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sábado, 10 de abril de 2010

Quando a leitura é proibida


Embora já faça algum tempo, a notícia do recolhimento de 136.000 exemplares do livro Aventuras Provisórias das escolas públicas de Florianópolis ainda ressurge em minha cabeça e incomoda como um indesejável espinho no pé. O livro é do escritor catarinense Cristovão Tezza e ganhou vários prêmios que notabilizaram a obra e projetaram o nome de Tezza no cenário literário nacional. Até então, conhecia Tezza apenas pelos artigos publicados no campo da Linguística. Ele tem reflexões notáveis sobre o pensamento do filósofo russo, Mikhail Bakhtin. Trago essa memória para retomar um tema já tratado em outro post: o controle da instituição escolar sobre os livros e a leitura. Esse controle estende-se aos sentidos permitidos e legitimados pela instituição em detrimento daqueles considerados errados, toscos, desviantes ou subversivos.
A Gerência Regional de Educação do Sul de Santa Catarina justificou dizendo que o livro trazia muitos palavrões e descrevia atos sexuais. O que poderia ser uma justificativa tranquilizadora tornou-se alvo de inúmeras críticas que passaram pelo despreparo dos professores em discutir com os alunos do Ensino Médio da educação pública questões que são recorrentes na escola, bem como as novas formas de censura. Li vários posts em blogs literários que versavam sobre o assunto. Pensando cá com meus botões, acrescento uma outra motivação que não se encaminha pelo despreparo da escola e do corpo docente em lidar com o conteúdo da obra nem pela censura, mas pelo controle ideológico que se quer impor a qualquer tipo de comportamento subversivo que influencia atitudes que ameaçam desmantelar a ordem vigente. É isso que, de certo modo, encontra-se virtualmente presente na prática de falar palavrões: a ruptura com o instituído. O que estou focando aqui não é a prática em si, mas aquilo que ser quer evitar ao reprimir uma determinada prática ou proibir que se entre em contato com ela, mesmo que seja no universo literário. Não quero pôr em discussão o juízo de valor (correto/incorreto; moral;imoral/educado/mal educado) que socialmente se faz da prática de falar palavrões. Minha intenção é fazer refletir acerca dos mecanismos de controle e manutenção de uma ordem que se perpetua pela reprodução de práticas e conceitos que nunca são questionados nem subvertidos. O palavrão é justamente aquela ação que subverte uma ordem que não se quer ver alterada, transformada, abalada. Nesse caso, evitar o palavrão ou o contato com ele é apenas representativo de um mecanismo de poder que quer a todo custo, como diria Foucault, tornar os corpos dóceis, servis, adequados, e facilmente manipuláveis. Assim sendo, permitir que alunos em formação entrem em contato com personagens que subvertem um determinado estado de coisas ou uma norma social é prepará-los para futuras atitudes subversivas; é despertar neles a consciência de que aquilo que parece ser a ordem natural e peremptória para todos é passível de resistências e transformação. A fim de que isso não aconteça, a escola, instituição reprodutora da ideologia dominante, vigia e higieniza o ambiente escolar e a cabeça dos alunos para que a ordem estabelecida pelas classes dominantes prossiga entre nós sem problemas.



É uma pena que os alunos do Ensino Médio de Florianópolis tenham, entre outras coisas, perdido a oportunidade única de aprenderem com a literatura - e com os palavrões trazidos para a reflexão séria e consequente - a fantástica possibilidade que todo humano carrega de recriar aquilo que está posto, estabelecido como a única realidade possível. Embora queiram nos fazer acreditar que "sempre foi assim e assim deve ser pelos séculos vindouros", a arte literária nos coloca diante de uma outra porta: aquela que nos mostra que somos essencialmente seres de protest-ação na definição de Leonardo Boff e capazes de um mundo possível, mesmo que uma "aventura provisória." É apenas uma leitura (entre outras possíveis).

4 comentários:

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) disse...

Luciano,
Louvo seu post e ouço dentro de mim - caixa? - a ressonância com seus argutos argumentos, decerto mal arguidos pelas escolas da flórida Florianópolis.

Abraço poético,
Pedro Ramúcio.

Luis Valcácio disse...

O Filho Eterno é um dos melhores romances da literatura brasileira recente. Sou fã do Tezza. Que pena isso ter acontecido, mas são coisas típicas do Brasil.
Abraço,
Luis

Jonathas Nascimento disse...

Olá Luciano,

É incrível como em nosso país abunda o despreparo das grandes instituições, justamente aquelas que deveriam servir o povo. Qual o futuro educacional de jovens que são tolidos a ter acesso a uma visão de mundo diversa da costumeira? Se a educação não passar pelo acesso plural o nosso Brasil jamais conseguirá erguer um povo de visão política e social crítica.

Adorei o espaço,

Parabéns!

Paulo Zerbato disse...

Boa noite!!! Muito obrigado Luciano...seu Blog é especial! Agradeço o apoio! Até mais!