Eu seria um homem de sorte se Nicholas Sparks me revelasse o segredo do sucesso. Em 2010, faturou cerca de 14 milhões e vendeu mais de 55 milhões de livros. No Brasil, Paulo Coelho - que segue receita parecida - já vendeu mais que Flaubert e Guimarães Rosa juntos. Dores de cotovelo transformadas em números que viram best-sellers e alguns milhões na indústria cultural.
Se não falas, vou encher o meu coração com o teu silêncio e agüentá-lo. Ficarei quieto, esperando, como a noite em sua vigília estrelada com a cabeça pacientemente inclinada. A manhã certamente virá; a escuridão se dissipará, e a tua voz se derramará em torrentes douradas por todo o céu. Então as tuas palavras voarão em canções de cada ninho dos meus pássaros, e as tuas melodias brotarão em flores por todos os recantos da minha floresta. (Rabindranath Tagore)
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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
A Cult deste mês traz uma entrevista com o poeta Manoel de Barros que descreve assim os paradoxos do andarilho:
"Do lugar onde estou já fui embora. Andar é um dom da inércia. Eu tenho um dom de traste atravessado em mim. Como trovão eu sou... levado a sério. Quero não falar até chegar ao silêncio dos vermes. Um pingo de sol na formiga fica maior que o mar. Sou muito concorrido de bobagens. Eu só ando por dentro de mim; se fui em outro lugar foi para me ver. Não saio de dentro de mim nem para pescar. Ando mais por dentro de mim do que na estrada.Passarinhos existem para dar movimento ao entardecer.Eu me recolho no abandono para ser livre. Desenharam nas pedras meu silêncio.Uma árvore que eu vi dava borboleta em vez de flor. Só o cinzento de uma tarde me amanhece. Mexer con gratuidades me enriquecem." Ao fim da leitura, só vertigens.
"Do lugar onde estou já fui embora. Andar é um dom da inércia. Eu tenho um dom de traste atravessado em mim. Como trovão eu sou... levado a sério. Quero não falar até chegar ao silêncio dos vermes. Um pingo de sol na formiga fica maior que o mar. Sou muito concorrido de bobagens. Eu só ando por dentro de mim; se fui em outro lugar foi para me ver. Não saio de dentro de mim nem para pescar. Ando mais por dentro de mim do que na estrada.Passarinhos existem para dar movimento ao entardecer.Eu me recolho no abandono para ser livre. Desenharam nas pedras meu silêncio.Uma árvore que eu vi dava borboleta em vez de flor. Só o cinzento de uma tarde me amanhece. Mexer con gratuidades me enriquecem." Ao fim da leitura, só vertigens.
sábado, 29 de setembro de 2012
A FLIP revisitada
Depois de um longo tempo sem postar, volto com algumas palavras sobre a experiência vivenciada em Paraty durante a Festa Literária Internacional de Paraty - FLIP. O lado positivo de escrever sobre uma vivência tempos depois de tê-la experienciado é que podemos revisitá-la e estabelecer uma nova conexão com o vivido, de maneira que novos sentidos se revelam. Além disso, recompomos situações e pessoas e revivemos toda a carga emocional que acompanhou nossos passos ao longo da viagem.
Parafraseando Machado de Assis nas primeiras páginas do livro Dom Casmurro, digo que, antes de passar aos fatos, faz-se necessário dar os motivos que impulsionaram essa viagem. São dois apenas e, de certo modo, não guardam nada de espetacular: o primeiro reside no desejo alimentado desde longa data em conhecer a FLIP. Desde meus tempos de universidade, ouvia falar nessa festa literária e fazia planos de um dia conhecer; o segundo motivo é um pouco mais profundo e tem a ver com minha relação afetiva com um livro que foi para as telas do cinema, chamado REPARAÇÃO, do escritor inglês Ian McEwan. No Brasil, o filme recebeu o nome de Desejo e Reparação. Desde o início do ano que vinha recebendo informativos sobre a Festa e quando vi que o autor participaria do evento não pensei muito, na verdade, pensei bem pouco, pois logo decidi pegar o avião ao Rio de Janeiro (e depois o ônibus para chegar em Paraty).
