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sábado, 29 de setembro de 2012

A FLIP revisitada

Depois de um longo tempo sem postar, volto com algumas palavras sobre a experiência vivenciada em Paraty durante a Festa Literária Internacional de Paraty - FLIP. O lado positivo de escrever sobre uma vivência tempos depois de tê-la experienciado é que podemos revisitá-la e estabelecer uma nova conexão com o vivido, de maneira que novos sentidos se revelam. Além disso, recompomos situações e pessoas e revivemos toda a carga emocional que acompanhou nossos passos ao longo da viagem. Parafraseando Machado de Assis nas primeiras páginas do livro Dom Casmurro, digo que, antes de passar aos fatos, faz-se necessário dar os motivos que impulsionaram essa viagem. São dois apenas e, de certo modo, não guardam nada de espetacular: o primeiro reside no desejo alimentado desde longa data em conhecer a FLIP. Desde meus tempos de universidade, ouvia falar nessa festa literária e fazia planos de um dia conhecer; o segundo motivo é um pouco mais profundo e tem a ver com minha relação afetiva com um livro que foi para as telas do cinema, chamado REPARAÇÃO, do escritor inglês Ian McEwan. No Brasil, o filme recebeu o nome de Desejo e Reparação. Desde o início do ano que vinha recebendo informativos sobre a Festa e quando vi que o autor participaria do evento não pensei muito, na verdade, pensei bem pouco, pois logo decidi pegar o avião ao Rio de Janeiro (e depois o ônibus para chegar em Paraty).
Em Paraty, fiquei hospedado em uma Pousada-Camping e, como queria fazer uma nova experiência de hospedagem - além de economizar - optei por ficar no Camping. Experiência maravilhosa. A impressão que o hóspede tem é similar àquela deixada por um lugar familiar ou sua própria casa. Acordar e se deparar com um ambiente natural, quase campal, numa temperatura amena e pessoas acolhedoras contribuiu bastante para que logo entrasse no clima da festa.
Paraty é uma cidade secular que conserva um centro histórico com ruas estreitas e pedras que reluzem em seu calçamento. É nesse centro que a FLIP acontece em suas várias tendas e casas. Os autores que constam da programação oficial podem ser vistos em duas tendas: a tenda dos autores e a do telão. Na tenda dos autores você paga um pouco mais caro pelo privilégio em ver o autor ao vivo e em todas as cores. Como isso não é possível na tenda do telão, o valor cobrado é menor. Comprei ingressos antecipados para a tenda dos autores e selecionei aqueles que me interessavam, seja por que os conhecia de ouvir dizer ou de obra lida, seja porque estavam ligados a culturas e países que vêm despertando meu interesse. Ao fim e ao cabo, participei de várias mesas e conheci autores diversos, bem como entrei em contato com autores cuja obra já havia conhecido por meio do cinema.
Empolgado e mergulhado na efervescência da festa literária, vi e ouvi Javier Cercas, Amin Maalouf, Adonis, Fernando Gabeira, Zuenir Ventura, Walcyr Carrasco, Luiz Felipe Pondé, Frei Betto,Luis Fernando Veríssimo,Ian McEwan, entre outros. Como falei no início, uma das minhas motivações a estar ali foi conhecer o autor de uma obra (Reparação) que me fez descobrir um outro valor da literatura: reconstruir a si mesmo e sua própria história por meio das palavras. Eu o conheci. Primeiro, separados geograficamente e mediados por um telão, depois, de braços e ombros entrelaçados em uma das ruas mais movimentadas do centro histórico. Naquele instante, talvez o instante-já de Clarice Lispector em Água Viva, eu me senti plenamente feliz.
Mas a FLIP não permitiu apenas encontros com autores e livros. Reunindo gente de todos as regiões do país e diferentes países, a Festa abre para outras experiências que envolvem fotografia, cinema, artes cênicas, natureza exuberante, amizades. Além dos livros e lembrancinhas, voltei com uma reserva de amigos que conservo até então.

