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quarta-feira, 3 de março de 2010

A volta do filho pródigo de Rembrandt


Hoje tive a grata oportunidade de compartilhar com meus alunos do turno noturno algumas considerações acerca de uma obra de Rembrandt que conheci através do livro "A volta do filho pródigo" de Nouwen. Conversava com eles sobre a relação entre a obra de arte, o contexto histórico mais amplo e o entorno de quem a pinta. Durante a aula, procurava que entendessem que a pintura, às vezes, retrata o universo de quem a pinta. Digo "às vezes" porque lembrei de Fernando Pessoa que definiu magistralmente o trabalho do poeta: "o poeta é um fingidor." Do mesmo modo, não podemos pensar a pintura apenas como reflexo da vida e dos sentimentos do pintor. Mas,simultaneamente, não podemos desvincular a obra da vida daquele que a criou. Enfim, não estou aqui para tratar do quanto de pessoal e íntimo há na obra de arte, mas para falar do quanto "A volta do filho pródigo" de Rembrandt, que chegou a mim através do livro de Nouwen, pode abrir as portas para uma reflexão acerca da espiritualidade. Esse lugar em nós tão importante quanto as outras dimensões, mas que é sempre relegado a segundo plano ou plano nenhum. Quando falo de espiritualidade não estou me referindo a esta ou aquela religião em particular, mas de um modo de vida espiritual. Nesse sentido, acredito que a filosofia budista tem uma contribuição valiosa.
O quadro de Rembrandt, baseado na parábola bíblica, retrata a volta do filho mais velho que pediu ao pai a parte que lhe cabia nos bens e saiu de casa. Após gastar tudo que tinha, o filho retorna à casa do pai que o recebe afetuosamente. Essa metáfora possibilita interpretações diversas, de modo que optar por uma única interpretação, ou seja, aquela cunhada pela religião, seria reduzir a riqueza de sentidos que a pintura de Rembrandt possibilita. Nessa direção, tenho pensado a "casa do pai" como algo mais próximo, pragmático, imanente, ou seja, a espiritualidade. Essa dimensão humana que negamos, ignoramos, mas que lateja e acena num gesto paterno (sem deixar de ser materno)para que voltemos "à casa do pai" que não é uma igreja ou um deus, mas um modo de vida. Precisamos urgentemente resgatar essa dimensão que nos faz mais humanos, afáveis e dóceis.
Há alguns dias, li nos jornais que um dos assassinos do menino João Hélio estava prestes a receber uma indulgência da justiça; hoje vi no Jornal Nacional que bandidos atearam fogo num micro ônibus no Rio de Janeiro; no final da tarde, na escola onde leciono, dois grupos de alunos aguardavam uma aluna que foi espancada pelos grupos. Cenas da bárbarie urbana. Será que o quadro de Rembrandt pode lançar alguma luz, embora a sombra o cubra, sobre essas realidades? Eu respondo que sim. Tal como o filho da pintura, precisamos voltar a uma prática espiritual que não está relacionado com atos heróicos de fé ou penitências que dilaceram o corpo, mas a atitudes cotidianas que se traduzem em respeito, cidadania e cuidado. No centro da cena, pai e filho se abraçam e o quadro se ilumina expressando o retorno do homem àquele lugar do qual nunca esquece, embora ignore e renegue: a consciência espiritualmente responsável.

4 comentários:

Marliborges disse...

Pura verdade Luciano, é que nos tempos atuais o pai ainda está à espera que seu filho volte, mas ele demora... Quanto tempo ainda ele (o pai) terá que esperar pela espiritualidade? Para mim, esse quadro de Rembrant expressa um clamor e uma benção que se traduzirá numa realidade benéfica para a humanidade. É amigo, dissestes bem, sem espiritualidade o amor perde espaço para outros sentimentos que sempre resultam em ações nefastas, como as que a gente vê todo o dia na nossa frente. Obrigada pelo post, amei.
Um beijo grande.

Crônicas do Submundo disse...

Saudaçoes meu caro!
acho deveras interesante a perspectiva pela qual analisa essa religiosidade da célebre obra de Rembrandt. Realmente, quando o poder superior manifesta sua divindade através das banalidades da vida carnal, como o pai que humildemente recebe seu pródigo filho ao retornar para o lar, a intervençao me parece mais interessante. Pelo menos, muito mais interessante, do que quando os ensinamentos divinos nos são impostos através de uma moral gouche, como colocaste bem em teu post, que nos foi apresentade em linhas daquele livro dito absoluto em nome de nosso Senhor.

Hasta!

Tais Luso disse...

Olá, Luciano, bela esta sua postagem, e que bela obra de Rembrandt!

Lembrei, ao ler 'A volta do filho pródigo', arrependido e amargurado, uma citação de Machado de Assis: 'Não levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão'.
Acho que fechamos em pensar num amor, numa postura mais espiritual para a humanidade.

Um beijo
Tais Luso

FLEURISA TOSCANO disse...

As mãos são distintas, uma representa a do Pai e a outra da Mãe. Isso para nos mostra que Deus é Pai e Mãe ao mesmo tempo. Davi deixou isso em um salmo 27:10. Miss. Verlana.