O poeta parece ter dito o óbvio: “o tempo não pára”. O que soa óbvio para muitos não o é para aqueles que se detiveram em refletir sobre essas palavras que mais parecem abrir para o mistério, a opacidade, que para evidências que se deixam facilmente encontrar. O tempo do poeta não coincide necessariamente com o tempo cronológico, marcado pelas horas que se sucedem e correm céleres sem permitir que tiremos o olho do relógio para sentir o tempo que não é aquele ditado pelas horas, mas aquele que reúne presente, passado e futuro no instante mesmo das nossas vivências cotidianas. Para o poeta, esse tempo não pára de acontecer, embora não o percebamos e, por isso, estejamos sempre correndo atrás do tempo ou reclamando do tempo que passou. Assim, o tempo é esse instante-já – no dizer de Clarice Lispector – que aglutina passado e futuro no presente que não é marcado pelas horas, mas pela vivência profunda e pela experiência do tempo como mergulho no mar sem fundo nem limites da vida. É estar sempre no tempo fazendo a experiência de si, do outro e do cotidiano e, de modo algum, correndo atrás do tempo, deixando o tempo passar ou perdendo tempo. Assim sendo, não é preciso correr atrás do tempo porque ele está sempre aqui e é desde sempre presente, passado e futuro. Ilude-se também quem pensa que o tempo passa, porque ele não passa, ele fica na mesma medida da experiência que fazemos dele. Por último, não se perde tempo, vivencia-se o tempo, pois, qualquer experiência, negativa ou positiva, é imediatamente acrescentada ao nosso tesouro pessoal que se acumula à medida que estabelecemos uma relação significativa com aquilo que nos acontece.
Bem, essas palavras sobre o tempo introduziram a reflexão que povoava meus pensamentos enquanto tentava dormir. A bem da verdade, pensava sobre como as pessoas têm vivenciado seu tempo e das repercussões disso na nova ordem das relações interpessoais que parece se estabelecer de uns anos para cá. Na ocasião, lembrava de alguns momentos bastante significativos da minha adolescência quando contava com 14/15 anos. Não sei se estou certo - e titubeio em admitir que expresso uma certeza sobre valores, vivências, comportamentos, porque cada época tem suas certezas que norteiam vivências – mas tenho uma ligeira impressão de que há 10/15 anos atrás as pessoas vivenciavam melhor o seu tempo, digeriam melhor o momento e, por isso, eram capazes de construir relações mais significativas e laços mais duráveis. Penso que a pressa e a lógica da nova ordem social nos colocaram num permanente estado de alerta pelo tempo que passa, que se perde e atrás do qual devemos correr infatigavelmente. Não sei se desse modo temos ganhado tempo ou temos perdido no sentido de que não fazemos a experiência do tempo que se inaugura impreterivelmente nessas tomadas de consciência de quem sou eu, de quem é o outro e da busca de significado para os instantes vividos. Banalizamos o contato humano, superficializamos o encontro, demos às costas ao que há de belo e gratuito na relação com o outro, evitamos a vida e, por tudo isso, caímos num abismo vazio de sentidos e valores, embora contemos para nós mesmos que somos plenamente felizes porque é melhor alimentarmo-nos de uma ilusão que refazermos a vida e torná-la mais fecunda.
Enquanto digito essas palavras, passa-me pela memória momentos nunca esquecidos e que chegam aos milhares e desordenadamente como que uma enxurrada que não cessa de correr. São momentos que você não recorda ou conta como que por obrigação ou porque foram espetaculares, sensacionais e dignos de aparecerem no Fantástico, Faustão, Domingo Legal ou qualquer um desses programas sensacionalistas que manipulam os fatos a seu bel-prazer, mas porque dada a sua simplicidade e caráter vivencial, reflexivo, imprimiram um sentido à vida. Recordo, num tom saudosista, de cartas enviadas e escritas, de declarações feitas ao ouvido (publicamente ou por escrito), da mão no ombro, do olhar discreto com o canto do olho, do encontro marcado, das mãos dadas, do passeio sob a neblina, das risadas gratuitas, da palavra que sossegava o coração, dos passos dados (sem pressa), do cair da noite, da vida partilhada, dos sonhos que povoavam as conversas sempre tão delicadas, das cobranças (porque não ligou, não escreveu, não deu a atenção desejada), do flerte a um tempo cheio de desejo e carinho, dos livros e músicas em comum, do papo na janela, das brincadeiras infantis (mas nunca idiotas e vazias), daquilo que não fez, mas poderia ter feito e, por isso, se arrependeu e pediu desculpas sempre pronto para recomeçar. Se hoje perdemos tudo ou perdemos algumas dessas coisas é lamentável