sábado, 3 de março de 2012

O Chile e suas letras

"Os pés da manhã pisar o chão". É com essas palavras extraídas da canção de Gilberto Gil que inicio este post. Nos pés que pisam a terra estrangeira, concentra-se o desejo de conhecer e explorar espaços humanos, culturais, naturais e históricos. É com esse desejo fincado nos pés que me ponho a caminhar pelo chão chileno que carrega a ancestralidade dos índios Mapocho, a herança dos Rapa Nui e os "espíritos" dos Andes. Esses elementos servem de mote para a literatura que se produz em terras chilenas, de maneira que sua relação com a "tierra larga" é estreita e as páginas dos romances trazem esse universo que assume uma centralidade tal na pena dos escritores que é impossível entender suas palavras se não comungamos desse chão. Das terras chilenas, trouxe romances, poemas e crônicas que apresentarei sucintamente: 1)Manuel Peña Muñoz: a) Chile: memorial da tierra larga. Autor de Ayer soñé con Valparaíso, Muñoz escreve um novo livro de crônicas organizadas de norte a sul do país. Estes artigos descrevem com amenidade a geografia humana e poética do Chile. Através de um percurso literário, o autor apresenta as imagens de chilenos de distintas condições sociais e culturais, através da história mostrando sua idiossincrasia e vistos na intimidade dos seus lugares. b) Valparaíso: la ciudad de mis fantasmas. Nesse livro, Muñoz escreve sobre suas memórias que vão desde o ano de 1951 até 1971. Nelas, nos conduz pela mão pelos labirintos insondáveis de Valparaíso e nos mostra uma galeria maravilhosa de personagens que povoam essas casas fantasmas com varandas abertas ao mar.
2.Hernán Rivera Letelier: a) Mi nombre es Malarrosa. Nessa novela, o autor narra com humor e compaixão outro ângulo da épica dos homens e mulheres do "salitre", na dureza de um mundo que, nos últimos tempos, está prestes a desaparecer.
3. José Donoso: a)La desesperanza. Donoso nasceu em Santiago, Chile, em 1924. Estudou na Universidade do Chile e em Princeton, Estados Unidos. Entre 1967 e 1981 viveu na Espanha, onde escreveu algumas de suas novelas mais importantes e se consolidou como uma figura central do boom latinoamericano. José Donoso Morreu em Santiago do Chile, em dezembro de 1996.
4.Germán Marín: a) Últimos resplandores de una tarde precaria. Esse conjunto de relatos, selecionados da obra publicada de Marín, como também de sua produção inédita, é o espelho de uma realidade imaginada que, construída à base da fragmentos do mundo vivido, tanto ontem como hoje, ajuda a formar certo espetáculo da condição humana. 5. Pablo Neruda: a) Los versos del Capitán. Os amantes ocultos - Pablo e Matilde - sabem dos inconvenientes para declarar à viva voz esse sentimento que os une e, a despeito dos impedimentos, se refugiam na Ilha de Capri. Assim, o Capitão não dirá ser o autor desses versos míticos(para não causar com sua felicidade a dor de outra pessoa)e, por dez anos, esse livro será um "filho natural, não reconhecido."
Por meio dessas letras, é possível acessar o universo mítico e imaginário dos chilenos, suas dores, sonhos e lutas. É possível, acima de tudo, estabelecer relações com o fim do mundo. É isso. *Os comentários que aparecem após o título dos livros foram traduzidos do original em espanhol.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Literatura argentina para brasileiros

Depois de percorrer o território físico da Argentina, agora percorro o território movediço, emocionado e fictício da literatura produzida em território argentino. Nesse mergulho no oceano sem fundo da literatura, posso entrever um cenário construído por palavras que permitem acessar um modo de dizer e significar o cotidiano, as relações amorosas, as discrepâncias e mazelas sociais, enfim, a vida. Neste post, trago a poesia de Aldo Oliva e Ivana Alochis e a prosa de Antonio di Benedetto e Cristina Loza. Aldo Oliva nasceu na cidade de Rosario em 27 de janeiro de 1927 e publicou seu primeiro livro de poemas aos 59 anos. Apesar da publicação tardia, Oliva começou a produzir poemas nos primeiros anos da juventude. Em Poesía Completa, Oliva reúne a melhor parte da sua produção poética. Cristina Loza nasceu e reside em Córdoba. Ela é fisioterapeuta egressa da Universidade Nacional de Córdoba. Sua primeira novela, Malasangre (2002), recebeu críticas positivas. El revés de las lágrimas (Emecé, 1997) obteve grande êxito de crítica e público, com mais de 20.000 exemplares vendidos. Publicado em 2008, La Hora del Lobo, conta a história de Pilar, mulher disposta a reencontrar seu próprio caminho a partir das memórias e dos lugares com os quais se depara durante a narrativa.
Ainda de Córdoba, temos a poeta Ivana Alochis que é licenciada em língua e literatura castelhanas. Egressa da Escola Superior de Línguas da UNC, Ivana tem publicações que elucidam questões referentes à gramática espanhola. Seu livro de poemas, Fuego en el Patio de Atrás, foi publicado em 2010 pela Salvoconductos.
Por fim, Antonio Di Benedetto. Nasceu na cidade de Mendoza em 1922 e morreu em Buenos Aires em 1986. É autor de novelas e vários livros de relatos. Recebeu numerosos prêmios e seus livros têm sido reeditados e traduzidos para outros idiomas. Los Suicidas foi reeditado em 2010 e está em sua 4ª edição.