Em Paraty, fiquei hospedado em uma Pousada-Camping e, como queria fazer uma nova experiência de hospedagem - além de economizar - optei por ficar no Camping. Experiência maravilhosa. A impressão que o hóspede tem é similar àquela deixada por um lugar familiar ou sua própria casa. Acordar e se deparar com um ambiente natural, quase campal, numa temperatura amena e pessoas acolhedoras contribuiu bastante para que logo entrasse no clima da festa.
Paraty é uma cidade secular que conserva um centro histórico com ruas estreitas e pedras que reluzem em seu calçamento. É nesse centro que a FLIP acontece em suas várias tendas e casas. Os autores que constam da programação oficial podem ser vistos em duas tendas: a tenda dos autores e a do telão. Na tenda dos autores você paga um pouco mais caro pelo privilégio em ver o autor ao vivo e em todas as cores. Como isso não é possível na tenda do telão, o valor cobrado é menor. Comprei ingressos antecipados para a tenda dos autores e selecionei aqueles que me interessavam, seja por que os conhecia de ouvir dizer ou de obra lida, seja porque estavam ligados a culturas e países que vêm despertando meu interesse. Ao fim e ao cabo, participei de várias mesas e conheci autores diversos, bem como entrei em contato com autores cuja obra já havia conhecido por meio do cinema.
Empolgado e mergulhado na efervescência da festa literária, vi e ouvi Javier Cercas, Amin Maalouf, Adonis, Fernando Gabeira, Zuenir Ventura, Walcyr Carrasco, Luiz Felipe Pondé, Frei Betto,Luis Fernando Veríssimo,Ian McEwan, entre outros. Como falei no início, uma das minhas motivações a estar ali foi conhecer o autor de uma obra (Reparação) que me fez descobrir um outro valor da literatura: reconstruir a si mesmo e sua própria história por meio das palavras. Eu o conheci. Primeiro, separados geograficamente e mediados por um telão, depois, de braços e ombros entrelaçados em uma das ruas mais movimentadas do centro histórico. Naquele instante, talvez o instante-já de Clarice Lispector em Água Viva, eu me senti plenamente feliz.
Mas a FLIP não permitiu apenas encontros com autores e livros. Reunindo gente de todos as regiões do país e diferentes países, a Festa abre para outras experiências que envolvem fotografia, cinema, artes cênicas, natureza exuberante, amizades. Além dos livros e lembrancinhas, voltei com uma reserva de amigos que conservo até então.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Uma viagem, uma porta, inúmeras possibilidades
Viajar é sempre um ato carregado de simbolismos. Há na literatura e no cinema um número amplo de enredos que envolvem ou estão assentados no tema da viagem. Em A volta ao mundo em 80 dias de Júlio Verne, a viagem é a protagonista da narrativa que se desenvolve sob a tônica da partida. Outro exemplo que nos vem da literatura é o livro On the road do americano Jack Kerouac. Esse livro nos põe em contato com a libertação que o protagonista Sal vivencia à medida que avança em sua viagem. Do cinema, temos o filme Chegadas e partidas do Lasse Hallstrom que traz para a tela o processo doloroso de autoconhecimento do protagonista que encontra na viagem física, mas também espiritual/interior, o ponto de encontro entre aquela parte de si que está perdida e aquela outra que deseja desesperadamente o encontro consigo mesmo e o equilíbrio. Em todos esses produtos de arte, encontramos a viagem sendo lida e interpretada em diferentes chaves: a viagem é, por um lado, aquilo que te põe em movimento e faz com que se desligue de um mundo pré-existente e rume em direção a novos mundos (há tantos mundos quantos são as pessoas que encontramos e situações vivenciadas). Quando viajamos, não mergulhamos apenas em nosso mundo, mas desbravamos o mundo alheio num total desejo de encontrarmos ali um lugar onde possamos ser nós mesmos e nos conhecermos. Ao final de Paisagem na neblina do grego Theo Angelopoulos, reencontramos aquelas crianças amadurecidas e prontas para enfrentar os novos perigos que estão por vir. O que permitiu essa maturação, senão a viagem? É