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segunda-feira, 29 de outubro de 2007

"Noite"


Há uma composição de Antônio Cícero e Orlando Morais, interpretada por Adriana Calcanhoto no CD Cantada, que tem me chamado particular atenção nos últimos dias. Comprei o CD recentemente e ouvi todas as músicas assim que cheguei em casa. A voz melodiosa e aveludada de Adriana Calcanhoto nos deixa inertes, sob o efeito letárgico dos acordes do violão e das canções magistralmente compostas. Já adormecia quando escutei as primeiras notas do piano de Daniel Jobim que encheram o quarto de uma melodia serena, nostálgica. Em seguida, Adriana começa a cantar a poesia abaixo:


Noite
Vêm lá do canal
Reverberações
Do ladrar de um cão.
Uma dessas noites
Tudo vai embora:
Leve-nos,
Ladrão.
Abre-se o sinal
Sem ninguém passar.
É melhor ser vão
Tudo o que pontua
Nossa escuridão.


Eu, atento, escutava a música como quem recolhe orvalho, ou seja, gota a gota. Silencioso e com a atenção toda voltada para a canção fui recriando imaginariamente a situação figurada que letra e som sugerem. No momento que Adriana canta "Abre-se o sinal. Sem ninguém passar" fui tomado pela imagem de alguém num carro aguardando o sinal abrir sem outros ao seu lado, sozinho. Porém, quando o sinal abre a pessoa permanece parada, pois a desilução a impedem de progredir. Ela permanece estagnada, absorta em seus pensamentos, como alguém que está prestes a desistir de si mesmo. É uma imagem doída, envolta em solidão e escuridão. O som do piano acentua esse estado de alma e favorece a construção de uma imagem triste e sofrida.

De repente, acordei do êxtase provocado pelos recursos estilísticos e sonoros da canção e lembrei do escritor australiano Morris West quando seu personagem, o papa Kiril, escreve as seguintes palavras no seu diário pessoal: "O verão aproxima-se, mas há muitos homens sós e perdidos, para quem a vida é um contínuo inverno." O personagem da música atravessa esse inverno feito de garoa e névoa que turva a visão e fecha o caminho como uma cortina de cedro.

Essas foram minhas impressões da música "Noite". Por falar nisso, adentrei a noite e nem percebi que é hora de abandonar as palavras como foi abandonado o personagem do poema. É hora de dormir e deixar que o personagem da canção e as palavras encontrem um sentido que não seja idílico nem por demais real para que continuem construindo, desejando, chorando, mas caminhando.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

LEITURAS


Hoje voltei do colégio acompanhado da recordação insistente de alguns livros que li. Na ocasião, lembrei que algumas leituras foram determinantes na construção da minha história pessoal. Algumas, em particular, estimularam decisões e/ou modelaram minha consciência. A bem da verdade, eu sou os livros que li. E não foram poucos...

Os personagens e as tramas do alemão Herman Hesse influenciaram-me sobremaneira. A inquietação espiritual e material dos seus personagens eram, na época, também as minhas. Há um desejo constante nas personagens de Hesse de desbravar mundos, conhecer-se e reconhecer-se nas experiências que travam e no contato com o outro. Por isso, o personagem hessiano é alguém que se move, se desloca, porque o conhecimento de si requer o contato com a exterioridade, com o entorno. Mas esse deslocamento não se dá apenas objetivamente, mas subjetivamente, uma vez que é no diálogo, luta e confronto interior que fazemos a experiência daquilo que nos orienta e impulsiona: o desejo. O trajeto que conduz à libertação pessoal é feito de um equilíbrio que desmorona para ser reconstruído num novo patamar de consciência de si mesmo, do outro, do Mistério e do seu lugar no mundo. A leitura de Herman Hesse, um defensor inflamado da liberdade pessoal, fez com que eu tivesse a força e a coragem de caminhar por entre os vales e pântanos que me fazem.

O inglês Oscar Wilde é um escritor dono de uma maneira única e inconfundível de escrever. As reflexões filosóficas que perpassam sua obra não passam despercebidas pelos olhos e mente do leitor. A cada questão colocada, o leitor pára e volta-se sobre si num movimento contínuo de introspecção reflexiva sobre aspectos fundamentais da condição humana. Wilde elegeu a trangressão como personagem principal da sua obra, e o culto a essa entidade sagrada é o pilar que sustenta a beleza da sua arte literária.