Fico por aqui.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

...e a viagem não acabou.

Ainda lembro as palavras de Mauricio Avallos: "aqui na Argentina, quando alguém quer se mostrar inteligente, culto, diz que leu Jorge Luis Borges". Expressão maior das letras argentinas, Jorge Luis Borges deixou atrás de si uma obra extensa que inclui poemas, contos e ensaios. Borges teve seu talento reconhecido por meio de prêmios que recebeu ao longo da vida por governos estrangeiros, como o Cervantes em 1979. Conhecendo a vida e o percurso literário de Borges, entende-se o fato de pessoas lançarem mão de sua obra, a fim de fazerem um marketing pessoal. Borges é, de certo modo, lendário, de maneira que acessar essa lenda e apropriar-se de suas palavras é sinal de distinção seja em que nível for. Os leitores de Borges têm que se orgulhar mesmo! Quando se pensa numa viagem, pensa-se imediatamente em descanso, passeios e na possibilidade de desligar de tudo aquilo que ocupou sua mente e seus dias até então. Além desses elementos que, em proporções diferentes, estão presentes em qualquer viagem, busquei estabelecer um vínculo com a cultura dos países por onde passei e, foi com esse projeto em mente, que vasculhei produtos culturais que fossem capazes de me fazer entrever a alma desses países e a visão de mundo dos seus habitantes. Desse modo, em Buenos Aires, trouxe dois grandes da literatura em língua espanhola: Jorge Luis Borges - que já comentei acima - e Julio Cortázar. Mas não fiquei apenas na literatura e passei a minha segunda paixão: a música. Abaixo faço uma pequena relação dos diamantes que guardei ciosamente como quem tenta guardar água no deserto sem dispor de um recipiente. Da literatura: Jorge Luis Borges. El libro de arena. 1ª ed. Buenos Aires: Debosillo, 2011. Julio Cortázar. Todos los fuegos el fuego. 1ª ed. Buenos Aires: Aguilar. Da música: Soda Stereo (Gira): Me Veras Volver. Los Fabulosos Cadillacs: Vasos Vacios Encuentros de Grandes: Rock Argentino. Southamerican big sessions. Tapeku´A: Água A caça aos produtos acima descritos permitiu que entrasse em contato com pessoas e pudesse aprender mais sobre o espanhol falado. A leitura das letras das músicas, bem como da apresentação dos autores na quarta capa dos livros, possibilitou o entendimento do funcionamento do espanhol escrito. Imergir nesse mundo feito de palavras e sons, permitiu um entendimento acerca dos sonhos que argentinos alimentam, dos arquétipos que reproduzem e das lutas nas quais cotidianamente se engajam. É isso.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Viña del Mar e Isla Negra

Quando estamos viajando, a relaçao com o tempo ganha um novo sentido diferente daquele que damos quando nos encontramos em nossa rotina. Passamos a medir o tempo nao pelo relógio ou calendário, mas pelas experiências vivenciadas e percepçoes que nos chegam a todo instante. Assim, ficamos perdidos no tempo, fora de órbita e corremos o risco da imprecisao no que diz respeito ao tempo seguido por rodoviárias e aeroportos. Isso tudo é para dizer que nao posso esquecer que hoje é segunda-feira (lunes por essas bandas) e amanha volto a Santiago para embarcar na quarta-feira logo cedo, bem cedo. Hoje resolvi ficar "de boa" no Hostel para descansar, organizar a cabeça, cuidar da mente e arrumar a bagagem que está uma bagunça. Antes de falar das minhas andanças em Viña del Mar e Isla Negra, vou discorrer rapidamente sobre um show que fui em Valparaíso no sexta-feira. O nome do grupo é Tapeku´A, oriundo do litoral da Argentina e apresentou-se no Centro Cultural IPA para uma plateia nada mais, nada menos, formada por três pessoas: eu e dois porteños. Isso nao diz nada acerca da qualidade musical do grupo que foi vítima, talvez, de uma divulgaçao insuficiente. No início da apresentaçao, pensei estar ouvindo música sertaneja em outra chave e, nao estava enganado, pois o grupo faz um som muito semelhante ao som sertanejo feito no Brasil, embora nao deem esse nome. A bem da verdade, o resultado do seu trabalho musical é uma mescla dos sons produzidos em território argentino. O produto dessa fusao é um som que extasia, eleva a alma, pacifica. Ao final da apresetaçao, trocamos algumas palavras e comprei o CD que traz uma capa com desenhos que remetem a elementos da natureza colocados nos espaços abertos da letra Y. Dentro da capa, um pequeno texto em castelhano (óbvio!) explica o tema e o conceito do CD. Vou reproduzir trechos do texto original: "Y...es agua, en guaraní. Tanto el elemento