porque é o que dá fôlego novo à vida. Agora se, para alguns, isso parecer careta, antiquado ou qualquer coisa do tipo, peço que, por favor, não hesitem em dizer, pois prefiro uma exortação à indiferença com a qual somos obrigados a conviver nos dias atuais. Já não existe a cumplicidade e companheirismo de antes, as cartas não chegam mais, as mãos se soltaram, os passos são dados sozinhos, o passeio hoje recebeu outro nome e chama-se navegar, mas não pense você que é navegar por mares nunca dantes navegados como queria o poeta, mas por um mundo distante e sem vínculo real onde não se vê, não se toca, no se escuta os passos do outro que caminha ao seu lado, os risos calaram-se e transformaram-se em “carinhas” nas maioria das vezes descaradas que são mais fontes de mal-entendidos que produção inteligível de sentidos, partilham-se mentiras como o nome falso, a idade que não tem, o corpo que não carrega e esqueceram de apresentar a vida em sua verdade e transparência. No mais, o sonho hoje se sonha só e não mais como recomendou o poeta, o flerte quase que desapareceu e quando existe não tem mais a finalidade de conhecer o outro, mas de sugar-lhe o sangue e depois deixá-lo caído qual vítima de vampirismo. Se o tempo urge, então, o melhor mesmo é queimar etapas e, desse modo, passa-se logo para o beijo que mais tem gosto de sabe-se lá o quê misturado com indesejável momento posto que mal deu-se ao trabalho lento, mas saboroso da conquista que tem começo, meio e fim e não apenas fim. Mas, a lógica corrente é que o tempo não pára e, por isso, não há tempo a perder com conversas tolas. Afinal de contas, que conteúdo tem-se hoje para iniciar uma boa conversa? As pessoas se informam cada vez menos, os livros de literatura somem das estantes ou nem chegam a ocupá-las, a música que se escuta mais aliena que liberta e o filme que se vê nem vale a pena falar porque os roteiros são tão previsíveis, repetidos e destituídos de material que leve a pensar ou enriquecer o conhecimento do espectador que não passa de mais um entre outros. Quem não sabe como começa e termina Superman na sua recente versão? Bem, sem possibilidade de olhares que se encontram, de uma conversa interessante e de um beijo desejado, parte-se para a última etapa e, depois de abocanhar a presa, passa-se imediatamente para a próxima vítima que, como eu, caça e é caçada com a mesma avidez desinteressada. Nesse jogo de gato e rato, evita-se o encontro e, desse modo, a vida é negligenciada naquilo que tem de melhor: a vivência, gota a gota, do tempo que orvalha sobre nossas cabeças antes do sol da nova (des)ordem nascer.
Que um dia encontremos todos juntos o céu que nas palavras do poeta Rimbaud era o encontro do sol com o mar. Acrescento outro elemento a essa definição do poeta e digo que o céu é o encontro do sol com o mar, mas não apenas desses, uma vez que não há céu sem a presença do outro. E aqui o outro não significa apenas a pessoa humana de carne e osso, mas tudo aquilo que dá sentido à vida e que passa também pelas experiências diárias mais corriqueiras. Assim sendo, o céu é o encontro do sol com o mar e da experiência que o tempo sempre já ontem, hoje e amanhã me permite fazer desse encontro.
Se não falas, vou encher o meu coração com o teu silêncio e agüentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vigília estrelada com a cabeça pacientemente inclinada. A manhã certamente virá; a escuridão se dissipará, e a tua voz se derramará em torrentes douradas por todo o céu. Então as tuas palavras voarão em canções de cada ninho dos meus pássaros, e as tuas melodias brotarão em flores por todos os recantos da minha floresta. (Rabindranath Tagore)
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008
terça-feira, 13 de maio de 2008
A COR PÚRPURA

A COR PÚRPURA
Não é de agora que conheço o filme A cor púrpura. Já tinha lido alguma coisa na internet e, desde que obtive a primeira informação, me pus a procurar, embora não tenha tido êxito na busca. Só recentemente tive a grata oportunidade de assisti-lo e o fiz como um menino que ganha uma roupa nova e logo quer vestir ou uma caixa de bombons e a devora com ansiedade. Foi com uma disposição semelhante que digeri cada cena desse filme.
Custa-me tanto encontrar as palavras exatas, precisas e que dêem toda a dimensão da grandiosidade dessa obra que, por vezes, hesito, receio, deleto, reescrevo, temeroso de que as palavras escolhidas não alcancem suas extensões que são incomensuráveis. Mas, começo a lembrar de Celie e sua trajetória marcada por recomeços sutis e, prontamente, me ponho a escrever com o mesmo destemor que a cerca quando das cenas finais.
