetuam mudanças fundamentais, como recuperação das escolas sucateadas e garantia de segurança através da patrulha escolar.
Longe de uma visão determinista que professa que o ambiente faz o indivíduo, acredito que o contato, sempre que possível, com a arte, leituras que favoreçam a crítica da realidade escolar, discussões em sala sobre o tema, cinema e referências humanas contribuem para amenizar os casos de violência que se multiplicam e tomam proporções preocupantes.
A população escolar e pernambucana ficou perplexa com a manchete de um jornal que trazia o caso de uma aluna da escola pública estadual que foi cruelmente agredida com socos, pontapés e cortes no rosto feitos com estilete. O rosto da adolescente, vítima da barbárie, ficou deformado após os golpes de estilete desferidos por aluna da mesma escola. Além do fato atroz, choca-nos a maneira como a Secretaria de Educação tratou o acontecimento. Na imprensa escrita e falada, era perceptível a tentativa da Secretaria em suavizar o peso e a gravidade dos fatos, quando não "tapar o sol com a peneira." Em tempos de eleição, fatos como esse devem ser silenciados para que não compromentam a imagem de governantes que fecham os olhos para uma realidade cada vez mais insuportável e com a qual professores e funcionários são obrigados a conviver todos os dias.

Vale lembrar que a violência não se produz nas escolas. Ela adentra seus muros pelo portão da frente, mas não nasce em seus pátios. O ambiente escolar é o lugar privilegiado da produção de conhecimento, socialização e desenvolvimento humano. Essa consciência deve ser exaustivamente trabalhada com os alunos. Eles têm que aprender a ler o mundo para compreender que violência e escola não combinam e que se excluem drasticamente, uma vez que atitudes de cordialidade e respeito são os parâmetros que permeiam as relações na escola e servem de base para a construção de um mundo melhor.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A memória e as coisas


Passei minha infância, adolescência e parte da juventude em Garanhuns, interior de Pernambuco. Hoje moro em Recife e volto a Garanhuns periodicamente para visitar a família que se abriga à sombra das sete colinas que cercam a cidade. Com um clima agradabilíssimo, Garanhuns recebe milhares de turistas durante os meses de junho e julho. A razão é dada pelo clima, férias e o Festival de Inverno que ocorre todos os anos durante o mês de julho. Quem visita a cidade quer voltar e quem nela viveu, não esquece.
Quando volto a Garanhuns bate uma nostalgia dos meus tempos de menino e a impressão que essa saudade deixa é de uma vida vivida. Recordo amigos, lugares, fatos, pessoas... Cada passo dado pela cidade desencadeia uma série de recordações que me fazem acompanhar o desenrolar de uma história que se encontra profundamente enraizada naquelas terras.
Em casa não é diferente. Meus olhos passeiam pela casa dos meus pais e recaem sobre os objetos organizados em meu quarto (minha mãe insiste em conservá-los e mantê-los no mesmo lugar que deixei). Percorro o quarto, abro meu guarda-roupa, mexo em livros, peças de roupa, álbuns, cartas de amigos, abro caixas, vasculho filmes, releio agendas e tudo me lembra um tempo em que fui muito feliz. As coisas têm uma memória; conservam as vivências e dão testemunho da história. Rever minhas coisas, abrir gavetas e desentulhar objetos é reconstruir meu acervo histórico a fim de entender meu presente e projetar o futuro. Em tudo isso, leio o livro da minha história pessoal e compreendo que o sentido das coisas não estão nelas mesmas, mas adquirem seu sentido das relações que estabelecemos com elas a partir do arranjo existencial que cabe a cada um construir.
Ao retornar de Garanhuns, fica aquela certeza de que minha existência não foi vã nem minhas escolhas medíocres. É disso que me convencem os passos dados, as opções feitas e a memória conservada nas coisas. É isso.