como el pueblo originario son parte intríseca de nuestra vida, y nuestra cultura. (...) "Y" es la síntesis del comienzo de Tapeku´a, ese "punto de encuentro", ese "a mitad de camino" donde nos encontramos y contemplamos nuestra realidad, evocando voces de la tradición popular que fusionamos para transformalas en nuestra música contemporánea. " Agora traduzam. Desse lado da América do Sul, a arte mantém um vínculo muito estreito com a natureza, de maneira que seus elementos ocupam temas ou sao usados em instrumentos que reproduzem seus sons originais. Acredito que o duo Tapeku´a persiga essa tradiçao. Em Viña del Mar. Finalmente cheguei aqui, última cidade do meu roteiro de viagem. Viña del Mar é uma cidade provinciana, talvez um pouco mais provinciana que Valparaíso, mas que apresenta um cenário mais moderno com grandes edifícios, largos restaurantes, orla marítima e ruas que deixam para trás o traço secular de Valparaíso. Desci próximo ao Relógio de Flores e disputei um lugar com os turistas que tentavam sua melhor foto. Eu também queria a minha e tive paciência em esperar que grupos enormes de turistas deixassem o local. Em seguida, andei pela orla e entrei em castelos que viraram centros de exposiçoes, passei em restaurantes que assumiram a forma de um navio e, finalmente, resolvi entrar na praia. Ops! Que é isso? Areia de praia? Embora cheio de dúvidas, segui em direçao ao mar e resolvi medir a temperatura da água. Nem de longe tomo banho nessas águas!!! Tá louco!!! A água é geladaaaa!!!! Ainda pensei em sentar numa cadeira e ouvir música ou ler um livro. Após alguns minutos observando o movimento, entendi que aqui os banhistas trazem seu guarda-sol e sua toalha, de maneira que nao existem donos de barraquinhas oferecendo cadeiras. Cada um no seu quadrado e com sua toalha e guarda-sol: essa é a lei!! Após minha tentativa frustrada de "pegar" uma praia no sábado, continuei percorrendo a cidade e fotografando praças, conhecendo museus e igrejas e parando para ouvir artistas de rua que descansam o viajante com seus sons peculiares e místicos, como me explicou um tocador de Didgeridoo, instrumento australiano usado em rituais indígenas. Ontem estive em Isla Negra, uma pequena praia a duas horas daqui que foi escolhida por Pablo Neruda para receber sua terceira casa. Enquanto esperava para conhecer a casa, aproveitei para explorar a praia e recolher as energias vindas daquele lugar privilegiado e rico em recursos naturais. Ali o Oceano Pacífico parece dançar e o sol invade a terra como um presente. Concluí minha visita à casa de Neruda no túmulo onde jaz seu corpo. Ali encerrei minha viagem e entendi todo percurso realizado nas palavras do último livro de Neruda: "Confesso que vivi." É isso.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Valparaíso

Acordei às 10h30 e quase perdi o café da manha que é servido até às 11h. Diferentemente dos outros hostels onde me hospedei, foi servido apenas pao, geleia, margarina e café. Nao vi com bons olhos, mas me dei por satisfeito. Compensei no almoço do Color Café que fica pertinho do hostel e tem uma decoraçao muito bizarra. Aqui costuma-se servir uma entrada que geralmente é pao francês cortado em rodelas e molho, patê ou pimenta (come-se muita pimenta por essas bandas). A entrada do Color Café é um pouco mais farta, de maneira que primeiro veio o pao com dois tipos de molhos, depois salada (ou ensalada, como queira), sopa (desconfio que era feita de abacate porque aqui abacate nao é fruta, mas verdura) e, enfim, o almoço que estava de lamber os "beiço". Mas nem pense que tudo está acabado... Esqueci de falar da sobremesa que foi uma deliciosa panqueca com doce de leite, mel e banana... Hum... Dessa vez quase como os beiços!!! Comecei minha peregrinaçao pelo Cerro Concepcion e depois segui ao centro de Valparaíso. Vale lembrar que estou num cerro, ou seja, no alto de uma serra e, assim sendo, é até fácil descer, mas subir é "rojao". Se estivesse ganhando por difícil acesso em Valparaíso já estaria milionário. Sim! Milionário! Porque as notas de $10.000 nao me fizeram um milionário, entao estou buscando outras alternativas. Durante minhas andanças pelo cerro e centro, descobri galerias de arte que expoem obras de artistas que têm certa visibilidade no cenário das artes plásticas chilenas. Dois desses artistas chamaram muito minha atençao e comprei os postais que trazem algumas de suas obras. Sao eles: Loro Coirón que produz uma arte baseada em cenas do cotidiano e Beto Martínez que lança mao de