A obra, do diretor Steven Spielberg, narra a história de Celie (Whoopi Goldberg) e Nettie (Akosua Busia), duas irmãs que conhecem desde cedo os horrores de uma criação feita de medo e dor. O pai mantém relações sexuais com Celie com quem tem três filhos. Desses três, mata um e doa o casal Olívia (Lelo Masamba) e Adam (Peto Kisanka) a membros da igreja que participa. Celie não conhece os filhos nem os vê crescer.
Certo dia, aparece na fazenda, Alberto (Danny Glover), que manifesta interesse em casar com Nettie. O pai não permite que Nettie, por quem tinha desejo, siga com Alberto e entrega Celie que o acompanha e contrai matrimônio. Daí em diante, Celie é submetida a todo tipo de humilhação pelo marido que a mantém como uma escrava dele e dos filhos.
Depois de um tempo, Nettie foge da casa do pai, porque não agüenta sua insistente perseguição e procura Celie, com quem passa a morar. Após uma tentativa frustrada de Alberto em estuprar Nettie, que o recusa veementemente, aquele a expulsa de suas terras e a menina sai a perambular pelo mundo. Antes de serem violentamente separadas, Nettie promete escrever e diz que só não o fará se morrer. Daí em diante, a vida de Celie se transforma numa eterna espera pelas cartas de Nettie que não vêem.
Com a chegada de Shug (Maragaret Avery), a vida de Celie ganha rumo totalmente diferente daquele desenvolvido até então. Finalmente, alguém a vê e a ama como nunca foi amada. Esse reconhecimento do seu corpo, da sua existência e atributos faz Celie reunir forças para romper definitivamente com um passado de opressão e sofrimento.
No fim da trama, Celie e Shug descobrem as cartas que Nettie enviava e Alberto escondia. Nessas cartas, Nettie dá notícias de si e dos filhos de Celie que encontram-se na África. Após conseguirem o visto de emigração do consulado, os filhos de Celie, finalmente, puderam conhecer aquela de quem foram separados no nascimento. O reencontro com Nettie simboliza o reencontro com uma nova vida feita de respeito e dignidade.
Esse resumo dá uma idéia, em linhas gerais, do filme, mas seu conteúdo e as ações que o compõem vão além do que aqui está posto. Há histórias paralelas à história de Celie e que dão ao filme uma unidade dramática porque todas estão perpassadas pelo mesmo fio da intolerância e superação.
O filme é tão rico em temas para reflexão que fica difícil selecionar um para comentar. Não obstante a dificuldade em pinçar um tema que se sobressai aos demais, queria pontuar a passagem de uma existência inicialmente marcada pela mudez social, pela submissão resignada ao macho viril e por uma solidão que a acompanha desde que teve seus filhos arracandos dos seus braços e foi interditada na comunicação com a irmã por quem tinha laços profundos de amizade para uma existência que tem a coragem, num momento singular da vida, de olhar para seu algoz e gritar: "Eu sou negra, sou pobre e posso até ser feia, mas, Deus, eu estou aqui. Eu estou viva." Essa é toda liberdade.
Não é de agora que conheço o filme A cor púrpura. Já tinha lido alguma coisa na internet e, desde que obtive a primeira informação, me pus a procurar, embora não tenha tido êxito na busca. Só recentemente tive a grata oportunidade de assisti-lo e o fiz como um menino que ganha uma roupa nova e logo quer vestir ou uma caixa de bombons e a devora com ansiedade. Foi com uma disposição semelhante que digeri cada cena desse filme.
Custa-me tanto encontrar as palavras exatas, precisas e que dêem toda a dimensão da grandiosidade dessa obra que, por vezes, hesito, receio, deleto, reescrevo, temeroso de que as palavras escolhidas não alcancem suas extensões que são incomensuráveis. Mas, começo a lembrar de Celie e sua trajetória marcada por recomeços sutis e, prontamente, me ponho a escrever com o mesmo destemor que a cerca quando das cenas finais.
A obra, do diretor Steven Spielberg, narra a história de Celie (Whoopi Goldberg) e Nettie (Akosua Busia), duas irmãs que conhecem desde cedo os horrores de uma criação feita de medo e dor. O pai mantém relações sexuais com Celie com quem tem três filhos. Desses três, mata um e doa o casal Olívia (Lelo Masamba) e Adam (Peto Kisanka) a membros da igreja que participa. Celie não conhece os filhos nem os vê crescer.
Certo dia, aparece na fazenda, Alberto (Danny Glover), que manifesta interesse em casar com Nettie. O pai não permite que Nettie, por quem tinha desejo, siga com Alberto e entrega Celie que o acompanha e contrai matrimônio. Daí em diante, Celie é submetida a todo tipo de humilhação pelo marido que a mantém como uma escrava dele e dos filhos.
