
Tenho ouvido com frequência reclamações que vêm de professores de Língua Portuguesa acerca da falta ou da deficiência dos alunos em leitura e compreensão de texto. Isso é verificado na dificuldade que os alunos geralmente apresentam em identificar informações no texto, inferir sentidos, relacionar elementos textuais etc. Essa constatação recebe o aval científico de pesquisas que têm sido desenvolvidas na área de Educação e Linguística, de modo que aquilo que é percebido por professores em sua prática didático-pedagógica diária recebe da academia os fundamentos apoiados por uma teoria e uma metodologia que permitem que se faça uma análise sistemática dessa realidade.
Por vezes, eu também julguei precipitadamente o comportamento leitor dos meus alunos e compactuei com a ideia de que eles não estão lendo. Após alguns anos em sala de aula seguidos de leituras e observação acurada da realidade leitora dos alunos, tenho mudado meu ponto de vista. Na verdade, tenho concluído que o aluno lê e o faz em demasia. Inserido num mundo cercado por uma diversidade crescente de linguagens, os jovens alunos deparam-se constamente com banners, cartazes, panfletos,faixas, outdoors, anúncios publicitários, imagens, etc (sem falar na quantidade de linguagens que acessam quando entram na internet). Poderíamos até dizer que há uma profusão e uma poluição de textos e imagens que bombardeiam os jovens leitores, deixando-os sem fôlego para dedicar-lhes uma leitura no sentido pleno da palavra. Isso é comprometedor de um processo que se quer crítico e ativo no sentido bakhtiniano. Mas, por outro lado, essa reicidência de contato com os textos do cotidiano derrubam o mito de que o aluno não lê.

A questão que tenho levantado é que quando se afirma que o aluno não lê, os professores o fazem a partir de um determinado padrão de leitura exigido e estabelecido pela escola que é a leitura dos clássicos. Desse modo, o problema não é a falta de leitura que, como já afirmei e continuo afirmando, o aluno realiza demasiadamente nas interações cotidianas com textos escritos e falados. O problema poderia ser fomulado da seguinte forma: em relação a que tipo de leitura o aluno é considerado um mau leitor? Com isso, não quero defender uma proposta que desconsidera a literatura clássica nas práticas escolares de leitura. Se assim o fizesse, seria incoerente com minha prática, uma vez que recomendo clássicos da literatura em atividades de leitura. Apenas defendo uma mudança de ponto de vista e de atitude diante do aluno, a fim de que não caiamos no desânimo por não conseguirmos êxito em nosso trabalho por acreditarmos que a falta de habilidade em ler e interpretar um Machado de Assis seja indicativo da falta de leitura e inabilidade para compreender todo e qualquer tipo de texto, inclusive o mundo ao seu redor. Acredito que é mais umas questão de excesso de leitura que de falta dela. Como já foi dito, a diversidade de linguagens e textos que se apresentam ao aluno no cotidiano não permite que lhes dedique uma leitura plena, global. Assim, o fato de não ler os clássicos da literatura ou os textos previamente determinados pela instituição escolar, não faz dele um mau leitor. A natureza da leitura não determina o nível de compreensão e o consequente posicionamento diante do mundo. Conheço pessoas que não tiveram leitura nenhuma, mas produzem as mais belas "verdades" acerca do mundo e dos homens (mulheres).






