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sábado, 19 de junho de 2010


Há livros, frases, textos que compõem o acervo da nossa história de leituras e que se atualizam sempre que revisitados. São palavras com as quais temos uma relação especial, seja por que mudaram o rumo das nossas vidas, seja por que participaram de momentos singulares e dos quais conservamos uma memória afetiva. Essas palavras nos construíram e nos impulsionaram a construir a história que partilhamos com os outros, nossos irmãos. Entre tantas palavras que atravessaram meus dias de jovem leitor, encontram-se estas do escritor Morris West:

"Custa tanto ser um homem completo, que existem muito poucos que tenham a sabedoria e a coragem para pagar o preço... Para o conseguir, é preciso abandonar, completamente, a procura de segurança e arriscar-se à vida com ambos os braços. Para o conseguir, é preciso abraçar o mundo como um amante e não esperar um regresso fácil do amor. Para o conseguir, é preciso aceitar a dor como condição da existência. Para o conseguir, tem de se cortejar a dúvida e a escuridão, como preço da sabedoria. Para o conseguir, é preciso ter-se uma vontade férrea ante o conflito, mas sempre apta a aceitar totalmente quaisquer conseqüências da vida ou da morte." (In: As Sandálias do Pescador)

Palavras, palavras e mais palavras... Desejo a você, leitor, um domingo acompanhado por muitas delas.

domingo, 6 de junho de 2010

Com que corpo eu vou?

Este texto foi publicado na Folha de São Paulo de 30 de jun. de 2002. Achei oportuno publicar porque retoma um ponto de vista que assumi num post anterior sobre o controle e a vigilância a que submetemos o corpo. Vale uma leitura!

Que corpo você está usando ultimamente? Que corpo está representando você no mercado das trocas imaginárias, que imagem você tem oferecido ao olhar alheio para garantir seu lugar no palco das visibilidades em que se transformou o espaço público no Brasil? [...] Fique atento, pois o corpo que você usa e ostenta vai dizer quem você é. Pode determinar oportunidades de trabalho. Pode signifiar a chance de uma rápida ascensão social.
Acima de tudo, o corpo que você veste, preparado cuidadosamente à custa de muita ginásticae e dieta, aperfeiçoado por meio de modernas intervenções cirúrgicas e bioquímicas, o corpo que resume praticamente tudo o que restou do seu ser é a primeira condição para que você seja feliz.
Não porque ele seja, o corpo, a sede pulsante da vida biológica. Não porque possua uma vasta superfície sensível ao prazer do toque - a pele, esse invólucro tenso que protege o trabalho silencioso dos órgãos. Não pela alegria com que experimentamos os apetites, os impulsos, as excitações, a intensa e contínua troca que o corpo efetua com o mundo. O corpo-imagem que você apresenta no espelho da sociedade vai determinar sua felicidade não por despertar o desejo ou o amor de alguém, mas por constituir o objeto privilegiado do seu amor-próprio: a tão propalada autoestima, a que se reduziram todas as questões subjetivas na cultura do narcisismo.
Nesses termos, o corpo é ao mesmo tempo o principal objeto de investimento do amor narcísico e a imagem oferecida aos outros - promovida, nas últimas décadas, ao mais fiel indicador da verdade do sujeito, da qual depende a aceitação e a inclusão social. O corpo é um escravo que devemos submeter à rigorosa disciplina da indústria da forma (enganosamente chamada de indústria da saúde) e um senhor ao qual sacrificamos nosso tempo, nossos prazeres, nossos investimentos e o que sobra das nossas suadas economias.