Depois de um tempo, Nettie foge da casa do pai, porque não agüenta sua insistente perseguição e procura Celie, com quem passa a morar. Após uma tentativa frustrada de Alberto em estuprar Nettie, que o recusa veementemente, aquele a expulsa de suas terras e a menina sai a perambular pelo mundo. Antes de serem violentamente separadas, Nettie promete escrever e diz que só não o fará se morrer. Daí em diante, a vida de Celie se transforma numa eterna espera pelas cartas de Nettie que não vêem.
Com a chegada de Shug (Maragaret Avery), a vida de Celie ganha rumo totalmente diferente daquele desenvolvido até então. Finalmente, alguém a vê e a ama como nunca foi amada. Esse reconhecimento do seu corpo, da sua existência e atributos faz Celie reunir forças para romper definitivamente com um passado de opressão e sofrimento.
No fim da trama, Celie e Shug descobrem as cartas que Nettie enviava e Alberto escondia. Nessas cartas, Nettie dá notícias de si e dos filhos de Celie que encontram-se na África. Após conseguirem o visto de emigração do consulado, os filhos de Celie, finalmente, puderam conhecer aquela de quem foram separados no nascimento. O reencontro com Nettie simboliza o reencontro com uma nova vida feita de respeito e dignidade.
Esse resumo dá uma idéia, em linhas gerais, do filme, mas seu conteúdo e as ações que o compõem vão além do que aqui está posto. Há histórias paralelas à história de Celie e que dão ao filme uma unidade dramática porque todas estão perpassadas pelo mesmo fio da intolerância e superação.
O filme é tão rico em temas para reflexão que fica difícil selecionar um para comentar. Não obstante a dificuldade em pinçar um tema que se sobressai aos demais, queria pontuar a passagem de uma existência inicialmente marcada pela mudez social, pela submissão resignada ao macho viril e por uma solidão que a acompanha desde que teve seus filhos arracandos dos seus braços e foi interditada na comunicação com a irmã por quem tinha laços profundos de amizade para uma existência que tem a coragem, num momento singular da vida, de olhar para seu algoz e gritar: "Eu sou negra, sou pobre e posso até ser feia, mas, Deus, eu estou aqui. Eu estou viva." Essa é toda liberdade.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Chegadas e partidas

CHEGADAS E PARTIDAS
Ficha Técnica
Título Original: The Shipping News
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 124 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2001
Site Oficial: www.miramaxhighlights.com/theshippingnews
Estúdio: Miramax Films / Columbia Pictures Corporation / TriStar PicturesDistribuição: Miramax Films
Direção: Lasse Hallström
Chegadas e partidas é um filme para poucos e, ao mesmo tempo, um filme de todos nós, porque toca - de maneira sutil ou agressiva – a vida humana em suas tantas peculiaridades e facetas.
Quando digo que é um filme para poucos não quero com isso restringir o público e afirmar que apenas alguns poucos privilegiados podem assisti-lo. Não é isso! A intenção nem poderia ser essa, uma vez que os fatos que compõem o enredo ou roteiro tratam de situações que todos, sem exceção, já vivenciaram ao menos uma vez na vida em proporções diferentes. Não obstante tratar de situações cotidianas com a quais nos identificamos, é preciso ter um olhar que não recaia apenas na superfície dos fatos retratados, na seqüência das ações, na fotografia que deslumbra uma após outra ou nas contradições, por vezes engraçadas, que fazem a vida de Quoyle (Kevin Spacey). A beleza do filme não reside apenas aí, de modo que é preciso assisti-lo como se vasculhássemos nas entrelinhas ou entrecenas os sentidos que não se entregam de imediato, aqueles que não se dão aos olhares entretidos, curiosos, desatentos.
Quoyle é um homem que recebeu uma educação rígida que minou sua auto-estima. Descrente de si mesmo e das próprias potencialidades é lançado num mundo que categoriza, seleciona e exclui aqueles que não correspondem às exigências que se impõem; ou seja, um mundo “onde os fracos não têm vez.” É constantemente posto à prova por esse mundo e suas parcas capacidades são esmagadas pela hostilidade desse arranjo social que já o esperava antes que nascesse.
Numa situação inusitada, Quoyle conhece aquela que será sua esposa (Cate Blanchett) e que não tem com ele uma relação de respeito e fidelidade. Ela morre num acidente de carro quando tenta seqüestrar a própria filha para vender para traficantes de órgãos humanos. Agora, Quoyle não é responsável apenas por sua vida, mas também pela filha que escapou à tentativa de seqüestro e voltou para casa.
Entre os cuidados com a filha, a casa e as diligências do trabalho, Quoyle recebe a visita de uma tia (Jude Dench) que resolve levá-lo à terra dos seus antepassados. Lá, a partir do encontro com a história dos seus antepassados, da convivência com as pessoas da comunidade de Newfoundland, do novo relacionamento com a misteriosa Wavey (Julianne Moore) e do emprego que possibilita acordar potenciais adormecidos, a vida de Quoyle muda para sempre.
