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sexta-feira, 8 de abril de 2011

...e o erotismo se fez poesia.



A um estranho

Estranho que vai passando! Você não sabe o quanto tenho te
olhado,

Você deve ser aquele que eu procurava, ou aquele que eu
procurava, (e veio a mim tal um sonho)

Em algum lugar certamente vivi uma vida feliz ao seu lado.

Recordo tudo quando quase nos encostamos, fluídos, afetivos,
castos, maduros,

Você cresceu ao meu lado, e foi um menino ou uma menina,

Comemos e dormimos juntos, seu corpo não era apenas seu
Nem meu corpo apenas meu,

Entrega-me o prazer de seus olhos, face, carne, quando passamos,
você leva minha barba, meu peito,
minhas mãos,

A você nada direi, eu fico a pensar em ti quando estou sentado
sozinho ou acordado noite adentro,

Estou a esperar, não duvido que te encontrarei novamente,

Estarei atento para não te perder
(Walt Whitman)



A CANTORA GRITANTE

Cantava tão bem
Subiam-lhe oitavas
Tantas tão claras
Na garganta alva
Que toda vizinhança
Passou a invejá-la.
(As mulheres, eu digo,
porque os maridos
às pampas excitados
de lhe ouvir os trinados,
a cada noite
em suas gordas consortes
enfiavam os bagos).
Curvadas, claudicantes
De xerecas inchadas
Maldizendo a sorte
Resolveram calar
A cantora gritante.
Certa noite... de muita escuridão
De lua negra e chuvas
Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.
E pelos gorgomilos
Arrastaram também
A Garganta Alva
Pros baixios do bicho.
Petrificado
O jumento Fodão
Eternizou o nabo
Na garganta-tesão... aquela
Que cantava tão bem
Oitavas tão claras
Na garganta alva.

Moral da estória:
Se o teu canto é bonito,
Cuida que não seja um grito.
(Hilda Hilst - Bufólicas - 1992)

Um comentário:

Sara Geórgia disse...

Perfeito o texto a um aestranho. Gosto da forma singela e ao mesmo intensa, como é perfeito a forma a qual se adentra na mente. Parabéns!