sábado, 15 de maio de 2010

Notas sobre o corpo

Nos últimos dias, tenho refletido sobre os diferentes mecanismos de produção de sujeitos a partir das práticas de controle (intervenção) do(no) corpo. Essa reflexão acentuou-se após a leitura de dois textos escritos por Tais Luso (disponível em seu blog "Porto das Crônicas") e pela escritora Lya Luft (publicado na revista Veja).
Não é de hoje que o corpo tem servido a diferentes formas de sujeição e controle. Só para citar um exemplo: na Idade Média, o corpo era submetido a inúmeras práticas de penitência que iam da abstinência do alimento ao ato de inflingir ao corpo um sofrimento físico pela mortificação mediante uso do cilício, dentre outros instrumentos penitenciais. Assim, o penitente, submetido a uma série de orientações, doutrinas e leis morais produzidas ple Igreja, aplicava ao corpo a penitência capaz de restituir sua amizade com Deus mediante a expiação do seu pecado. Desse modo, nos diferentes momentos históricos, o corpo tem sido alvo de ideologias, instituições e mecanismos de poder que intervêm no sentido de manipulá-lo e torná-lo dócil - no dizer de Michel Foucault. Naquilo que temos chamado de pós-modernidade, o corpo é o palco onde desfilam os discursos que tecem suas formas e modelam seus contornos. Esses discursos advêm de diferentes lugares sociais, institucionais, e, aqui, gostaríamos de destacar a mídia como veiculadora de discursos ligados a diferentes instituições que "dizem" sobre o corpo e normatizam sobre o modo de vivenciá-lo. Assim, o corpo é uma construção para o qual convergem os "dizeres" produzidos na história e postos em circulação pela mídia. Por isso, pode-se dizer que o corpo é simbólico e rico de significados que podem ser lidos no livro da história e dos discursos que o constroem.
Constantemente somos bombardeados por propagandas e anúncios que prometem milagres como a volta aos anos dourados da nossa juventude e/ou adolescência; a conquista do corpo exuberante e saudável sem marcas, rugas, estrias, varizes; a possibilidade de escolhermos a cor dos olhos, da pele, dos cabelos e a saúde que nos garantirá vida longa. Sobre o corpo também planejam, desenham, edificam e modelam ,conforme o desejo do cliente. Com promessas de pôr fim à velhice e seus consequentes incômodos, as indústrias produzem remédios, cremes e uma gama de produtos capazes de disfarçar o desgaste dos anos, mas, nunca, de neutralizá-lo. O processo continua acontecendo por trás das camadas cada vez mais espessas de cremes de todo tipo e para todos os fins.



Assim, fazem-nos acreditar que torneando pernas, mudando a cor dos cabelos, definindo o peito e frequentando a academia "da hora" seremos iguais à modelo que todas as semanas sai em todas as capas de revista sob o título "corpo perfeito" ou ao ator que faz sucesso com a mulherada porque nenhum "deus grego" consegue superá-lo. Dizem ainda que, se assim o fizermos, seremos nós mesmos e, enfim, felizes como nunca fomos. Por trás desses discursos, toda uma indústria da massificação produz sujeitos que vivem e pensam da mesma maneira e, a um tempo, apaga as diferenças a fim de jogar para debaixo do tapete as desigualdades que não se escondem sob o acúmulo de plásticas e doses cada vez mais fartas de anabolizantes.



Atendendo à ordens como "Modele hoje seu corpo", "Faça a plástica que sempre sonhou" ou "Coma bem sem neura", acreditamos que temos o controle e a iniciativa das nossas ações quando não passamos de soldadinhos que encontram-se à mercê das instruções da mídia. Abrimos os jornais e lá estão os anúncios tentadores de produtos que alteram a forma corporal; acessamos a internet e as ofertas de serviços a favor do corpo perfeito são inúmeras; andamos pela rua e outdoors, banners e panfletos nos convencem que somos sempre um pouquinho menos bonitos que o cara que posa num anúncio de calças de grife. O resultado disso é um sem número de neuróticos, insatisfeitos, desesperados porque não conseguem atingir o padrão exigido e único capaz de tornar a todos felizes e plenos. Sob pretexto de que estamos cuidando do corpo porque nos amamos, aplicamos uma vigilância severa e o esculpimos sem descanso. Essa é a senha para fazermos parte daquela parcela da sociedade considerada normal, embora o preço seja a diluição da identidade em fôrmas que reproduzem um único modo de encarnar a vida e se relacionar com o corpo. Será que é assim que tem que ser? Ou somos porque nos dizem que temos que ser desta ou daquela maneira? Nesse emaranhado de discursos, dizeres, sentidos e ideologias até esquecemos quem somos e passamos a ser a mulher da capa de revista ou o cara do outdoor. Nada mais além disso. Lutamos tanto para sermos diferentes e não passamos de iguais que se perdem por não afirmar a diferença que nos faz singulares. Ser singular... Essa é toda beleza.