Disso, temos que não foi evitando a vida que Quoyle conseguiu sarar as cicatrizes da infância deixadas por um educação que o desqualificava; antes, foi no encontro consigo a partir do encontro com o outro e com a própria história que foi possível superar seu maior medo: ele mesmo.
Nessa obra, de grande beleza humana e cinematográfica, o diretor Lasse Hallström supera-se mais uma vez.
Chegadas e partidas é um filme para poucos e, ao mesmo tempo, um filme de todos nós, porque toca - de maneira sutil ou agressiva – a vida humana em suas tantas peculiaridades e facetas.
Quando digo que é um filme para poucos não quero com isso restringir o público e afirmar que apenas alguns poucos privilegiados podem assisti-lo. Não é isso! A intenção nem poderia ser essa, uma vez que os fatos que compõem o enredo ou roteiro tratam de situações que todos, sem exceção, já vivenciaram ao menos uma vez na vida em proporções diferentes. Não obstante tratar de situações cotidianas com a quais nos identificamos, é preciso ter um olhar que não recaia apenas na superfície dos fatos retratados, na seqüência das ações, na fotografia que deslumbra uma após outra ou nas contradições, por vezes engraçadas, que fazem a vida de Quoyle (Kevin Spacey). A beleza do filme não reside apenas aí, de modo que é preciso assisti-lo como se vasculhássemos nas entrelinhas ou entrecenas os sentidos que não se entregam de imediato, aqueles que não se dão aos olhares entretidos, curiosos, desatentos.
Quoyle é um homem que recebeu uma educação rígida que minou sua auto-estima. Descrente de si mesmo e das próprias potencialidades é lançado num mundo que categoriza, seleciona e exclui aqueles que não correspondem às exigências que se impõem; ou seja, um mundo “onde os fracos não têm vez.” É constantemente posto à prova por esse mundo e suas parcas capacidades são esmagadas pela hostilidade desse arranjo social que já o esperava antes que nascesse.
Numa situação inusitada, Quoyle conhece aquela que será sua esposa (Cate Blanchett) e que não tem com ele uma relação de respeito e fidelidade. Ela morre num acidente de carro quando tenta seqüestrar a própria filha para vender para traficantes de órgãos humanos. Agora, Quoyle não é responsável apenas por sua vida, mas também pela filha que escapou à tentativa de seqüestro e voltou para casa.
Entre os cuidados com a filha, a casa e as diligências do trabalho, Quoyle recebe a visita de uma tia (Jude Dench) que resolve levá-lo à terra dos seus antepassados. Lá, a partir do encontro com a história dos seus antepassados, da convivência com as pessoas da comunidade de Newfoundland, do novo relacionamento com a misteriosa Wavey (Julianne Moore) e do emprego que possibilita acordar potenciais adormecidos, a vida de Quoyle muda para sempre.
Disso, temos que não foi evitando a vida que Quoyle conseguiu sarar as cicatrizes da infância deixadas por um educação que o desqualificava; antes, foi no encontro consigo a partir do encontro com o outro e com a própria história que foi possível superar seu maior medo: ele mesmo.
Nessa obra, de grande beleza humana e cinematográfica, o diretor Lasse Hallström supera-se mais uma vez.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
Retalhos de Clarice

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia.
Clarice Lispector in Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres .
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
"Noite"

Há uma composição de Antônio Cícero e Orlando Morais, interpretada por Adriana Calcanhoto no CD Cantada, que tem me chamado particular atenção nos últimos dias. Comprei o CD recentemente e ouvi todas as músicas assim que cheguei em casa. A voz melodiosa e aveludada de Adriana Calcanhoto nos deixa inertes, sob o efeito letárgico dos acordes do violão e das canções magistralmente compostas. Já adormecia quando escutei as primeiras notas do piano de Daniel Jobim que encheram o quarto de uma melodia serena, nostálgica. Em seguida, Adriana começa a cantar a poesia abaixo:
Noite
Vêm lá do canal
Reverberações
Vêm lá do canal
Reverberações
Do ladrar de um cão.
Uma dessas noites
Tudo vai embora:
Leve-nos,
Ladrão.
Abre-se o sinal
Sem ninguém passar.
É melhor ser vão
Tudo o que pontua
Nossa escuridão.