um surrealismo que é possível ler e traduzir suas representaçoes. Nessas galerias, ainda se expoe obras de escultores, cartunistas e chargistas. Continuei andando pelo cerro e, no mirante, uma mulher com uma espécie de bacia com tampa envolvia os passantes no som que retirava daquele instrumento desconhecido. Ouvi, contribuí e perguntei. Quer saber o nome do instrumento? Hang. E foi criado em Bern, Suiça alema, no ano de 2000, por Sabina Schaerer e Felix Rohner. Comprei o CD que foi dedicado a Buda e se intitula "For Budha". Segui pelo centro, fotografei praças, monumentos e o porto que é de uma beleza singular. Depois de muito andar, subi o cerro Bella Vista e procurei o cerro seguinte, Florida, onde fica a casa de Pablo Neruda. Depois de muito subir, subir, subir, até as pernas cambalearem, encontrei "La Sebastiana". A casa, que se organiza em cinco pisos e foi saqueada durante o golpe militar, virou museu e abriga muitas das coleçoes de Neruda. Ao longo dos andares, pituras, esculturas, jogos de porcelana, cavalos, se distribuem e dao uma identidade ao lugar que nao poderia ser de outra pessoa, senao de Neruda. Nessa visita, chamou-me atençao o pôster do Walt Whitman que ocupa um tamanho considerável da parede do escritório. Além de Whitman, Neruda tinha em Baudelaire e Arthur Rimbaud seus ícones. Dos andares, uma vista belíssima da baia que o poeta desfrutou durante os anos que ali viveu. Na volta para casa, ainda entrei numa livraria e comprei o livro do escritor portenho, Manuel Peña Muñoz, chamado "Valparaíso: la ciudad de mis fantasmas". A obra, autobiográfica, traz relatos do autor acerca dos anos que viveu em Valparaíso. E aí chega a noite e o cansaço que nao perdoa. Para finalizar, queria citar o título da exposiçao do Loro Corión que me pôs em estado de reflexao, mais ou menos como acontece com os personagens clariceanos, ou seja, num estado de epifania: "Como si la vida fuera a durar para siempre." Penso que é essa impressao e esse sentimento que as belezas de Valparaíso nos imprimem e fazem sentir.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Santiago e Valparaiso

O povo chileno tem suscitado muitas impressoes seguidas de perguntas que espero respondê-las a partir de um olhar que se volta, por um lado, para o cotidiano e, por outro, para a literatura, a música e o cinema produzidos aqui. Tenho conversado com muita gente, ouvido muitas histórias e visto um panorama amplo e múltiplo que mais parece uma colcha de retalhos costurada com a linha da esperança e otimismo. Chilenos convivem com diversas condiçoes climáticas e ambientais que se estendem ao longo do país. Vivem sob a sombra dos terremotos que assombra suas vidas, embora prefiram viver como se nao existisse e, por isso, nao falam neles desde que nao sejam questionados. Ontem, conversando com um cineasta enquanto comprava o filme chileno "Machuca" do diretor Andrés Wood, fiquei sabendo que o Chile ainda vive sob os resquícios de uma ditadura que censura produçoes artísticas que denunciam as arbitrariedades do governo atual. Durante a conversa, disse-me que a película que estava levando nao seria encontrada facilmente em Santiago porque era uma película censurada pelo governo. Devido a essa censura, o filme nao podia ser exposto na vitrine, mas escondido entre outros filmes que ficavam por trás do balcao da loja. Viviana também me confidenciou que o governo intenta mudar o termo "Ditadura Militar" por "Governo Militar". Essa é uma maneira de dissimular a opressao infligida ao povo chileno. A universidade pública é paga e paga-se muito dependendo do curso que se quer fazer. Isso produz uma profunda desigualdade social no país que privilegia com o conhecimento uma pequena parcela da sociedade que tem condiçoes de pagar os estudos. A mídia tem divulgado as muitas mobilizaçoes que os estudantes têm realizado, a fim de que a universidade pública seja gratuita e de excelência. No Chile há muitos peruanos que se acomodam nos bancos das praças ou trabalham pesado em seus restaurantes que oferecem um cardápio tipicamente perurano. Em Santiago, aproveitei para provar a culinária peruana e, se estivesse no programa da Ana Maria Braga, passaria embaixo da mesa, sem dúvida. A arte chilena tem uma coloraçao e um contorno próprio de um povo que foi colonizado ou recebeu em seu território tantos outros povos que construíram esse país. Em suas características multiculturais, abriga diferentes segmentos e produz um modo bastante particular de ler, compreender e expressar sua visao