Maria Rita Kehl

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Violência e escola



A violência adentra o ambiente escolar e responde "presente." O que antes era um fato raro de ser presenciado entre dos muros da escola, hoje é uma rotina quase naturalizada. Todas as semanas, estampam-se nos jornais manchetes, notas, notícias sobre casos de agressões sofridas por professores e alunos. O resultado disso é um clima de insegurança que acomete a todos: professores, funcionários, alunos e pais.
Durante esta semana, conversei com alunos da 8ª série do Ensino Fundamental II sobre o assunto e foi proveitoso saber que os medos desencadeados por esse ambiente hostil (mas não só) são compartilhados com aqueles que, na maioria das vezes, são atores nesse cenário que, volta e meia, abriga cenas de xingamento,empurrões, brigas, ofensas de todo tipo, ameaças etc. Durante a partilha de opiniões que concorriam para ver quem expunha primeiro, muitos alunos foram unânimes em atribuir a responsabilidade aos pais (tantas vezes ausentes da vida dos filhos). Outros, por sua vez, atribuíram a responsabilidade às autoridades que ignoram essa realidade e não efetuam mudanças fundamentais, como recuperação das escolas sucateadas e garantia de segurança através da patrulha escolar.
Longe de uma visão determinista que professa que o ambiente faz o indivíduo, acredito que o contato, sempre que possível, com a arte, leituras que favoreçam a crítica da realidade escolar, discussões em sala sobre o tema, cinema e referências humanas contribuem para amenizar os casos de violência que se multiplicam e tomam proporções preocupantes.
A população escolar e pernambucana ficou perplexa com a manchete de um jornal que trazia o caso de uma aluna da escola pública estadual que foi cruelmente agredida com socos, pontapés e cortes no rosto feitos com estilete. O rosto da adolescente, vítima da barbárie, ficou deformado após os golpes de estilete desferidos por aluna da mesma escola. Além do fato atroz, choca-nos a maneira como a Secretaria de Educação tratou o acontecimento. Na imprensa escrita e falada, era perceptível a tentativa da Secretaria em suavizar o peso e a gravidade dos fatos, quando não "tapar o sol com a peneira." Em tempos de eleição, fatos como esse devem ser silenciados para que não compromentam a imagem de governantes que fecham os olhos para uma realidade cada vez mais insuportável e com a qual professores e funcionários são obrigados a conviver todos os dias.

Vale lembrar que a violência não se produz nas escolas. Ela adentra seus muros pelo portão da frente, mas não nasce em seus pátios. O ambiente escolar é o lugar privilegiado da produção de conhecimento, socialização e desenvolvimento humano. Essa consciência deve ser exaustivamente trabalhada com os alunos. Eles têm que aprender a ler o mundo para compreender que violência e escola não combinam e que se excluem drasticamente, uma vez que atitudes de cordialidade e respeito são os parâmetros que permeiam as relações na escola e servem de base para a construção de um mundo melhor.

terça-feira, 18 de maio de 2010

A memória e as coisas


Passei minha infância, adolescência e parte da juventude em Garanhuns, interior de Pernambuco. Hoje moro em Recife e volto a Garanhuns periodicamente para visitar a família que se abriga à sombra das sete colinas que cercam a cidade. Com um clima agradabilíssimo, Garanhuns recebe milhares de turistas durante os meses de junho e julho. A razão é dada pelo clima, férias e o Festival de Inverno que ocorre todos os anos durante o mês de julho. Quem visita a cidade quer voltar e quem nela viveu, não esquece.
Quando volto a Garanhuns bate uma nostalgia dos meus tempos de menino e a impressão que essa saudade deixa é de uma vida vivida. Recordo amigos, lugares, fatos, pessoas... Cada passo dado pela cidade desencadeia uma série de recordações que me fazem acompanhar o desenrolar de uma história que se encontra profundamente enraizada naquelas terras.
Em casa não é diferente. Meus olhos passeiam pela casa dos meus pais e recaem sobre os objetos organizados em meu quarto (minha mãe insiste em conservá-los e mantê-los no mesmo lugar que deixei). Percorro o quarto, abro meu guarda-roupa, mexo em livros, peças de roupa, álbuns, cartas de amigos, abro caixas, vasculho filmes, releio agendas e tudo me lembra um tempo em que fui muito feliz. As coisas têm uma memória; conservam as vivências e dão testemunho da história. Rever minhas coisas, abrir gavetas e desentulhar objetos é reconstruir meu acervo histórico a fim de entender meu presente e projetar o futuro. Em tudo isso, leio o livro da minha história pessoal e compreendo que o sentido das coisas não estão nelas mesmas, mas adquirem seu sentido das relações que estabelecemos com elas a partir do arranjo existencial que cabe a cada um construir.
Ao retornar de Garanhuns, fica aquela certeza de que minha existência não foi vã nem minhas escolhas medíocres. É disso que me convencem os passos dados, as opções feitas e a memória conservada nas coisas. É isso.