Enquanto escrevo, sou assolado por inúmeras lembranças literárias, de modo que poderia citar Rainer Maria Rilke e sua solidão que atravessa as páginas dos seus escritos, Morris West e suas lutas ideológicas, Thomas Mann e sua preocupação com a palavra adequada, Balzac, Umberto Eco e o francês Exupéry.

Por fim, lembro de Clarice Lispector. A obra clariceana ainda me acompanha e, sempre que possível , leio seus livros cujos sentidos não se esgotam numa primeira leitura. Sua obra é uma mina que quanto mais explora-se, mais ouro dá. Clarice, através da palavra, descreveu a condição sagrada do humano e elevou os conflitos cotidianos à condição sublime de verbo que se faz significado.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

domingo, 23 de setembro de 2007

UMA MULHER E UMA UTOPIA


Acredito que contextualizar a crônica e indicar suas condições de produção se faz necessário para o entendimento do ponto de vista que assumo aqui. Desse modo, o texto foi escrito quando ainda era estudante universitário, ligado a movimentos estudantis e com a cabeça fervilhando de idéias e o coração desejoso de sanar as feridas do mundo. Está dito.



Aos 12 de fevereiro de 2005, Ir. Doroty, da Congregação de Notre Dame, despede-se do palco da vida e entra para a história como mártir da causa dos oprimidos. Ela foi friamente assassinada com três tiros a queima-roupa enquanto se dirigia a mais uma reunião onde discutiria o futuro da sua comunidade. Futuro que ela sonhou justo, igualitário e livre. Em vez reunião, um anúncio triste se faz ouvir entre aqueles que, ansiosos, aguardavam suas instruções encorajadoras e palavras de esperança numa manhã sem lágrimas e dor, fome e desespero, opressão e perda da liberdade.

Doroty, durante sua ação missionária em terras brasileiras, lançou a semente da fé no coração de homens e mulheres que se acreditavam vencidos pelo poderosos e descrentes dos seus próprios potenciais de transformação.

Dar vez e voz àqueles que, na história do Brasil, foram feitos pobres, excluídos e marginalizados, foi necessidade constante e, por que nao dizer, inquietante, daqueles que se fizeram arautos da libertação social e histórica, a saber: Chico Mendes, Darci Ribeiro, D. Hélder Câmara, entre outros. Doroty se inclui nesse rol que semeou sonhos no caminho de tantos que já nao sonhavam com dias melhores.

Che Guevara, certa vez, afirmou: "a maior ambição revolucionária é libertar o povo da sua alienação", e foi precisamente isso que Ir. Doroty perseguiu em vida e desejou para o povo brasileiro. Não obstante a injustiça e a desigualdade social grassar o cenário do nosso amado Brasil, temos necessidade premente de que vozes, como a de Doroty, continuem denunciando o autoritarismo do nosso governo, o servilismo do nosso povo alienado e a escravidão daqueles que, penosamente, sofrem quaquer tipo de preconceito, seja racial, religioso ou sexual.

Conformar-se resignadamente às estruturas políticas, econômicas e ideológicas vigentes em nosso país é permitir que essas estruturas se perpertuem socialmente e continuem a reproduzir seus mecanismos de exclusão e miséria. Não basta apenas discutir, escrever e formular soluções abstratas acerca das questões sociais, faz-se necessário uma ação concreta, uma práxis individual e coletiva que funde uma nova ética e, por conseguinte, um novo Brasil, mais inclusivo e igualitário. A revolução proposta por Che Guevara não diz respeito a um discurso abstrato, destituído de força transformadora, mas uma postura cotidiana de protesto às conjunturas autoritárias que oprimem e esmagam o homem sob seus pés iníquos.

Irmã Doroty, nao obstante a idade avançada, demonstrou coragem, lucidez e determinação quando decidiu resolver os problemas sociais do seu povo e, desse modo, devolvê-los a dignidade perdida. Os ícones da libertação sao muitos, e Doroty está entre eles. Mas não é suficiente a admiração anêmica que nao desperta para o engajamento por dias melhores e plenos. A irmã se revestiu da compaixão por todos aqueles que sofrem qualquer agressão aos seus direitos e, assim, se inscreve na história como testemunho vivo no coração dos que foram a razão última da sua ação social, os oprimidos. Além de admirá-la, precisamos nos comprometer como ela e assumir uma postura libertária a fim de que, livres de toda alienação, possamos ver o sol da justiça brilhar sobre nossas cabeças.