Eu, atento, escutava a música como quem recolhe orvalho, ou seja, gota a gota. Silencioso e com a atenção toda voltada para a canção fui recriando imaginariamente a situação figurada que letra e som sugerem. No momento que Adriana canta "Abre-se o sinal. Sem ninguém passar" fui tomado pela imagem de alguém num carro aguardando o sinal abrir sem outros ao seu lado, sozinho. Porém, quando o sinal abre a pessoa permanece parada, pois a desilução a impedem de progredir. Ela permanece estagnada, absorta em seus pensamentos, como alguém que está prestes a desistir de si mesmo. É uma imagem doída, envolta em solidão e escuridão. O som do piano acentua esse estado de alma e favorece a construção de uma imagem triste e sofrida.
De repente, acordei do êxtase provocado pelos recursos estilísticos e sonoros da canção e lembrei do escritor australiano Morris West quando seu personagem, o papa Kiril, escreve as seguintes palavras no seu diário pessoal: "O verão aproxima-se, mas há muitos homens sós e perdidos, para quem a vida é um contínuo inverno." O personagem da música atravessa esse inverno feito de garoa e névoa que turva a visão e fecha o caminho como uma cortina de cedro.
Essas foram minhas impressões da música "Noite". Por falar nisso, adentrei a noite e nem percebi que é hora de abandonar as palavras como foi abandonado o personagem do poema. É hora de dormir e deixar que o personagem da canção e as palavras encontrem um sentido que não seja idílico nem por demais real para que continuem construindo, desejando, chorando, mas caminhando.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
LEITURAS
Hoje voltei do colégio acompanhado da recordação insistente de alguns livros que li. Na ocasião, lembrei que algumas leituras foram determinantes na construção da minha história pessoal. Algumas, em particular, estimularam decisões e/ou modelaram minha consciência. A bem da verdade, eu sou os livros que li. E não foram poucos...
Os personagens e as tramas do alemão Herman Hesse influenciaram-me sobremaneira. A inquietação espiritual e material dos seus personagens eram, na época, também as minhas. Há um desejo constante nas personagens de Hesse de desbravar mundos, conhecer-se e reconhecer-se nas experiências que travam e no contato com o outro. Por isso, o personagem hessiano é alguém que se move, se desloca, porque o conhecimento de si requer o contato com a exterioridade, com o entorno. Mas esse deslocamento não se dá apenas objetivamente, mas subjetivamente, uma vez que é no diálogo, luta e confronto interior que fazemos a experiência daquilo que nos orienta e impulsiona: o desejo. O trajeto que conduz à libertação pessoal é feito de um equilíbrio que desmorona para ser reconstruído num novo patamar de consciência de si mesmo, do outro, do Mistério e do seu lugar no mundo. A leitura de Herman Hesse, um defensor inflamado da liberdade pessoal, fez com que eu tivesse a força e a coragem de caminhar por entre os vales e pântanos que me fazem.
O inglês Oscar Wilde é um escritor dono de uma maneira única e inconfundível de escrever. As reflexões filosóficas que perpassam sua obra não passam despercebidas pelos olhos e mente do leitor. A cada questão colocada, o leitor pára e volta-se sobre si num movimento contínuo de introspecção reflexiva sobre aspectos fundamentais da condição humana. Wilde elegeu a trangressão como personagem principal da sua obra, e o culto a essa entidade sagrada é o pilar que sustenta a beleza da sua arte literária.
Enquanto escrevo, sou assolado por inúmeras lembranças literárias, de modo que poderia citar Rainer Maria Rilke e sua solidão que atravessa as páginas dos seus escritos, Morris West e suas lutas ideológicas, Thomas Mann e sua preocupação com a palavra adequada, Balzac, Umberto Eco e o francês Exupéry.
Por fim, lembro de Clarice Lispector. A obra clariceana ainda me acompanha e, sempre que possível , leio seus livros cujos sentidos não se esgotam numa primeira leitura. Sua obra é uma mina que quanto mais explora-se, mais ouro dá. Clarice, através da palavra, descreveu a condição sagrada do humano e elevou os conflitos cotidianos à condição sublime de verbo que se faz significado.
domingo, 23 de setembro de 2007
UMA MULHER E UMA UTOPIA

Acredito que contextualizar a crônica e indicar suas condições de produção se faz necessário para o entendimento do ponto de vista que assumo aqui. Desse modo, o texto foi escrito quando ainda era estudante universitário, ligado a movimentos estudantis e com a cabeça fervilhando de idéias e o coração desejoso de sanar as feridas do mundo. Está dito.
Aos 12 de fevereiro de 2005, Ir. Doroty, da Congregação de Notre Dame, despede-se do palco da vida e entra para a história como mártir da causa dos oprimidos. Ela foi friamente assassinada com três tiros a queima-roupa enquanto se dirigia a mais uma reunião onde discutiria o futuro da sua comunidade. Futuro que ela sonhou justo, igualitário e livre. Em vez reunião, um anúncio triste se faz ouvir entre aqueles que, ansiosos, aguardavam suas instruções encorajadoras e palavras de esperança numa manhã sem lágrimas e dor, fome e desespero, opressão e perda da liberdade.