sábado, 15 de maio de 2010

Notas sobre o corpo

Nos últimos dias, tenho refletido sobre os diferentes mecanismos de produção de sujeitos a partir das práticas de controle (intervenção) do(no) corpo. Essa reflexão acentuou-se após a leitura de dois textos escritos por Tais Luso (disponível em seu blog "Porto das Crônicas") e pela escritora Lya Luft (publicado na revista Veja).
Não é de hoje que o corpo tem servido a diferentes formas de sujeição e controle. Só para citar um exemplo: na Idade Média, o corpo era submetido a inúmeras práticas de penitência que iam da abstinência do alimento ao ato de inflingir ao corpo um sofrimento físico pela mortificação mediante uso do cilício, dentre outros instrumentos penitenciais. Assim, o penitente, submetido a uma série de orientações, doutrinas e leis morais produzidas ple Igreja, aplicava ao corpo a penitência capaz de restituir sua amizade com Deus mediante a expiação do seu pecado. Desse modo, nos diferentes momentos históricos, o corpo tem sido alvo de ideologias, instituições e mecanismos de poder que intervêm no sentido de manipulá-lo e torná-lo dócil - no dizer de Michel Foucault. Naquilo que temos chamado de pós-modernidade, o corpo é o palco onde desfilam os discursos que tecem suas formas e modelam seus contornos. Esses discursos advêm de diferentes lugares sociais, institucionais, e, aqui, gostaríamos de destacar a mídia como veiculadora de discursos ligados a diferentes instituições que "dizem" sobre o corpo e normatizam sobre o modo de vivenciá-lo. Assim, o corpo é uma construção para o qual convergem os "dizeres" produzidos na história e postos em circulação pela mídia. Por isso, pode-se dizer que o corpo é simbólico e rico de significados que podem ser lidos no livro da história e dos discursos que o constroem.
Constantemente somos bombardeados por propagandas e anúncios que prometem milagres como a volta aos anos dourados da nossa juventude e/ou adolescência; a conquista do corpo exuberante e saudável sem marcas, rugas, estrias, varizes; a possibilidade de escolhermos a cor dos olhos, da pele, dos cabelos e a saúde que nos garantirá vida longa. Sobre o corpo também planejam, desenham, edificam e modelam ,conforme o desejo do cliente. Com promessas de pôr fim à velhice e seus consequentes incômodos, as indústrias produzem remédios, cremes e uma gama de produtos capazes de disfarçar o desgaste dos anos, mas, nunca, de neutralizá-lo. O processo continua acontecendo por trás das camadas cada vez mais espessas de cremes de todo tipo e para todos os fins.



Assim, fazem-nos acreditar que torneando pernas, mudando a cor dos cabelos, definindo o peito e frequentando a academia "da hora" seremos iguais à modelo que todas as semanas sai em todas as capas de revista sob o título "corpo perfeito" ou ao ator que faz sucesso com a mulherada porque nenhum "deus grego" consegue superá-lo. Dizem ainda que, se assim o fizermos, seremos nós mesmos e, enfim, felizes como nunca fomos. Por trás desses discursos, toda uma indústria da massificação produz sujeitos que vivem e pensam da mesma maneira e, a um tempo, apaga as diferenças a fim de jogar para debaixo do tapete as desigualdades que não se escondem sob o acúmulo de plásticas e doses cada vez mais fartas de anabolizantes.