terça-feira, 3 de julho de 2007

PALAVRAS SOBRE CLARICE


Pensar Clarice é pensar os limites da condição humana, ou seja, aquele instante em que nos flagramos pressionados pela interpelação que nos chega da realidade, da subjetividade, do mundo espiritual, do outro. Assim sendo, suas personagens travam durante o desenrolar da narrativa uma relação dialética com o seu entorno que as afeta e desconforta porque incomum, inabitual, estranho. A relação com a alteridade é sempre uma relação contraditória, ambígua e tensa que as faz percorrer níveis diferentes de desequilíbrio na busca da felicidade e do conhecimento de si.
A obra de Clarice é marcada pela introspecção e pela sondagem do “eu”. Não um “eu” psicológico, ou seja, um “eu” que se traduz no comportamento do sujeito, mas um “eu” metafísico, que no seu entorno e a partir dele, faz a experiência da transcendência. Em A Paixão Segundo G. H., Clarice Lispector enuncia que “além do mais a ‘psicologia’ nunca me interessou. O olhar psicológico me impacientava e me impacienta, é um instrumento que só transpassa. Acho que desde a adolescência eu havia saído do estágio do psicológico” (1998:26). A experiência metafísica das personagens claricianas consiste na absorção do mundo e de tudo que é humano pelo “eu”. Ela irrompe do cotidiano, do mundo, do outro, da vida e da morte. Nas suas narrativas cada acontecimento humano, mundano e cósmico é integrado à experiência individual e se reveste de um sentido outro que não aquele imediato e efêmero, mas o que desencadeia um fluxo de consciência que lança o personagem num estado de reflexão que leva à inflexão em busca do equilíbrio existencial. Bosi (1995:424) diz que “há na gênese dos seus contos e romances tal exacerbação do momento interior que, a certa altura do seu itinerário, a própria subjetividade entra em crise. O espírito, perdido no labirinto da memória e da auto-análise, reclama um novo equilíbrio”. A auto-análise de que fala Bosi é precedida pela epifania, ou seja, aquele instante que para Umberto Eco apud Sá (2000:175) “lhe recordava demais um ‘momento de visão’, no qual alguma coisa se revela”. Esse momento epifânico é crucial na vida das personagens claricianas, uma vez que é nesse instante-já que há uma tomada de consciência que revela o desejo essencial furtivamente presente em suas vidas.
A relação de Clarice Lispector com a palavra é uma relação metalingüística, pois constantemente reflete, discute, polemiza e põe em questão o próprio ato de escritura, o próprio fazer literário. Olga de Sá (2000:155) afirma:

Já ficou bastante claro como é importante, na obra de Clarice Lispector, a perspectiva metalingüística do narrador. Não só ele questiona o código, quando procura palavras no dicionário e declara que não sabia que na gíria a palavra ‘galinha’ tinha outro sentido. Mas questiona continuamente a própria narrativa, a essência do ato de escrever, enquanto é preciso usar palavras.


A narrativa se desenvolve numa atmosfera em que a o código lingüístico e seu manuseio é fator de especulações filosóficas, bem como de indagações sobre a estreita relação entre palavra e realidade física e subjetiva. Clarice Lispector confere, ao ato de escrever e ao uso da linguagem para criar mundos hipotéticos, a função instigante de revelar(se), a partir do universo íntimo dos seus personagens, as mazelas sociais, os conflitos existenciais, as crises identitárias, as lutas de classes e a dor humana mais contundente, condição necessária para que se possa vislumbrar o sol de um novo dia, repleto de possibilidades de ser.

domingo, 24 de junho de 2007


É noite de São João. Nas ruas, fogueiras; no ar, o som do crepitar da madeira queimando; no céu, balões e fogos de artifício iluminam a noite fria e chuvosa que debulha silêncio e nostalgia. Longe dos grandes centros que concentram multidões que se empilham para ver/ouvir a banda de forró que sacode as massas, preferi a comemoração tradicional do sítio do meu pai. Sem estruturas homéricas que abrigam shows que nada dizem e, cada vez mais, menos dizem, o sítio nos torna mais próximos do essencial: o convívio familiar, a comida típica, a brincadeira, a conversa, o silêncio, a volta. São elementos, a meu ver, fundamentais para que aprendamos a entrever nas malhas desse dia, véspera de São João, centelhas de felicidade que advêm do cotidiano humanizado porque simples e significativo.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