de mundo por meio da música, da literatura, do folclore etc. Hoje cheguei em Valparaiso e estou muito deslumbrado com o que encontrei aqui. Essa cidade tem alma e tem identidade. O nascimento de Valparaiso data da primeira metade do século XVI e, recentemente, foi reconhecida como Patrimônio Histórico da Humanidade. Cercada de serras e contemplada por um clima próprio a cidades serranas, Valparaiso foi invadida por artistas que se apresentam em suas ruas estreitas e dao vida a uma cidade que já teve 40% das suas construçoes destruídas por um terremoto ocorrido em 1906. Ao percorrer a cidade, encontrei um dupla de mulheres que tocava tango romântico e parei sob o céu-azul-felicidade para avistar o mar-azul-delicadeza e ouvi-las tocar. É isso.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Santiago do Chile

Deixei Mendoza/Ar às 13h30. Nao foi sem um leve peso no coraçao que deixei as terras argentinas. Experiências que se acumulam na memória e descobertas que me acompanham fizeram com que nascesse um vínculo com aquele povo e sua cultura. Na Argentina, aprendi, entre outras coisas, que a arte pode alargar a consciência, moldá-la, de maneira que novas atitudes de responsabilidade, respeito, cuidado e compaixao nascem desse contato com as manifestaçoes artísticas. Lembro bem que em Rosario encontrei um monumento dedicado aos perros (cachorros). No alto de uma base de cimento, a estátua de um cachorro que lembrava aqueles bustos que no Brasil só se erguem para homenagear pessoas ilustres (algumas nem tao ilustres assim...). Esse "busto" é dedicado aos cachorros de rua. Isso mesmo! Cachorros de rua que sao cuidados pela prefeitura. Fiquei impressionado e convicto de que as pessoas, ou melhor, a consciência daquele povo, era diferente. Viajei pela empresa Cata que me cobrou algo em torno de $190 pesos pela passagem. Refiz o caminho pela cordilheira que havia visitado no dia anterior. Tudo estava muito bem até chegarmos na Aduana que inspeciona os ônibus e documentaçao dos passageiros antes de entrarem no Chile. Passamos nesse lugar nada amigável aproximadamente duas horas e meia. Foi tenso. Seguimos viagem por território chileno e a paisagem até Santiago era deslumbrante. Montanhas, colinas, vegetaçao, riachos, rios, e neve emolduravam nosso caminho. Logo que entramos no Chile, começamos a descer as montanhas e curvas que nao acabavam e pareciam querer amedrontar. Mas as curvas nao foram suficientes para amedrontar os viajantes, entao, de quebra, ainda tínhamos precipícios que beijavam a ruta (estrada). De repente, medo e deslumbre se misturam na gente e a fotografia nos serve como meio de catarse. Libertados pela fotografia e/ou filmagem, seguimos nosso caminho. Nos bancos de trás, viajantes brasileiros gritavam excitados: "Solta a embreagem!¨ Brasileiros sempre fazendo um barulho, uma algazarra. Faz parte do nosso show... rs
Quando chegamos em Santiago, tivemos um problema com um engarrafamento perto da rodoviária, de maneira que cheguei ao apartamento de Viviana às 23h. Bem recebido e bem acomodado, cuidei em descansar pois tinha um dia todo pela frente para explorar Santiago. Depois de ficar milionário...Nao está acreditando? No Chile fiquei milionário, pois aqui, além de circularem notas de $5, $10, $20 pesos, circulam também notas de $1.000, $2000, $5000. Quando saí da casa de câmbio e abri as notas, pensei que haviam errado e quase voltei para devolver. Foi assim que entrei milionário no Chile ... A triste verdade de tudo isso é que alegria de pobre dura pouco e, quando fui pagar o taxista que ouvia sem parar: "menina, menina, assim você me mata/Ai se eu te pego/Ai, ai se eu te pego", tive que desembolsar $6.000. Nao pense você que isso aqui vale muita coisa,porque nao vale. Ontem conheci o centro de Santiago e pude comparar Santiago a Buenos Aires. As pessoas de Santiago nao expoem toda aquela elegância que as de Buenos Aires fazem questao de expor. Em vez de uma elegância ao molde europeu, traços indígenas (que também têm sua elegância)sao exibidos pelas pessoas simples e trabalhadoras que percorrem as ruas de Santiago. No centro, conheci a Praça das Armas que traz em suas organizaçao a marca dos espanhóis, uma vez que distribui em seu espaço uma igreja, Correios, um órgao do governo e um museu. Batendo perna pelo centro, encontrei o Palácio da Justiça, o Teatro Municipal, igrejas históricas, a Biblioteca Municipal, praças, a Bolsa de Valores e outras tantas maravilhas que Santiago consegue manter intacto apesar dos terromotos.