Atendendo à ordens como "Modele hoje seu corpo", "Faça a plástica que sempre sonhou" ou "Coma bem sem neura", acreditamos que temos o controle e a iniciativa das nossas ações quando não passamos de soldadinhos que encontram-se à mercê das instruções da mídia. Abrimos os jornais e lá estão os anúncios tentadores de produtos que alteram a forma corporal; acessamos a internet e as ofertas de serviços a favor do corpo perfeito são inúmeras; andamos pela rua e outdoors, banners e panfletos nos convencem que somos sempre um pouquinho menos bonitos que o cara que posa num anúncio de calças de grife. O resultado disso é um sem número de neuróticos, insatisfeitos, desesperados porque não conseguem atingir o padrão exigido e único capaz de tornar a todos felizes e plenos. Sob pretexto de que estamos cuidando do corpo porque nos amamos, aplicamos uma vigilância severa e o esculpimos sem descanso. Essa é a senha para fazermos parte daquela parcela da sociedade considerada normal, embora o preço seja a diluição da identidade em fôrmas que reproduzem um único modo de encarnar a vida e se relacionar com o corpo. Será que é assim que tem que ser? Ou somos porque nos dizem que temos que ser desta ou daquela maneira? Nesse emaranhado de discursos, dizeres, sentidos e ideologias até esquecemos quem somos e passamos a ser a mulher da capa de revista ou o cara do outdoor. Nada mais além disso. Lutamos tanto para sermos diferentes e não passamos de iguais que se perdem por não afirmar a diferença que nos faz singulares. Ser singular... Essa é toda beleza.

domingo, 25 de abril de 2010

Amizade: encontro e partilha



Certa vez, um amigo escreveu que uma verdadeira amizade ou nasce no espaço de um relâmpago ou nunca nascerá. À época, dada nossa afinidade, fiquei encantado com essas palavras e era como se, através daquela declaração, visse retratada nossa própria história de amizade. Depois dessa experiência, procurei amigos e, no encontro com cada um deles, via as palavras do meu velho amigo se atualizarem como as águas de uma fonte que parecem as mesmas, mas inauguram sua novidade a cada experiência que temos delas. Embora as palavras do meu amigo se façam presentes em cada pessoa que cativo, a experiência não é a mesma, porque cada amor de amizade é único, irrepetível e traz a permanente alegria de uma música que enche os ouvidos, um livro que dilata o coração ou um espetáculo do crepúsculo num fim de tarde. Isso não tem teoria que explique nem metodologia que diga como deve ser feito. Apenas acontece.

Perdemos a capacidade de nos admirarmos com aquilo que faz da vida o lugar da festa; a festa do encontro cotidiano, da partilha da vida e dos passos que ficam pelo caminho. Lemos O Pequeno Príncipe e esquecemos sua mensagem, embora seja urgente para os dias de hoje. Vale lembrar que, nesse livro, o ensinamento da raposa “só se vê bem com o coração” não é mero sentimentalismo, mas condição imprescindível para que sobrevivamos todos os dias nesta terra de granito. Ou recuperamos essa capacidade de nos encantarmos pela vida, pelo outro, por aquilo que faz nossos dias, ou nos perderemos todos juntos. Segundo Clarice Lispector, esta é a verdadeira experiência de salvação: amor de amizade.



Amigo é antes de tudo alguém que não julga. É alguém que abre para você uma porta que talvez, jamais, abriria para um outro.

(Saint-Exupéry)

Na minha janela uma luz ficará acesa. Os braços do amigo estarão esperando.

(João XXIII, papa)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um olhar sobre o feminino na literatura brasileira