domingo, 25 de abril de 2010

Amizade: encontro e partilha



Certa vez, um amigo escreveu que uma verdadeira amizade ou nasce no espaço de um relâmpago ou nunca nascerá. À época, dada nossa afinidade, fiquei encantado com essas palavras e era como se, através daquela declaração, visse retratada nossa própria história de amizade. Depois dessa experiência, procurei amigos e, no encontro com cada um deles, via as palavras do meu velho amigo se atualizarem como as águas de uma fonte que parecem as mesmas, mas inauguram sua novidade a cada experiência que temos delas. Embora as palavras do meu amigo se façam presentes em cada pessoa que cativo, a experiência não é a mesma, porque cada amor de amizade é único, irrepetível e traz a permanente alegria de uma música que enche os ouvidos, um livro que dilata o coração ou um espetáculo do crepúsculo num fim de tarde. Isso não tem teoria que explique nem metodologia que diga como deve ser feito. Apenas acontece.

Perdemos a capacidade de nos admirarmos com aquilo que faz da vida o lugar da festa; a festa do encontro cotidiano, da partilha da vida e dos passos que ficam pelo caminho. Lemos O Pequeno Príncipe e esquecemos sua mensagem, embora seja urgente para os dias de hoje. Vale lembrar que, nesse livro, o ensinamento da raposa “só se vê bem com o coração” não é mero sentimentalismo, mas condição imprescindível para que sobrevivamos todos os dias nesta terra de granito. Ou recuperamos essa capacidade de nos encantarmos pela vida, pelo outro, por aquilo que faz nossos dias, ou nos perderemos todos juntos. Segundo Clarice Lispector, esta é a verdadeira experiência de salvação: amor de amizade.



Amigo é antes de tudo alguém que não julga. É alguém que abre para você uma porta que talvez, jamais, abriria para um outro.

(Saint-Exupéry)

Na minha janela uma luz ficará acesa. Os braços do amigo estarão esperando.

(João XXIII, papa)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um olhar sobre o feminino na literatura brasileira