À noite, saí com Viviana e fomos ao Bela Vista. Durante o passeio noturno, Viviana mostrou-me o Museu de Belas Artes, o Museu de Artes Visuais e a casa de Pablo Neruda. Depois sentamos num barzinho e tomamos uma cerveja que traz nome alemao, mas é fabricada no Chile. Hoje voltei ao Bela Vista e fiz uma visita guiada pela casa do Pablo Neruda. Há a identidade do Neruda pulsando naquela casa. Foi muito bom encontrar fotografias e matérias de jornal que traziam Neruda, Vinicius de Moraes e Jorge Amado. Fiquei sabendo também que o poeta Thiago de Mello mantinha uma relaçao estreita com Neruda e foi seu tradutor no Brasil. Em seguida, subi um mirante de bondinho (aqui se dá outro nome, mas nao lembro agora). No alto do mirante, um zoológico, piscinas e um santuário. Uma visao panorâmica da cidade é possível desse lugar. Para finalizar a jornada de hoje, visitei o Museu de Belas Artes que, além das clássicas esculturas, apresenta exposiçoes de artistas locais. Bem, por hoje é só. Só mais uma coisa: a imagem abaixo mostra a visao que se tem de Santiago do alto do cerro ou mirante.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Mendoza/Aconcagua

"O mundo é bao, Sebastiao!" É com essa frase retirada de uma música do grupo Titas que inicio o post de hoje. Se o bom de viajar é a descoberta, o melhor é encantar-se. E quando a gente se encanta, o mundo deixa de ser apenas "bao", como diz o trecho da música, e passa a ser objeto de admiraçao. Exercitar a admiraçao por um mundo que nao é apenas "bao", mas também absurdamente belo porque organizado e harmônico, torna-nos responsáveis por esse mundo. É essa reflexao que vem à tona quando visitamos a Cordilheira dos Andes. É sobre a cidade de Mendoza e a Cordilheira que falarei hoje. Mendoza é uma cidade pequena e com uma paisagem um tanto proviciana, embora a McDonald´s e o Carrefour já tenham aportado por aqui. Nao obstante, Mendoza conserva comportamentos, estrutura e hábitos tipicamente interioranos. As pessoas daqui nao exibem beleza nem sao tao bem vestidas como as de Rosario e Córdoba. Isso faz de Mendoza uma cidade familiar, e onde se pode caminhar mais à vontade. O que torna Mendoza uma cidade atraente é o turismo que se constitui de trilhas, lugares paradisíacos, Cordilheira dos Andes, Aconcagua, prática de rafting, riding etc. No mais, a cidade nao apresenta grandes atrativos. Numa tarde, você percorre algumas praças, como a Chile, a Italia, Independencia, San Martín e España. Como anoitece bastante tarde aqui, a partir das 21h (hora que o comércio começa a baixar as portas), você pode esticar e conhecer um dos maiores parques da América Latina, o San Martín. É um parque que ocupa uma área de 400 hectares e reúne cerca de 550 espécies vegetais. Além disso, um lago que é bastante usado para a prática de canoagem, salta aos olhos. Vale a pena reservar um bom tempo para explorar esse parque que é um dos grandes atrativos da cidade. Aqui também encontrei autores de prosa e poesia que contribuem para a literatura mendoncina e do país. Hoje acordei cedo, porque às 7h15 o transfer passava para começar a excursao pela Cordilheira dos Andes. Saímos do hostel acompanhados por uma guia muito divertida, simpática e sem papas na língua. Ao todo, éramos dez turistas prestes a descobrir as maravilhas dentro da Maravilha que é a Cordilheira dos Andes e o Parque Aconcagua. Nesse grupo, existiam franceses, holandeses, bolivianos, polacos, argentinos e um brasileiro, eu :). Deixamos Mendoza às 8h30 e, desde entao, os olhos dilatavam diante de tanta beleza natural. A Cordilheira está dividida em três partes (ainda lembro da nossa guia louca explicando isso e pedindo para que as peguntas fossem feitas apenas em espanhol): Pré-Cordilheira, Cordilheira Frontal e Cordilheira Principal. A Cordilheira dos Andes é uma vasta cadeia montanhosa que vai da montanha mais baixa a mais alta e sua classificaçao é dada de acordo com o tamanho das montanhas. Sendo assim, a Pré-Cordilheira refere-se àquelas montanhas baixas, a Cordilheira Frontal àquelas de tamanho mediano e a Cordilheira Principal àquelas que chegam a 6.962m, como é o caso do Aconcagua. Fizemos um longo