Dando sequência ao post anterior que traz considerações sobre a obra A Hora da Estrela de Clarice Lispector, trago algumas palavras sobre Francisca Júlia, expoente da literatura de autoria feminina ainda desconhecida de muitos leitores.
Francisca Júlia da Silva nasceu em Xiririca(SP) no ano de 1871. Aos 14 anos, estréia como poetisa e aos 24 anos escreve seu primeiro livro, Mármores, obra prefaciada por João Ribeiro, consagrado crítico da época. Mais tarde, no ano de 1903, publica Esfinges, onde acrescenta alguns poemas inéditos aos já editados no primeiro livro. Escreve ainda dois livros em parceria com o irmão Júlio César da Silva: Livro da Infância (1899) e Alma Infantil (1912). Colaborou com jornais como O Estado de São Paulo, Correio Paulistano e Diário Popular, e periódicos do Rio de Janeiro com destaque para as revistas O Álbum e A Semana, especialmente.
A produção literária de Francisca Júlia arrancou daquele que foi o Príncipe dos Poetas, Olavo Bilac, as seguintes palavras de elogio e reconhecimento emocionado:
“Em Francisca Júlia surpreendeu-me o respeito pela língua portuguesa, – não que ela transporte para a sua estrofe brasileira a dura construção clássica: mas a língua doce de Camões, trabalhada pela pena dessa meridional, – que traz para a arte escrita todas as suas delicadezas de mulher, toda a sua faceirice de moça, nada perde
da sua pureza fidalga de linhas. O português de Francisca Júlia é o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura”.
A poetisa foi parnasiana e simbolista; ora escrevia de acordo com a estética característica do Parnasianismo, ora aos moldes do Simbolismo.Como autêntica representante da escola que cultuou a forma, a beleza estética e a arte clássica, esmerou-se em provar que mulher sabia fazer poesia e poesia de qualidade e, desse modo, foi comparada à tríade parnasiana formada por Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira e assemelhou-se a Heredia com os sonetos “Dança das centauras” e “Os argonautas”. Frustrando todas as expectativas, foi em suas mãos que a lira parnasiana encontrou a perfeita concretização das condições que o Parnasianismo francês, em tese, reclamava. A esse respeito, asseverou o crítico Péricles Eugênio: “(...) com efeito, é plástica e sonora; a poetisa professou a arte pela arte, conheceu o 'mot juste', desejou a austeridade formal e sobretudo timbrou em ser impassível, coisa de que os outros parnasianos brasileiros não fizeram questão”.
A despeito da singularidade da sua obra, Francisca Júlia não ocupa o lugar de destaque que lhe é devido nos livros didáticos, história da literatura e antologia literária. O desconhecimento da exímia poetisa é quase que completo nos cursos do ensino fundamental, médio e superior. Pesquisas realizadas em bibliotecas da cidade de Garanhuns(PE) dão provas suficientes do esquecimento dessa que foi um marco na literatura de língua portuguesa e que fez o prefaciador dos seus livros, João Ribeiro, declarar:
“Nem aqui, nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhe são positivamente inferiores no estro, na composição e fatura do verso, nenhum possui em tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa frieza severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa”.
O silenciamento a que a mulher do século XIX foi submetida se estende aos dias atuais quando vozes poéticas, como a de Francisca Júlia, desaparecem do cenário da literatura brasileira, das bibliotecas, escolas, universidades e da memória do povo.
Sobre os versos cuidadosamente arquitetados pela “Musa Impassível”, afirmou Júlio Ribeiro, “sua poesia enérgica, vibrante, trazia a veemência de sonoridades estranhas, nunca ouvidas, uma música nova que as cítaras banais do nosso Olimpo nos haviam desacostumado”. Abaixo, um pouco da poesia de Francisca Júlia:

MUSA IMPASSÍVEL I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho, e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave o idílico descante.
Celebra ora um fantasma angüiforme de Dante;
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

Mármores (1895)

