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domingo, 6 de junho de 2010

Com que corpo eu vou?

Este texto foi publicado na Folha de São Paulo de 30 de jun. de 2002. Achei oportuno publicar porque retoma um ponto de vista que assumi num post anterior sobre o controle e a vigilância a que submetemos o corpo. Vale uma leitura!

Que corpo você está usando ultimamente? Que corpo está representando você no mercado das trocas imaginárias, que imagem você tem oferecido ao olhar alheio para garantir seu lugar no palco das visibilidades em que se transformou o espaço público no Brasil? [...] Fique atento, pois o corpo que você usa e ostenta vai dizer quem você é. Pode determinar oportunidades de trabalho. Pode signifiar a chance de uma rápida ascensão social.
Acima de tudo, o corpo que você veste, preparado cuidadosamente à custa de muita ginásticae e dieta, aperfeiçoado por meio de modernas intervenções cirúrgicas e bioquímicas, o corpo que resume praticamente tudo o que restou do seu ser é a primeira condição para que você seja feliz.
Não porque ele seja, o corpo, a sede pulsante da vida biológica. Não porque possua uma vasta superfície sensível ao prazer do toque - a pele, esse invólucro tenso que protege o trabalho silencioso dos órgãos. Não pela alegria com que experimentamos os apetites, os impulsos, as excitações, a intensa e contínua troca que o corpo efetua com o mundo. O corpo-imagem que você apresenta no espelho da sociedade vai determinar sua felicidade não por despertar o desejo ou o amor de alguém, mas por constituir o objeto privilegiado do seu amor-próprio: a tão propalada autoestima, a que se reduziram todas as questões subjetivas na cultura do narcisismo.
Nesses termos, o corpo é ao mesmo tempo o principal objeto de investimento do amor narcísico e a imagem oferecida aos outros - promovida, nas últimas décadas, ao mais fiel indicador da verdade do sujeito, da qual depende a aceitação e a inclusão social. O corpo é um escravo que devemos submeter à rigorosa disciplina da indústria da forma (enganosamente chamada de indústria da saúde) e um senhor ao qual sacrificamos nosso tempo, nossos prazeres, nossos investimentos e o que sobra das nossas suadas economias.

Maria Rita Kehl

6 comentários:

Marliborges disse...

Olá Luciano,
Concordo com a autora. E observe que de 2002 para cá, as coisas estão ficando bem piores. (claro, piores para uns e melhores para outros). A quem aproveita tudo isso? Ao comércio naturalmente. Tudo girando em volta do dinheiro. É uma máquina que não pára. Mas, por outro lado, o dinheiro é nosso único material de troca capaz de garantir nossa sobrevivência. Há que ter equilibrio e bom senso ao equacionar esses valores sociais. Cada um tem que saber de antemão o que é melhor para si, para não cair em armadilhas, nem de um lado, nem de outro. Bjs

Lídia Borges disse...

A imagem, hoje, é sobrevalorizada em detrimento daquilo que é essencial.
Daí, este desassossego em busca da artificialidade como se fosse ela o valor mais alto. Enfim... O poder perverso do markting.

L.B.

Alexandre Bonafim disse...

Luciano, obrigado pelos comentário no blog. Olha, por favor, escreva-me: alexandrebonafim@hotmail.com
gostaria de estreitar os laços. meu orkut: Alexandre Bonafim
Abração.

Marise von disse...

Olá Luciano!
Tudo pela aparência...
Somos aquilo que o corpo aparenta ser. E perguto: onde fica a nosso "ser"?
Excelente texto, parabéns.
Abraços,
Marise.

livia carmem rosa disse...

Ola
cade o estudo de texto ???

日月神教-任我行 disse...

謝謝123