Doroty, durante sua ação missionária em terras brasileiras, lançou a semente da fé no coração de homens e mulheres que se acreditavam vencidos pelo poderosos e descrentes dos seus próprios potenciais de transformação.
Dar vez e voz àqueles que, na história do Brasil, foram feitos pobres, excluídos e marginalizados, foi necessidade constante e, por que nao dizer, inquietante, daqueles que se fizeram arautos da libertação social e histórica, a saber: Chico Mendes, Darci Ribeiro, D. Hélder Câmara, entre outros. Doroty se inclui nesse rol que semeou sonhos no caminho de tantos que já nao sonhavam com dias melhores.
Che Guevara, certa vez, afirmou: "a maior ambição revolucionária é libertar o povo da sua alienação", e foi precisamente isso que Ir. Doroty perseguiu em vida e desejou para o povo brasileiro. Não obstante a injustiça e a desigualdade social grassar o cenário do nosso amado Brasil, temos necessidade premente de que vozes, como a de Doroty, continuem denunciando o autoritarismo do nosso governo, o servilismo do nosso povo alienado e a escravidão daqueles que, penosamente, sofrem quaquer tipo de preconceito, seja racial, religioso ou sexual.
Conformar-se resignadamente às estruturas políticas, econômicas e ideológicas vigentes em nosso país é permitir que essas estruturas se perpertuem socialmente e continuem a reproduzir seus mecanismos de exclusão e miséria. Não basta apenas discutir, escrever e formular soluções abstratas acerca das questões sociais, faz-se necessário uma ação concreta, uma práxis individual e coletiva que funde uma nova ética e, por conseguinte, um novo Brasil, mais inclusivo e igualitário. A revolução proposta por Che Guevara não diz respeito a um discurso abstrato, destituído de força transformadora, mas uma postura cotidiana de protesto às conjunturas autoritárias que oprimem e esmagam o homem sob seus pés iníquos.
Irmã Doroty, nao obstante a idade avançada, demonstrou coragem, lucidez e determinação quando decidiu resolver os problemas sociais do seu povo e, desse modo, devolvê-los a dignidade perdida. Os ícones da libertação sao muitos, e Doroty está entre eles. Mas não é suficiente a admiração anêmica que nao desperta para o engajamento por dias melhores e plenos. A irmã se revestiu da compaixão por todos aqueles que sofrem qualquer agressão aos seus direitos e, assim, se inscreve na história como testemunho vivo no coração dos que foram a razão última da sua ação social, os oprimidos. Além de admirá-la, precisamos nos comprometer como ela e assumir uma postura libertária a fim de que, livres de toda alienação, possamos ver o sol da justiça brilhar sobre nossas cabeças.
terça-feira, 3 de julho de 2007
PALAVRAS SOBRE CLARICE

Pensar Clarice é pensar os limites da condição humana, ou seja, aquele instante em que nos flagramos pressionados pela interpelação que nos chega da realidade, da subjetividade, do mundo espiritual, do outro. Assim sendo, suas personagens travam durante o desenrolar da narrativa uma relação dialética com o seu entorno que as afeta e desconforta porque incomum, inabitual, estranho. A relação com a alteridade é sempre uma relação contraditória, ambígua e tensa que as faz percorrer níveis diferentes de desequilíbrio na busca da felicidade e do conhecimento de si.
A obra de Clarice é marcada pela introspecção e pela sondagem do “eu”. Não um “eu” psicológico, ou seja, um “eu” que se traduz no comportamento do sujeito, mas um “eu” metafísico, que no seu entorno e a partir dele, faz a experiência da transcendência. Em A Paixão Segundo G. H., Clarice Lispector enuncia que “além do mais a ‘psicologia’ nunca me interessou. O olhar psicológico me impacientava e me impacienta, é um instrumento que só transpassa. Acho que desde a adolescência eu havia saído do estágio do psicológico” (1998:26). A experiência metafísica das personagens claricianas consiste na absorção do mundo e de tudo que é humano pelo “eu”. Ela irrompe do cotidiano, do mundo, do outro, da vida e da morte. Nas suas narrativas cada acontecimento humano, mundano e cósmico é integrado à experiência individual e se reveste de um sentido outro que não aquele imediato e efêmero, mas o que desencadeia um fluxo de consciência que lança o personagem num estado de reflexão que leva à inflexão em busca do equilíbrio existencial. Bosi (1995:424) diz que “há na gênese dos seus contos e romances tal exacerbação do momento interior que, a certa altura do seu itinerário, a própria subjetividade entra em crise. O espírito, perdido no labirinto da memória e da auto-análise, reclama um novo equilíbrio”. A auto-análise de que fala Bosi é precedida pela epifania, ou seja, aquele instante que para Umberto Eco apud Sá (2000:175) “lhe recordava demais um ‘momento de visão’, no qual alguma coisa se revela”. Esse momento epifânico é crucial na vida das personagens claricianas, uma vez que é nesse instante-já que há uma tomada de consciência que revela o desejo essencial furtivamente presente em suas vidas.