durante uma viagem de volta para casa que o transexual Bree, primorosamente interpretado pela atriz Felicity Huffman, redescobre no filho delinquente e problemático a sua vocação para o cuidado. Desse modo, viajar significa bem mais que o deslocamento físico ou a ação consequente de tirar fotos e conhecer novos lugares. Viajar assume para o viajante uma dimensão muito mais fina e profunda que o coloca diante de inúmeras portas que representam diferentes oportunidades propiciadoras de vivências que nos enriquecem sob diversos aspectos. Nisso reside o simbolismo da viagem: fazer vislumbrar portas que se abrem de par em par e nos apresentam possibilidades que nos convidam ao encontro com o diferente, mesmo quando esse diferente é aquela parte de nós que ainda não percorrermos.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
VII Fliporto: literatura em pauta
A Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto) foi um sucesso de público. Muita gente circulou pela Praça do Carmo (Olinda)durante os dias 11 e 15 de novembro. Infelizmente não foi possível participar de todas as mesas mas, das poucas que participei, gostei muito das experiências de leitura e escritura compartilhadas pelo escritor português Gonçalo Tavares e o venezuelano Fernando Baéz. Ainda lembro as palavras do Gonçalo quando disse que a literatura não é uma máquina de reproduzir, mas uma máquina de fazer pensar. A conceituação não poderia ser melhor. O que me chamou atenção na história de relação de Fernando Baéz com a leitura foi que seu amor pelos livros teve início quando perdeu, num acidente, os livros da família. Outra mesa que se destacou foi aquela composta por Raimundo Carrero e Nelson Mota. Embora bastante
debilitado, Carrero deixou grandes lições sobre a criação literária. Nelson Mota falou, numa maneira descontraída e divertida, da relação com a língua portuguesa, a escritura, as editoras e os projetos futuros.
O lado B da feira foi feito de problemas com o áudio, tradução simultânea, microfones e a ausência da literatura japonesa e chinesa na 2ª Feira do Livro. Esperamos que isso não volte a acontecer no próximo ano.
A VII Fliporto teve como homenageado o escritor pernambucano Gilberto Freyre e voltou-se para a literatura oriental.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
9º Festival Recifense de Literatura: A Letra e a Voz
¹Em sua nona edição, o evento será realizado no mês em que se comemora o Dia do Poeta Recifense. O festival tem como tema Literatura e Memória e propõe discutir as narrativas e as linguagens que abordam a temática da memória, como biografia, autobiografia, e influências literárias, além de discussões sobre as políticas públicas de leitura, garantindo o espaço para escritores, poetas, pesquisadores, editores e ensaístas. Os poetas Marco Polo Guimarães e Lucila Nogueira são os homenageados desta edição.
¹Texto extraído da Agenda Cultural/Agosto/2011
O festival começou dia 22.08 e segue até 27.08 na Livraria Cultura no Bairro do Recife.
Veja programação completa aqui: http://www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20110820163245
sábado, 25 de junho de 2011
Fome

Per Oscarsson, autor sueco, fez por merecer o prêmio de melhor ator na edição do Festival de Cannes em 1966. Interpretando o escritor Pontus no filme Fome de Henning Carlsen, Oscarsson dá um show de atuação nas cenas que o mostram em estado de delírio e alucinação devido a fome que assola a pequena e gélida cidade de Christiânia. Essa co-produção (Dinamarca-Noruega-Suécia)que conta com a direção fotográfica de Henning Kristiansen e roteiro adaptado de uma das obras-primas da literatura mundial do século XIX - o romance Fome de Knut Hamsun - coloca em cena uma das consequências do pós-guerra: o desemprego. Pontus é afetado por essa realidade que o faz perambular pelas ruas da pequena cidade, comer papel, roer osso, criar situações imaginárias, penhorar bens. Vale destacar o papel do tempo e da literatura que funcionam a um tempo como fator de desagregação e unificação da personagem. Força sempre!