percurso, intercalado por pequenas paradas para "sacar" (tirar) fotos. Ao longo do passeio, a guia (louca, louca, louca...) explicava sobre povos que habitam aquelas áreas que ficam ao pé da Cordilheira, o rio Mendoza que nasce do degelo da neve que cobre as montanhas, linhas de trem desativadas, "rutas" rodovias destruídas etc. Paramos, paramos, paramos e, extasiados diante de todo aquele espetáculo natural, "sacávamos" (totalmente em portunhol) muitas fotos. Enfim, chegamos ao Parque Aconcágua. A van fez o transporte até determinado trecho e depois ficou por nossa própria conta e risco. Tínhamos que fazer um longo trecho a pé, pisando sobre pau e pedra. De longe, avistamos o imponente e amedrontador Aconcagua: objeto de desejo de muitos montanhistas. Cercado de montanhas, vegetaçao rasteira, lagos de águas límpidas, clima seco e frio, montanhas vestidas de neve, parei e pensei: "O mundo é bao, Sebastiao." É isso.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Crônicas de um viajante em Córdoba/Mendoza

Buenos dias, amigos!! Finalmente cheguei em Mendoza. Após dez horas de estrada, encontro-me perto do Aconcagua, da Cordilheira dos Andes e do Chile. Saí de Córdoba às 13h30 e cheguei em Mendoza às 00h30. Pensei que o tempo de viagem era o mesmo dos outros trechos (cinco horas) e acabei saindo tarde de Córdoba. Ainda na Província de Córdoba, muita chuva e nuvens bem pesadas. Acredito que os cordobeses devem ter dançado muito o toré, porque o calor estava infernal e a chuva veio com força. Córdoba tem festival de música? Tem sim, senhor!! No domingo à tarde, rolou um festival de música na praça Sarmiento e assisti o pedacinho de uma apresentaçao de uma banda formada por jovens que tentavam animar o público anêmico e indiferente que lotava a praça. Dali, segui pelo parque, destino predileto dos cordobeses aos domingos. Toalha lançada sobre a grama, família reunida, muitas empanadas, medialunas e alfajor...Pronto! A farra do cordobense está completa. E nao se pode deixar de citar a Coca-Cola, objeto bastante cultuado nessa parte do mundo. Na segunda-feira, acordei cedo, melhor, acho que nem dormi porque o calor me cutucava a todo instante. Embora o passeio do hostel nao tenha acontecido, peguei minha câmera e fui à cidade de Alta Gracia às pressas para nao perder a hora do café da manha na casa de Che Guevara. É isso mesmo que vocês acabaram de ler! Che Guevara viveu em Alta Gracia e, na casa onde viveu, hoje funciona um museu. Mas nao é só a casa de Che que Alta Gracia, cidadezinha guardada pelas serras de Córdoba, apresenta ao turista. A cidade também abriga a Parroquia Nuestra Señora de la Merced e as Missoes Jesuíticas, ambas tombadas pela Unesco e feitas patrimônio da humanidade. Além dessas obras de grande valor histórico e do Museu Che Guevara, Alta Gracia presenteia o turista com o Museu Manuel Falla e o Museu Dubois. Como toda cidade serrana, Alta Gracia exagera nas ladeiras e, ao fim do dia, as pernas imploravam por descanso. Antes de sair de Córdoba, voltei ao centro da cidade que se encontrava bastante movimentado e tomado por brasileiros que visitavam as construçoes históricas. Saí procurando música e literatura produzidas por cordobeses. Encontrei materiais interessantes e acredito que estou levando o melhor da Argentina para casa. Aqui tenho me virado muito bem com meu portunhol e, de tanto ouvir as diferentes versoes da língua, estou perto de falar espanhol. Aproveito para fazer uma imersao na língua e leio tudo que me aparece. Nada passa despercebido. É assim que descobri que "tapa" aqui significa "camada" e, desse modo, nao pense que um tapinha argentino nao dói, pois, dependendo do material da camada, pode doer bastante. Ontem o recepcionista do hostel onde estava hospedado, explicou-me que uma comida "extraña" é uma comida muito boa e ainda bem que descobri a tempo que "gaseosa" é refrigerante, do contrário, nao teria sabido escolher entre café ou gaseosa quando me ofereceram no ônibus. Enfim, curiosidades de uma língua que tem me fascinado. Vou nessa, porque mais tarde tenho Mendoza para explorar e na quinta, Aconcagua. Vou escalar e gritar bem alto: Yo estoy bien!!!!!