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domingo, 13 de fevereiro de 2011

A leitura de uma vida: Clarice,


Acabei de concluir a leitura do livro Clarice, de Benjamin Moser. Desde a adolescência que leio e admiro a obra de Clarice, mas conhecer sua vida em detalhes tão íntimos, caminhar por seus dias, conviver com seus momentos de expressão é visualizar um lado que pontua seus escritos, mas que fica imperceptível para o leitor desprovido dos contextos que deram vida a uma obra inteira. Tive a oportunidade, na Fliporto em Olinda, de assistir uma mesa com Benjamin Moser e Nádia Gotlib (também biógrafa da escritora) e ali, naquela discussão acalorada, novos modos de ver/entender a obra clariceana foram descortinados.
Sinceramente, eu sinto intensamente o final de uma leitura e com o final dessa não tem sido diferente. Benjamin Moser tem um estilo bastante fluido, de modo que não nos cansamos um só instante com a leitura dos capítulos que parecem ingeridos quando estamos com muita fome. Clarice era e continua sendo um mistério. Drummond o disse muito bem: "Clarice veio de um mistério e partiu para outro." Nesse outro mistério, onde se encontra, continua sendo mistério neste mundo que esmerou-se em descobrir e amar. O livro de Benjamin Moser aponta para um fio comum que perpassa a obra de Clarice: a saída da família da Ucrânia e os sofrimentos ocasionados por essa migração, a morte da mãe e a pobreza sentida no corpo, na pele, nos dias traiçoeiros que marcaram os primeiros anos no Brasil. No livro, vocês terão acesso às últimas palavras de Clarice antes de partir para aquele outro mistério mencionado pelo poeta, mas vou antecipá-las aqui:

Sou um objeto querido por Deus. E isso me faz nascerem flores no peito. Ele me criou igual ao que escrevi agora: 'sou um objeto querido por Deus' e ele gostou de me ter criado como eu gostei de ter criado a frase. E quanto mais espírito tiver o objeto humano mais Deus me satisfaz.
Lírios brancos encostados à nudez do peito. Lírios que eu ofereço e ao que está doendo em você. Pois nós somos seres e carentes. Mesmo porque estas coisas - se não forem dadas - fenecem. Por exemplo - junto ao calor de meu corpo as pétalas dos lírios se crestariam. Chamo a brisa leve para a minha morte futura. Terei de morrer senão minhas pétalas se crestariam. É por isso que me dou à morte todos os dias. Morro e renasço.
Inclusive eu já morri a morte dos outros. Mas agora morro de embriaguez de vida. E bendigo o calor do corpo vivo que murcha lírios brancos.
O querer, não mais movido pela esperança aquieta-se e nada anseia.
[...]
Eu serei a impalpável substância que nem lembrança de ano substância tem.


Enfim, lis, lírios, lispector no peito.
Vale uma leitura!

5 comentários:

Sonia Pallone disse...

Que lindo, eu sou apaixonada pela poesia de Clarice Lispector, bela postagem.

Thiago disse...

Clarice me põe muito pra pensar...
E ando estritamente numa fase de só sentir mesmo...

Anyway, grande post...falar dela sempre é ricp!

Tais Luso disse...

Clarice é toda mistério, difícil desvendá-la; por tudo é que cresce cada vez mais sua legião de leitores. É tristemente divina! Não tem quem não goste de seus textos, justamente por se mostrar por inteira.

Beijos
Tais Luso

Caroline Felizardo disse...

Nossa assim que vi sua postagem fui correndo comprar o livro, ainda não terminei de ler mas desde o inicio amei-o.

Caroline Felizardo disse...

Nossa eu realmente virei sua fã *-*
amo suas postagens você tem Twitter para que eu possa te seguir ?
E me senti honrada por seu comentário no meu blog :D
Obrigada