Dando sequência ao post anterior que traz considerações sobre a obra A Hora da Estrela de Clarice Lispector, trago algumas palavras sobre Francisca Júlia, expoente da literatura de autoria feminina ainda desconhecida de muitos leitores.
Francisca Júlia da Silva nasceu em Xiririca(SP) no ano de 1871. Aos 14 anos, estréia como poetisa e aos 24 anos escreve seu primeiro livro, Mármores, obra prefaciada por João Ribeiro, consagrado crítico da época. Mais tarde, no ano de 1903, publica Esfinges, onde acrescenta alguns poemas inéditos aos já editados no primeiro livro. Escreve ainda dois livros em parceria com o irmão Júlio César da Silva: Livro da Infância (1899) e Alma Infantil (1912). Colaborou com jornais como O Estado de São Paulo, Correio Paulistano e Diário Popular, e periódicos do Rio de Janeiro com destaque para as revistas O Álbum e A Semana, especialmente.
A produção literária de Francisca Júlia arrancou daquele que foi o Príncipe dos Poetas, Olavo Bilac, as seguintes palavras de elogio e reconhecimento emocionado:
“Em Francisca Júlia surpreendeu-me o respeito pela língua portuguesa, – não que ela transporte para a sua estrofe brasileira a dura construção clássica: mas a língua doce de Camões, trabalhada pela pena dessa meridional, – que traz para a arte escrita todas as suas delicadezas de mulher, toda a sua faceirice de moça, nada perde
da sua pureza fidalga de linhas. O português de Francisca Júlia é o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura”.
A poetisa foi parnasiana e simbolista; ora escrevia de acordo com a estética característica do Parnasianismo, ora aos moldes do Simbolismo.Como autêntica representante da escola que cultuou a forma, a beleza estética e a arte clássica, esmerou-se em provar que mulher sabia fazer poesia e poesia de qualidade e, desse modo, foi comparada à tríade parnasiana formada por Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira e assemelhou-se a Heredia com os sonetos “Dança das centauras” e “Os argonautas”. Frustrando todas as expectativas, foi em suas mãos que a lira parnasiana encontrou a perfeita concretização das condições que o Parnasianismo francês, em tese, reclamava. A esse respeito, asseverou o crítico Péricles Eugênio: “(...) com efeito, é plástica e sonora; a poetisa professou a arte pela arte, conheceu o 'mot juste', desejou a austeridade formal e sobretudo timbrou em ser impassível, coisa de que os outros parnasianos brasileiros não fizeram questão”.
A despeito da singularidade da sua obra, Francisca Júlia não ocupa o lugar de destaque que lhe é devido nos livros didáticos, história da literatura e antologia literária. O desconhecimento da exímia poetisa é quase que completo nos cursos do ensino fundamental, médio e superior. Pesquisas realizadas em bibliotecas da cidade de Garanhuns(PE) dão provas suficientes do esquecimento dessa que foi um marco na literatura de língua portuguesa e que fez o prefaciador dos seus livros, João Ribeiro, declarar:
“Nem aqui, nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhe são positivamente inferiores no estro, na composição e fatura do verso, nenhum possui em tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa frieza severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa”.
O silenciamento a que a mulher do século XIX foi submetida se estende aos dias atuais quando vozes poéticas, como a de Francisca Júlia, desaparecem do cenário da literatura brasileira, das bibliotecas, escolas, universidades e da memória do povo.
Sobre os versos cuidadosamente arquitetados pela “Musa Impassível”, afirmou Júlio Ribeiro, “sua poesia enérgica, vibrante, trazia a veemência de sonoridades estranhas, nunca ouvidas, uma música nova que as cítaras banais do nosso Olimpo nos haviam desacostumado”. Abaixo, um pouco da poesia de Francisca Júlia:

MUSA IMPASSÍVEL I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave o idílico descante.
Celebra ora um fantasma angüiforme de Dante;
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

Mármores (1895)

sábado, 17 de abril de 2010

Uma leitura da construção de gênero em A Hora da Estrela



O romance A Hora da Estrela, escrito por Clarice Lispector em 1977, representa uma inovação estilística e de conteúdo ao deslocar-se do universo íntimo para a realidade objetiva e tocar, desse modo, questões sociais de maneira mais explícita e declarada. O próprio narrador-personagem, Rodrigo S.M., afirma que se trata de história exterior e explícita (HE, p.33). A personagem-protagonista criada por Rodrigo S.M. chama-se Macabéa, mas atende por Maca, alusão aos macabeus, personagens bíblicas. Nordestina oriunda do estado de Alagoas, muda-se para o Rio de Janeiro onde alimenta o sonho de ser estrela de cinema e tem em Marylin Monroe sua referência de beleza e status social. Divide um quarto de pensão com quatro moças que paga trabalhando como datilógrafa. Namora Olímpico de Jesus, também nordestino, que trabalha como metalúrgico e aspira ascender socialmente. No decorrer da narrativa, Macabéa perde Olímpico para Glória, sua única amiga, pois esta possuía os atrativos materiais ambicionados por ele. A hora da estrela para Macabéa se dá quando é atropelada por um Mercedez Benz.
No romance de Clarice Lispector, Macabéa e Olímpico são representantes dos papéis atribuídos ao longo da história a homens e mulheres e que, por sua vez, têm na baliza de verniz sócio-cultural os parâmetros bem delimitados da sua construção. Macabéa é mulher, nordestina, medíocre, solitária, submissa e virgem. Olímpico é homem, nordestino (logo, cabra da peste), esperto, ambicioso e dominador. Essas características não são dadas por acaso, mas obedecem a toda uma lógica sócio-cultural-discursiva que tem origem no chão social em que pisam as personagens.
Macabéa é uma desconhecida de si mesma. Ignorante de sua identidade, ela não se conhece senão de ir vivendo à toa (HE, p. 35). Aprendeu a ser assim, como é. Nunca se perguntou: quem sou eu?, e se um dia o fizesse cairia estatelada e em cheio no chão (HE, p.36). Os tijolos que compõem seu edifício pessoal e sua feminilidade não foi ela quem os colocou, antes foram colocados pelos discursos que a gestaram, conceberam e ensinaram a ser como é, incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si mesma. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim” (HE, p.45). Ela é indiferente e ignora a própria identidade porque não a construiu nem foi-lhe dada oportunidade de participar desse processo. Ela não nasceu de si, mas da convenção social que a aguardava antes mesmo de vir ao mundo. Esse mundo fora dela já definira para si seu lugar social, suas atribuições profissionais (vale lembrar que ela é datilógrafa) e seu comportamento, (...) ela é doce e obediente (HE, p.47).