sábado, 17 de abril de 2010

Uma leitura da construção de gênero em A Hora da Estrela



O romance A Hora da Estrela, escrito por Clarice Lispector em 1977, representa uma inovação estilística e de conteúdo ao se deslocar do universo íntimo para a realidade objetiva e tocar, desse modo, questões sociais de maneira mais explícita e declarada. O próprio narrador-personagem, Rodrigo S.M., afirma que se trata de história exterior e explícita (HE, p.33). A personagem-protagonista criada por Rodrigo S.M. chama-se Macabéa, mas atende por Maca, alusão aos macabeus, personagens bíblicas. Nordestina oriunda do estado de Alagoas, muda-se para o Rio de Janeiro onde alimenta o sonho de ser estrela de cinema e tem em Marylin Monroe sua referência de beleza e status social. Divide um quarto de pensão com quatro moças que paga trabalhando como datilógrafa. Namora Olímpico de Jesus, também nordestino, que trabalha como metalúrgico e aspira ascender socialmente. No decorrer da narrativa, Macabéa perde Olímpico para Glória, sua única amiga, pois esta possuía os atrativos materiais ambicionados por ele. A hora da estrela para Macabéa se dá quando é atropelada por um Mercedez Benz.
No romance de Clarice Lispector, Macabéa e Olímpico são representantes dos papéis atribuídos ao longo da história a homens e mulheres e que, por sua vez, têm na baliza de verniz sócio-cultural os parâmetros bem delimitados da sua construção. Macabéa é mulher, nordestina, medíocre, solitária, submissa e virgem. Olímpico é homem, nordestino (logo, cabra da peste), esperto, ambicioso e dominador. Essas características não são dadas por acaso, mas obedecem a toda uma lógica sócio-cultural-discursiva que tem origem no chão social em que pisam as personagens.
Macabéa é uma desconhecida de si mesma. Ignorante de sua identidade, ela não se conhece senão de ir vivendo à toa (HE, p. 35). Aprendeu a ser assim, como é. Nunca se perguntou: quem sou eu?, e se um dia o fizesse cairia estatelada e em cheio no chão (HE, p.36). Os tijolos que compõem seu edifício pessoal e sua feminilidade não foi ela quem os colocou, antes foram colocados pelos discursos que a gestaram, conceberam e ensinaram a ser como é, incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si mesma. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim” (HE, p.45). Ela é indiferente e ignora a própria identidade porque não a construiu nem foi-lhe dada oportunidade de participar desse processo. Ela não nasceu de si, mas da convenção social que a aguardava antes mesmo de vir ao mundo. Esse mundo fora dela já definira para si seu lugar social, suas atribuições profissionais (vale lembrar que ela é datilógrafa) e seu comportamento, (...) ela é doce e obediente (HE, p.47).

As implicâncias de gênero se fazem sentir a princípio no seu nome abreviado, Maca. Esse apelido é, “graficamente, quase idêntico à Maçã, sem os adornos sinuosos do til e da cedilha” (SÁ, 2000:271). Apesar de não trazer os enfeites gráficos da palavra maçã porque ela era subterrânea e nunca tinha tido floração (HE, p.52), a semelhança remete-nos ao fruto proibido que, segundo o relato bíblico, levou à queda de todo o gênero humano quando Eva e Adão o comem. Ambos pecam e são expulsos do paraíso, mas é sobre a mulher que recai o estigma da fraqueza moral. A culpa é culpa da mulher e não do homem. Macabéa traz esse estigma, de certo modo, representado na abreviatura do seu nome e entranhado nas vísceras da sua parca existência.
Após a morte de seus pais, ela passa a viver com uma tia que, além de maltratá-la, ensina-lhe a cartilha do comportamento social adequado às mulheres, de modo que, do contacto com a tia ficara-lhe a cabeça baixa (HE, p.50) e se lhe dava cascudos na cabeça era por que considerava de dever seu evitar que a menina viesse um dia a ser uma dessas moças que em Maceió ficavam nas ruas de cigarro aceso esperando homem (HE, p.49), além de que a queria para varrer o chão (HE, p.54). Assim sendo, Macabéa é talhada para ser ingênua, inocente e obediente. Seu mérito está em baixar a cabeça e obedecer resolutamente. Ela torna-se mulher na medida em que se enquadra pouco a pouco nos padrões sociais pré-determinados para aquelas que dividem consigo o mesmo chão. Age de modo automático, mecânico, irracional, ao ponto de esse não-saber pode parecer ruim mas não é tanto porque ela sabia muita coisa assim como ninguém ensina cachorro a abanar o rabo e nem a pessoa a sentir fome; nasce-se e fica-se logo sabendo (HE, p.50). Macabéa, embora o fato de vir a ser uma mulher não pertencesse à sua vocação (HE, p.49), aprendia, pouco a pouco, a sê-la.
Macabéa vê desfilar nas páginas da sua vida o discurso que a sociedade androcêntrica produz sobre a mulher, e introjeta a imagem construída por seus dominadores. A normatização e o controle social exercido sobre sua feminilidade faz com que se revista dos símbolos sócio-culturais que identificam o feminino na história. Sua satisfação está em reproduzir cotidianamente o papel imposto pela “casta” superior e concretizar na sua existência rala o projeto identitário silenciosamente gestado no útero da cultura. Rodrigo S.M. diz-nos que só depois é que pensava com satisfação: sou datilógrafa, e virgem, e gosto de coca-cola. Só então vestia-se de si mesma, passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser (HE, p. 58).
A Hora da Estrela é um livro merecedor de releituras que, longe de esgotá-lo, abrem para possibilidades de sentidos ainda não desvelados.