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
A reparação é possível?

Só lendo a obra de Ian McEwan para esboçar uma tentativa de resposta sobre a questão do título do post. Publicado em língua portuguesa pela Companhia das Letras e sob o título Reparação, a obra de Ian McEwan pode ser definida como "um romance arrebatador", conforme crítica do The Guardian.
O romance conta a história de Briony, uma pré-adolescente cuja imaginação abundante revela um espírito produtivo no campo da escrita. Aos 11 anos de idade, Briony escreve sua primeira peça teatral: Arabella em apuros. Distanciada da realidade e mergulhada em sua imaginação esgarçada pelo lugar idílico onde vive - uma mansão ao estilo vitoriano situada numa bela fazenda -, pelo mundo literário que a cerca e o amor adolescente que nutre por Robbie Turner, filho da empregada, Briony depara-se com o mundo adulto e tenta significá-lo a partir dos códigos ditados pela imaginação.
Numa dessas tentativas em filtrar e entender o mundo adulto a partir da sua imaginação, Briony vê uma cena em que a irmã Cecília Tallis mergulha numa fonte e, ao sair dela, é observada por Robbie Turner numa situação bastante íntima. Equivocada em relação à cena que vê do alto da janela, Briony cometerá o erro que desencadeará uma série de consequências nefastas; consequências que tentará reparar por toda a vida.
Ian McEwan escreve com maestria e detalha o estado psicológico dos personagens de uma maneira que a catarse é inevitável. A estrutura da narrativa também é organizada de tal modo que lê-se a história em espiral e, desse modo, foge às tradicionais estruturas lineares das narrativas.
Concluí a leitura do livro na semana passada, mas tenho por certo que voltarei a lê-lo, porque sei que Briony ainda tem muito a me dizer. Sei disso, porque já cometi equívocos; equívocos irreparáveis e não fiz nada para repará-los. Se tivesse feito e conseguido, talvez minha história fosse diferente. Boa leitura!
Oscar Wilde fala sobre amizade

Compartilho texto de Oscar Wilde. Vale uma leitura!
Escolhi meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim um louco e santo. Deles nao quero respostas, quero meu avesso. Quero-os santos, para que nao duvidem dos diferentes e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta. Nao quero só o ombro ou o colo, quero tambem sua maior alegria. Amigo que nao ri junto não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Nao quero risos previsiveis, nem choros piedosos. Quero amigos sadios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Nao quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice. Crianças para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão estéril. (Oscar Wilde)
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Fliporto 2010: literatura, cinema, gastronomia e música

Participei no último fim de semana da Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas - FLIPORTO. O evento acontecia no balneário de Porto de Galinhas, mas foi transferido para Olinda. A mudança não poderia ser mais oportuna, uma vez que Olinda abriga um cenário propício às manifestações culturais. O Centro Histórico de Olinda revela minúcias de um retrato multifacetado da cultura local. Artesãos, músicos, atores, pintores, enfim, artistas dos mais variados segmentos compõem esse cenário que encanta os passantes que transitam pelas ruas históricas da cidade.
A mesa de abertura da Fliporto teve como mediador o jornalista Geneton Moraes Neto e Eva Schloss e Moacyr Scliar como debatedores.
A escritora judia Eva Schloss, sobrevivente de um campo de concentração nazista, falou da experiência dilacerante vivenciada nas fugas, no trajeto em trens superlotados e em condições subumanas até o campo e os dias em Auschwitz. Schloss lançou durante a Fliporto seu mais recente livro A História de Eva e emocionou o público ao responder perguntas feitas pelo jornalista Geneton Moraes e Moacyr Scliar.
A obra e o testumunho de Eva Schloss ganham atualidade incontestável, uma vez que atos bárbaros motivados por intolerância a homossexuais, negros, nordestinos e outras minorias ainda fazem tantas vítimas e promovem pequenos holocaustos cotidianos.
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