UMA AMIZADE SINCERA (Clarice Lispector)


Sei que o texto é longo, mas vale um post e uma leitura. Falar do meu amor pela obra clariceana é desnecessário, pois, aqueles que me conhecem, sabem que não saio de casa sem um livro de Clarice Lispector. Quando li esse conto pela primeira vez contava com pouco mais de 13 anos, mas entendi bem sua mensagem. O texto foi apresentado por um amigo que se despediu da minha vida tal qual o personagem do conto. Assim, dedico esse post aos amigos que permanecem nutrindo a certeza de que "somos amigos, amigos sinceros".

Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de um amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.
Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seus amores. Experimentávamos ficar calados — mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.
Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes. Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.
Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto — eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.
Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.
Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.
Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco.
Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.
Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.
Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.
Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.
É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tomamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade — posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.
Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.
Encerrada a questão com a Prefeitura — seja dito de passagem, com vitória nossa — continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? Mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.
Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.
A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.

("Felicidade Clandestina", 1998)

sábado, 3 de março de 2007

Mais uma crônica do mestre Paulo Gervais



"E os que não marcham, nem sacolejam, nem vão atrás dos trios elétricos?"


Sábado. Fui a uma loja no centro da cidade para fazer umas compras. Primeiro ao me dirigir ao vendedor da loja, senti que quase gritava e que ele tinha dificuldade para entender o que eu queria; depois eu mesmo corria pelos corredores da loja como se estivesse fugindo de alguma coisa, e ele inquietava-se tentando inutilmente atinar com os detalhes do meu pedido. Na hora de fazer o pagamento, a fila, com apenas uma pessoa na minha frente, parecia ter cem e demorar-se infinitamente para andar, e a atendente olhava-me compadecida, quase pedindo desculpas. Eu suava. O cenho franzido, os olhos quase fechados. O coração batendo numa aceleração de bicho acuado, disposto a correr ou a matar. O que eu via e ouvia que me deixava assim não devia me deixar assim e mais do que isto: fazia promessas de pacificar o meu espírito! Levantado num palco, adornado por indefectíveis bolas de sopro (Ó coloridos ventos!!) e abastecido por enormes caixas e instrumentos de som, alguém gritava (ainda que dissesse estar cantando...). E se era para me convencer de alguma coisa, suas palavras não chegavam para constituir um argumento, e se era para tocar a minha alma, tudo que logravam obter de mim era a vontade de não estar ali. O que quer essa gente afinal, gritando assim em praça pública o seu credo pessoal? (a praça que é de todos, inclusive dos que não crêem...?). Em que lei, ou razão, ampara-se o comportamento de uma pessoa ou instituição que, embora seja livre para dizer e praticar a sua fé, o faz contra o direito dos outros ao silêncio e à privacidade? Como se justifica dar a alguém o direito de gritar tão alto (ainda que seja o nome de Deus, ou do que é justo ou verdadeiro...) que em redor os outros se incomodem na sua privacidade (não consigam dormir, ou ler, ou assistir tv, ou ficar em silêncio, ou trabalhar, ou dizer as suas orações no recolhimento da sua casa?) e instalar-se no espaço público interceptando as pessoas como se elas tivessem que dar-lhes ouvidos? Que espécie de gente é esta que quer impor-se pela altura do som da sua voz, como se os outros, incomodados, é que devessem retirar-se? Aqui não vai uma crítica à fé, mas à maneira de manifestá-la, contrariando um princípio básico da vida social, que no Brasil se orienta pela natureza laica e democrática do Estado: somos diferentes uns dos outros, e deve ser garantido a cada um de nós, sem distinção, sentir, pensar e fazer respeitando o outro. A lei, produzida pelo Estado, deve ser o limite do exercício da nossa liberdade. A lei sim, contra os despotismos de toda natureza: político... ou religioso. A consciência livre é a arma que o cidadão deve manter engatilhada contra a tentação dos absolutismos, a tentação de ceder à maioria, de fazer por que todo mundo faz, de ser por que todo mundo é. É necessário dizer não. Ser do contra, no corpo e na alma, na vida privada como na vida pública, para salvaguardar a dignidade do homem... e de sua fé (seja ela qual for). Amém?

sexta-feira, 2 de março de 2007

A difícil arte de ensinar.