As implicâncias de gênero se fazem sentir a princípio no seu nome abreviado, Maca. Esse apelido é, “graficamente, quase idêntico à Maçã, sem os adornos sinuosos do til e da cedilha” (SÁ, 2000:271). Apesar de não trazer os enfeites gráficos da palavra maçã porque ela era subterrânea e nunca tinha tido floração (HE, p.52), a semelhança remete-nos ao fruto proibido que, segundo o relato bíblico, levou à queda de todo o gênero humano quando Eva e Adão o comem. Ambos pecam e são expulsos do paraíso, mas é sobre a mulher que recai o estigma da fraqueza moral. A culpa é culpa da mulher e não do homem. Macabéa traz esse estigma, de certo modo, representado na abreviatura do seu nome e entranhado nas vísceras da sua parca existência.
Após a morte de seus pais, ela passa a viver com uma tia que, além de maltratá-la, ensina-lhe a cartilha do comportamento social adequado às mulheres, de modo que, do contacto com a tia ficara-lhe a cabeça baixa (HE, p.50) e se lhe dava cascudos na cabeça era por que considerava de dever seu evitar que a menina viesse um dia a ser uma dessas moças que em Maceió ficavam nas ruas de cigarro aceso esperando homem (HE, p.49), além de que a queria para varrer o chão (HE, p.54). Assim sendo, Macabéa é talhada para ser ingênua, inocente e obediente. Seu mérito está em baixar a cabeça e obedecer resolutamente. Ela torna-se mulher na medida em que se enquadra pouco a pouco nos padrões sociais pré-determinados para aquelas que dividem consigo o mesmo chão. Age de modo automático, mecânico, irracional, ao ponto de esse não-saber pode parecer ruim mas não é tanto porque ela sabia muita coisa assim como ninguém ensina cachorro a abanar o rabo e nem a pessoa a sentir fome; nasce-se e fica-se logo sabendo (HE, p.50). Macabéa, embora o fato de vir a ser uma mulher não pertencesse à sua vocação (HE, p.49), aprendia, pouco a pouco, a sê-la.
Macabéa vê desfilar nas páginas da sua vida o discurso que a sociedade androcêntrica produz sobre a mulher, e introjeta a imagem construída por seus dominadores. A normatização e o controle social exercido sobre sua feminilidade faz com que se revista dos símbolos sócio-culturais que identificam o feminino na história. Sua satisfação está em reproduzir cotidianamente o papel imposto pela “casta” superior e concretizar na sua existência rala o projeto identitário silenciosamente gestado no útero da cultura. Rodrigo S.M. diz-nos que só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa, e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser (HE, p. 58).
A Hora da Estrela é um livro merecedor de releituras que, longe de esgotá-lo, abrem para possibilidades de sentidos ainda não desvelados.