A relação de Clarice Lispector com a palavra é uma relação metalingüística, pois constantemente reflete, discute, polemiza e põe em questão o próprio ato de escritura, o próprio fazer literário. Olga de Sá (2000:155) afirma:
Já ficou bastante claro como é importante, na obra de Clarice Lispector, a perspectiva metalingüística do narrador. Não só ele questiona o código, quando procura palavras no dicionário e declara que não sabia que na gíria a palavra ‘galinha’ tinha outro sentido. Mas questiona continuamente a própria narrativa, a essência do ato de escrever, enquanto é preciso usar palavras.
A obra de Clarice é marcada pela introspecção e pela sondagem do “eu”. Não um “eu” psicológico, ou seja, um “eu” que se traduz no comportamento do sujeito, mas um “eu” metafísico, que no seu entorno e a partir dele, faz a experiência da transcendência. Em A Paixão Segundo G. H., Clarice Lispector enuncia que “além do mais a ‘psicologia’ nunca me interessou. O olhar psicológico me impacientava e me impacienta, é um instrumento que só transpassa. Acho que desde a adolescência eu havia saído do estágio do psicológico” (1998:26). A experiência metafísica das personagens claricianas consiste na absorção do mundo e de tudo que é humano pelo “eu”. Ela irrompe do cotidiano, do mundo, do outro, da vida e da morte. Nas suas narrativas cada acontecimento humano, mundano e cósmico é integrado à experiência individual e se reveste de um sentido outro que não aquele imediato e efêmero, mas o que desencadeia um fluxo de consciência que lança o personagem num estado de reflexão que leva à inflexão em busca do equilíbrio existencial. Bosi (1995:424) diz que “há na gênese dos seus contos e romances tal exacerbação do momento interior que, a certa altura do seu itinerário, a própria subjetividade entra em crise. O espírito, perdido no labirinto da memória e da auto-análise, reclama um novo equilíbrio”. A auto-análise de que fala Bosi é precedida pela epifania, ou seja, aquele instante que para Umberto Eco apud Sá (2000:175) “lhe recordava demais um ‘momento de visão’, no qual alguma coisa se revela”. Esse momento epifânico é crucial na vida das personagens claricianas, uma vez que é nesse instante-já que há uma tomada de consciência que revela o desejo essencial furtivamente presente em suas vidas.
A relação de Clarice Lispector com a palavra é uma relação metalingüística, pois constantemente reflete, discute, polemiza e põe em questão o próprio ato de escritura, o próprio fazer literário. Olga de Sá (2000:155) afirma:
Já ficou bastante claro como é importante, na obra de Clarice Lispector, a perspectiva metalingüística do narrador. Não só ele questiona o código, quando procura palavras no dicionário e declara que não sabia que na gíria a palavra ‘galinha’ tinha outro sentido. Mas questiona continuamente a própria narrativa, a essência do ato de escrever, enquanto é preciso usar palavras.
A narrativa se desenvolve numa atmosfera em que a o código lingüístico e seu manuseio é fator de especulações filosóficas, bem como de indagações sobre a estreita relação entre palavra e realidade física e subjetiva. Clarice Lispector confere, ao ato de escrever e ao uso da linguagem para criar mundos hipotéticos, a função instigante de revelar(se), a partir do universo íntimo dos seus personagens, as mazelas sociais, os conflitos existenciais, as crises identitárias, as lutas de classes e a dor humana mais contundente, condição necessária para que se possa vislumbrar o sol de um novo dia, repleto de possibilidades de ser.
domingo, 24 de junho de 2007

É noite de São João. Nas ruas, fogueiras; no ar, o som do crepitar da madeira queimando; no céu, balões e fogos de artifício iluminam a noite fria e chuvosa que debulha silêncio e nostalgia. Longe dos grandes centros que concentram multidões que se empilham para ver/ouvir a banda de forró que sacode as massas, preferi a comemoração tradicional do sítio do meu pai. Sem estruturas homéricas que abrigam shows que nada dizem e, cada vez mais, menos dizem, o sítio nos torna mais próximos do essencial: o convívio familiar, a comida típica, a brincadeira, a conversa, o silêncio, a volta. São elementos, a meu ver, fundamentais para que aprendamos a entrever nas malhas desse dia, véspera de São João, centelhas de felicidade que advêm do cotidiano humanizado porque simples e significativo.
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