Não sou professor de longa data, embora exerça o magistério desde que ingressei na faculdade. Mas, como não faz muito tempo que colei grau, então, isso faz de mim um professor que engatinha na difícil arte de ensinar.

Cada dia é um desafio revestido da imprevisibilidade peculiar aos indivíduos que formam o nosso público, os alunos. Cada aluno representa uma história prestes a ser contada. São como pergaminhos que se desenrolam à nossa frente e que lemos, tantas vezes, com o mesmo dissabor que lemos um livro de autor indesejado. Sua vida é tosca, seu comportamento é agressivo, sua perspectiva é estreita e o respeito por aqueles que cuidam da sua educação é anêmico. Nisso, há a parcela de culpa do aluno e há aquela que cabe à instituição. No que tange à instituição, temos a falta de compromisso, responsabilidade e criação de um lugar agradável onde o aluno sinta prazer, e não obrigação em se encaminhar todas as manhãs para o estabelecimento de ensino. Tantas vezes o faz como se estivesse se dirigindo ao matadouro.

Por outro lado, a profissão tem sua riqueza. Nós, professores, temos, todos os dias, a possibilidade única e singular de conhecer nossos limites e nos reconhecermos frágeis. Desse modo, abandonamos a imagem de homem infalível que ostentamos e, tantas vezes, representamos. Somos todos falíveis. Na sala de aula fazemos a experiência diária da nossa falibilidade.

Descubro, na relação com eles, que indiferente, agressivo, indisciplinado, rude e egoísta também sou. Lembro que não tenho, como eles, a mesma energia, curiosidade, sonho, desejo e força. Olho para meus alunos e, por vezes, anseio ter as características que os fazem diferentes de mim. E lembrar que um dia eu tive as mesmas inquietações, as mesmas dúvidas, as mesmas perguntas e os mesmos dilemas. Basta lembrar que um dia tive a mesma coragem de transgredir e que, foi nesse momento de inversão da ordem, que verdadeiramente aprendi.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Aos amigos


"Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão".

Herberto Hélder


Encontrei essa poesia no blog "Amantes da Poesia". Interessante que, imediatamente, ela me disse muito, talvez, mais do que esperava naquele momento. A impressão que tive foi de ver todos os meus amigos representados nessas poucas e simples palavras. Aqueles de ontem e de hoje, o distante e o próximo, o presente e o ausente. Todos, ali, nas linhas e entrelinhas do texto poético.

A memória foi ativada quando da leitura do texto e lembrei dos amigos que não estão mais comigo, mas que foram fundamentais na construção da minha história pessoal. Talvez não fossem amigos para a vida toda, mas para aquele momento. Chegaram naquele instante necessário e se despediram quando viram que sua missão na minha vida se havia cumprido. Abriram fendas, fizeram-se ao largo e pousaram em outras vidas. Às vezes, pego-me imaginando como seria meu trajeto pessoal se não fosse a presença terna, serena, misericordiosa e solidária desses meus amigos. Certamente, uma alegria, sorriso e abraço a menos na minha caminhada. Contribuíram durante um tempo, alguns, durante um tempo ínfimo, mas deixaram pérolas que carrego vida afora.

Há aqueles que, diariamente, permanecem comigo . São poucos, mas são eles que dão um sentido luminoso aos meus dias. Há os tristes, embora a vida seja generosa e não tenha deixado faltar-lhes nenhum dos "dedos das mãos". Há aqueles que recebem a vida e seu mistério com reverência e estão sempre em harmonia com a realidade circundante. Suas palavras são seminais e seus gestos apontam para o alto. Há aqueles cuja existência está deitada na dolorosa experiência do desamor, do desafeto e do ostracismo. Receiam qualquer proximidade humana, com exceção daqueles que ganharam sua confiança e tiveram a porta do seu coração aberto. Esses estão sempre fazendo a radiografia daqueles que tentam ultrapassar sua fronteira. Temem o encontro humano, desconfiam demasiadamente, selecionam e compartimentarizam as pessoas em categorias, sem deixar-lhes uma brecha para que se mostrem e revelem seus mistérios. Em todos, encontro talentos que não foram guardados ociosamente. Não obstante os limites, cada um traz o dom de preencher meu dia e fazê-lo feliz. Carregam esse talento que construíram no silêncio ou no ruído da vida; o talento para se apaixonar mil vezes durante o dia por aquele por quem se sabem amados: o amigo.