sábado, 10 de abril de 2010

Quando a leitura é proibida


Embora já faça algum tempo, a notícia do recolhimento de 136.000 exemplares do livro Aventuras Provisórias das escolas públicas de Florianópolis ainda ressurge em minha cabeça e incomoda como um indesejável espinho no pé. O livro é do escritor catarinense Cristovão Tezza e ganhou vários prêmios que notabilizaram a obra e projetaram o nome de Tezza no cenário literário nacional. Até então, conhecia Tezza apenas pelos artigos publicados no campo da Linguística. Ele tem reflexões notáveis sobre o pensamento do filósofo russo, Mikhail Bakhtin. Trago essa memória para retomar um tema já tratado em outro post: o controle da instituição escolar sobre os livros e a leitura. Esse controle estende-se aos sentidos permitidos e legitimados pela instituição em detrimento daqueles considerados errados, toscos, desviantes ou subversivos.
A Gerência Regional de Educação do Sul de Santa Catarina justificou dizendo que o livro trazia muitos palavrões e descrevia atos sexuais. O que poderia ser uma justificativa tranquilizadora tornou-se alvo de inúmeras críticas que passaram pelo despreparo dos professores em discutir com os alunos do Ensino Médio da educação pública questões que são recorrentes na escola, bem como as novas formas de censura. Li vários posts em blogs literários que versavam sobre o assunto. Pensando cá com meus botões, acrescento uma outra motivação que não se encaminha pelo despreparo da escola e do corpo docente em lidar com o conteúdo da obra nem pela censura, mas pelo controle ideológico que se quer impor a qualquer tipo de comportamento subversivo que influencia atitudes que ameaçam desmantelar a ordem vigente. É isso que, de certo modo, encontra-se virtualmente presente na prática de falar palavrões: a ruptura com o instituído. O que estou focando aqui não é a prática em si, mas aquilo que ser quer evitar ao reprimir uma determinada prática ou proibir que se entre em contato com ela, mesmo que seja no universo literário. Não quero pôr em discussão o juízo de valor (correto/incorreto; moral;imoral/educado/mal educado) que socialmente se faz da prática de falar palavrões. Minha intenção é fazer refletir acerca dos mecanismos de controle e manutenção de uma ordem que se perpetua pela reprodução de práticas e conceitos que nunca são questionados nem subvertidos. O palavrão é justamente aquela ação que subverte uma ordem que não se quer ver alterada, transformada, abalada. Nesse caso, evitar o palavrão ou o contato com ele é apenas representativo de um mecanismo de poder que quer a todo custo, como diria Foucault, tornar os corpos dóceis, servis, adequados, e facilmente manipuláveis. Assim sendo, permitir que alunos em formação entrem em contato com personagens que subvertem um determinado estado de coisas ou uma norma social é prepará-los para futuras atitudes subversivas; é despertar neles a consciência de que aquilo que parece ser a ordem natural e peremptória para todos é passível de resistências e transformação. A fim de que isso não aconteça, a escola, instituição reprodutora da ideologia dominante, vigia e higieniza o ambiente escolar e a cabeça dos alunos para que a ordem estabelecida pelas classes dominantes prossiga entre nós sem problemas.



É uma pena que os alunos do Ensino Médio de Florianópolis tenham, entre outras coisas, perdido a oportunidade única de aprenderem com a literatura - e com os palavrões trazidos para a reflexão séria e consequente - a fantástica possibilidade que todo humano carrega de recriar aquilo que está posto, estabelecido como a única realidade possível. Embora queiram nos fazer acreditar que "sempre foi assim e assim deve ser pelos séculos vindouros", a arte literária nos coloca diante de uma outra porta: aquela que nos mostra que somos essencialmente seres de protest-ação na definição de Leonardo Boff e capazes de um mundo possível, mesmo que uma "aventura provisória." É apenas uma leitura (entre outras possíveis).

domingo, 28 de março de 2010

Quando a natureza mata



Outro texto que vale uma leitura atenta é este da escritora Lya Luft.

Quando a natureza mata

Menina do interior, tive a natureza como presença enorme em torno de casa e por toda a pequena cidade: paisagem, abrigo, fascinação, surpresa, escola de permanência, e também de transitoriedade. Mantive um laço estreito com esse universo, e quando posso durmo de janelas e cortinas abertas, para sentir a respiração do mundo. Porém, cedo também também aprendi que a mãe natureza pode ser cruel. Granizo perfurando folhas e arrasando a horta, geada castigando flores, raios matando gente. De longe, ouvia falar em terremoto, quando o vasto mundo ainda era distante. Agora que o mundo ficou minúsculo, porque o Haiti arrasado, o Chile destruído e a Europa nevada estão ao alcance do meu dedo no computador ou no controle da televisão, a velha mãe se manifesta em estertores que podem ser apenas normais (o clima da Terra sempre mudou, às vezes radicalmente, antes de virmos povoar este planeta), mas também podem ser rosnados de protesto, "ei, que estão fazendo comigo essas pequenas cracas que se instalaram sobre minha pele?"
Mas a natureza nao mata apenas com enchentes, deslizamentos, terremotos e tsunamis. Mata pela mão dos humanos, o que pode parecer um fato em escala menor, mas é bem mais preocupante. Homens, mulheres, e meninos-bomba quase diariamente se explodem levando consigo dezenas de vidas inocentes: pais de família, mães ou crianças, mulheres fazendo as feiras, jovens indo para a escola. Bandidos incendeiam um ônibus com passageiros dentro: dois morrem logo, outros vários curtem em hospitais o grave sofrimento dos queimados. Não tinham nada a ver com a bandidagem, estavam apenas indo para o trabalho, ou vindo dele. Assaltantes explodem bancos em cidades do interior antes tranquilas. Criminosos sequestram casais ou famílias inteiras e os submetem aos maiores vexames e terror. Como está virando costume, a gente agradece por escapar com vida.
Duas mães deixam num barraco imundo cinco crianças, algumas com menos de 6 anos. Sem comida, sem força, sem presença, sem a menor higiene. O policial que se encontra leva duas menorzinhas para casa, onde sua mulher lhes dá banho e comida. As crianças, de tão fracas, mal conseguem se alimentar. O homem chora: tem três filhos pequenos, e há algum tempo perdeu uma filhinha. A maldade humana agride até esse homem que com ela deve ter frequente contato.
A natureza, da qual fazemos parte, mata com muito mais crueldade através de nós do que através do clima ou de movimento de terra, e de maneira bem mais assustadora: pois nós pensamos enquanto prejudicamos nosso semelhante. Temos a intenção de atormentar, torturar, matar, mesmo que em vários casos seja uma consciência em delírio - estamos tão drogados que achamos graça de tudo. Mas somos responsáveis por nos termos drogados.
De modo que, como me dizia um amigo, o ser humano não tem jeito, não. Ou: esse é o nosso jeito, a nossa parte na natureza. De um lado, os cuidadores, que vão de pais e mães até médicos e enfermeiras; do outro lado, os destruidores, que são os bandidos, mas também (que tristeza) eventualmente pais e parentes. E contra eles, tanto ou mais do que contra a natureza não humana, somos impotentes. O que faz a criança diante do abandono materno? Em relação ao pai, tio ou irmão estuprador? O que fazem passageiros de um ônibus, pacíficos e cansados, diante do terror imposto por bandidos? Nada. Migalhas humanas soterradas por maldade e frieza, como num terremoto ou tsunami somos soterrados pela lama, pelos destroços, pelas águas.
Resta filosofar um pouco: de que vale a vida, quanto vale a minha, e como a usamos, se é que pensamos nisso? Pensar pode ser meio chato, e ainda por cima traz alguma inquietação. A natureza poderosa, encantadora e cruel também somos nós: que a gente não fique dos lado dos animais assassinos, como a orca, que depois de matar três pessoas continua, como foi anunciado, "fazend parte do time", no parque americano.
Antes de usar um adesivo "salve as baleias", eu quero um adesivo "salve as pessoas, que são parte da natureza."

LUFT, Lya. Quando a natureza mata. In: Revista Veja, ed. 2156, 2010.